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Jô Hallack

TRISTEZAS: TENHO TRÊS
TROCO POR ALGO DO MEU INTERESSE

Não há nada mais triste do que ler os classificados do Balcão. O seu pretendente que não existe e até aquele seu problema na firma não são nada comparados aos dramas pessoais deste jornal. E nem é preciso escolher os classificados pessoais, aquela famosa seção dos corações partidos. Sorteie logo uma página qualquer e descubra que Dona Nair vende almofadas em forma de peixe, feitas de cetim. “Tenho duas”, avisa ela. Não sei vocês, mas os meus olhos já estão cheios d’água.

Paula troca sua sala de jantar em mogno por um DVD, um karaokê, uma câmera digital ou qualquer outra coisa do seu interesse. Um negro politicamente correto se define como um “afro descendente que quer mulheres de nádegas grandes que acreditem no amor.” Uma senhora linha-dura “é viúva e gostaria de corresponder-se exclusivamente com militares das Forças Armadas para compromisso sério, 60/65 anos”. Para que a massa não se anime, ela pede logo: “atender anúncio somente MILITARES. E casa própria”. Viver de aluguel, nem pensar.

Gosto muito da seção dos detetives, que tentam se dar bem às custas da infelicidade alheia e flagrar os infiéis. Tarso e Ataíde são investigadores profissionais e fazem serviços de alta qualidade, inclusive com levantamentos de endereço e de amizades. No setor de compras para o lar e vestuário, tenta-se empurrar de tudo. Um quer vender três calças americanas que, garante, “são legítimas”. Outra quer vender bruxas. “Tenho 35, inclusive uma que fala. R$100,00 tudo”. Um ateu vende uma ”bíblia sagrada, ilustrada, mas sem uso”. Tarados aposentados empurram suas revistas masculinas. “Coleção de revistas Playboy, Brasil, Private, Buttman, 100 unidades”. Tem também os étnicos arrependidos. “Vendo panô decorativo indiano, 0,50x1,50, horizontal, procissão de casamento, com elefantes dançarinos.” Ou “Par de máscaras típicas, em madeira, África do Sul e com suporte”. Há ainda os que voltaram americanizados. Ou que nem chegaram a ir. “Oscar réplica da estatueta...” — é aí que vem o detalhe que muda tudo — “autorizada pela Academia de Ciência e Artes de Hollywood”. Há ainda o Power Memory, curso de memorização que traz técnicas para triplicar a memória!! E lembranças jogadas fora. “Camisolas, tenho dez. Longas, rendadas, com babados, bonitas, enxoval de noiva”.

Os solitários procuram “carinho, afeto e uma palavra amiga”. “Motorista e cobrador de ônibus, quero amizade com vocês, sou amigo, boa aparência”, oferece um deles. As mulheres meio muquiranas não estão dispostas a gastar um só centavo na busca da pessoa amada. Uma gata loira, estrangeira e bonita tem corpo escultural mas só responde às cartas se o pretê enviar os selos. Que imperialismo! Já uma morena de 1,74m quer conhecer um homem sem vícios. Mas avisa: “não ligo celular!” Tem as que tentam fazer poesia. “Morena solteira, 1,70m, 69Kg, no infinito procurei estrelas, visitei satélites a tua procura”. E as metidas: “Preciso conhecer homem maduro que me surpreenda e me supere, para me completar. Será que existe?” Talvez. “Adoraria encontrar mulher bonita, liberal, que goste daquilo que as outras não gostam”, diz um fulano, que ainda acena com um futuro compromisso. Será que a insuperável gosta daquilo?

Um homem que pratica tênis quer se encontrar com mulheres casadas. Uma mulher casada procura um homem que a ame e que ainda lhe dê ajuda financeira. Um João vende ou troca três discos de samba. Compactos. Alguém quer se livrar de penas de pavão que usou no carnaval. Ou de um corte de tropical inglês. Murilo é churrasqueiro mas também pode ser garçom fritador, barman, copeiro ou segurança. A cabeleireira tem experiência em permanente americano.

Mas o mais comovente é um senhor de 59 anos, estabilizado, que procura uma mulher manequim 42, acima dos quarenta. Tem que ser senhora de família, e que queira reconstruir um lar, uma família de verdade. E justifica: “não quero este Natal terrivelmente igual”.

PS: Para ler o Balcão, recomendo uma boa trilha. Experimente Argemiro Patrocínio, só tome cuidado com o aguaceiro.

Jô Hallack é jornalista e uma das autoras do site www.02neuronio.com.br

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