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Eduardo Souza Lima

O CINEASTA INVISÍVEL E DO INVISÍVEL

Tem a maior cara de piada, mas até que faz sentido: andam dizendo por aí que o próximo projeto do cineasta Terrence Malick é adaptar para as telas o romance O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger. Parece piada porque o que os dois, ao lado do escritor Thomas Pynchon, certamente são os mais excêntricos e reclusos artistas americanos da atualidade. Conseguir uma entrevista com qualquer um deles é missão quase impossível. Até por isso, o boato faz sentido: Malick parece ser o homem certo para levar o universo de Salinger para o cinema.

Malick só sai da toca - dizem que ele mora numa fazenda no Texas - quando realmente tem algo a dizer. Não à toa, fez apenas três filmes -todos lançados em DVD no Brasil - sendo que entre o segundo, Dias de Paraíso (Days of Heaven, 1978) e o terceiro, Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998), ficou 20 anos em silêncio. A ponto de muita gente desconfiar que ele sequer existisse de verdade. Não à toa também, houve uma correria de astros atrás dele, quando anunciou que iria adaptar o romance de guerra de James Jones para as telas. Nomes como John Travolta, George Clooney e Nick Nolte se ofereceram para trabalhar de graça. E muitos deles foram impiedosamente cortados do filme na edição final.

Nascido em Waco, no Texas, em 1945, Malick estudou nas universidades de Harvard e Oxford. Só havia dirigido um curta, Lanton Mills (1969), quando o American Film Institute resolveu bancar o seu primeiro longa-metragem, Terra de Ninguém (Badlands, 1973). E foi logo botando as manguinhas de fora, demonstrando um preciosismo que faria Stanley Kubrick corar: rodou todo o filme no que os fotógrafos chamam de hora mágica - os períodos do dia que vão dos minutos antes do nascer do sol até pouco depois do crepúsculo. A decisão foi perfeita, pois os personagens parecem estar ao mesmo tempo acabando de despertar para a vida e próximos do fim dela. O roteiro, do próprio Malick, é inspirado numa história real — uma série de assassinatos e fugas ocorridas nos 50.

Para fazer a reconstituição de época, o diretor praticamente lançou mão apenas de uma jaqueta jeans e de um Cadillac, já que boa parte da ação se passa no deserto. Estrelado por Martin Sheen e Sissy Spacek, o filme é um estudo da alienação causada pela falta de afeto e de perspectivas. Sua violência é desconcertante, dolorosa. Mas praticamente não há remorsos, já que os protagonistas não sabem avaliar os danos de seus atos.

Para o seu filme seguinte, Dias de Paraíso, Malick importou o diretor de fotografia cubano Nestor Almendros. A história, triste como ela só, se passa durante a Grande Depressão: o errante Bill (Richard Gere) viaja pelo país, em busca de trabalho, acompanhado da caçula Linda (Linda Manz) e da mulher Abby (Brooke Adams), que se faz passar por sua irmã. Quando um rico fazendeiro (Sam Shepard) que está à beira da morte se apaixona por ela, Bill a convence a se casar com ele. O fazendeiro, porém, parece revigorar-se com a união. E o fim trágico se avizinha.

Seu último filme, Além da Linha Vermelha, é também o seu projeto mais ambicioso. Tido como um dos mais belos libelos contra a guerra, o filme pode parecer anacrônico, dadas as inquietações manifestadas nele pelo cineasta, que à primeira vista parecem ter parado nos anos 70. Como os seus filmes anteriores, a trama é conduzida por um narrador. Só que, neste caso, eles são vários. Mas, no fim, as várias vozes parecem sair de uma única boca. Se há alguém capacitado a levar para as telas as inquietações do Holden Caulfield de Salinger, este alguém, sem dúvida, é Malick.

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