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“Quanto mais o Universo se torna compreensível, mais ELE parece sem sentido.”

 

 

Quem diria que na intimidade do mais famoso playboy do Brasil encontraríamos os princípios da mais vã filosofia? Pois aos 87 anos Jorge Guinle revela seu lado epicurista e conversa com a Revista Gávea sobre os ensinamentos que nortearam sua vida desde a época em que estudou no Collège de France, em Paris, ao dia-a-dia no Rio de Janeiro - sempre cercado de lindas mulheres, claro. Acostumado a freqüentar o jet set do mundo inteiro e as badalações mais variadas, Jorge guarda lembranças carinhosas dos mais importantes eventos que presenciou nas últimas décadas. Sentou-se nas primeiras filas de quase todos os Oscars, conheceu cinco presidentes dos EUA, tocou piano com o trompetista Dizzy Gillespie e namorou celebridades do showbusiness internacional entre os anos 40 e 80. Mas apesar da trajetória, Jorginho, como é chamado pelos amigos, é um sujeito simples. Entre suas paixões está o jazz. O fascínio pela música começou aos 12 anos, e em 1953 escreveu o primeiro livro em português sobre o assunto - que ganhou uma segunda edição em 56 e acaba de ser atualizado e reeditado.

REVISTA GÁVEA - Playboy e filósofo. Pelo simples fato de ser um paradoxo, essa combinação não lhe parece inviável?

JORGE GUINLE - Epicuro dizia, trezentos anos antes de Cristo, que a vida é uma busca de prazeres. Tive a felicidade de ser playboy, o que me permitiu conhecer todas as formas de prazer. O dinheiro me possibilitou muita coisa, inclusive estar com mulheres incríveis. No meu caso, playboy e filósofo se complementam perfeitamente. Sou filosoficamente materialista. Para mim, prazer é a realização plena dos nossos valores; emotivos e intelectuais. Claro que esses valores variam de pessoa para pessoa, mas não acho que deveria existir o prazer resultante da inveja, o prazer do ódio, do ressentimento, do fanatismo. Sempre achei que as relações humanas são mais importantes do que a satisfação dos bens materiais. Detesto ostentação, não aceito o absurdo poder do dinheiro e tenho horror a qualquer manifestação nouveau riche. Odeio dinheiro, mas odeio mais a sua falta.

RG - Quando foi que você começou a estudar filosofia?

JORGE GUINLE - Poderia dizer que sou autodidata. Comecei lendo os livros que me apareciam. Em 1938, fui para o Collège de France, onde o professor Le Roy era titular da cadeira de Henri Bergson. Na época, eu era um materialista dialético. Saí do curso ainda materialista, mas convencido de que a dialética como instrumento de raciocínio não está com nada. Adotei uma variante mais pragmática e positiva.

RG - Na sua opinião, quais são os filósofos mais importantes?

JORGE GUINLE - Heidegger, Hegel, Leibnitz, Descartes, Berkley, Zenão, Parmênides, Kant e Heráclito. Mas o maior do século 20 é um que não é filósofo: Einstein.

RG - Qual a influência que a filosofia exerceu na sua vida?

JORGE GUINLE - Sempre tive a noção do certo e do errado , nunca me deslumbrei com a fama dos filósofos. O discernimento e o julgamento correto estão na base do saber viver. É bem verdade que tudo se encaixa muito bem com meu hedonismo, pois, como disse Dostoiewski, “se Deus não existe, então tudo é permitido!”. Os valores são sempre relativos, assim se ganha na loteria ou se herda muito dinheiro. Mesmo que seja injusto da minha parte falar isso, porque deve-se trabalhar? Precisamos passar a vida procurando a verdade.

RG - E o Jazz?

JORGE GUINLE - Está tudo no meu livro Jazz Panorama. Lá todos descobrirão o que sei.

RG - E Deus?

JORGE GUINLE - Não acredito. O manifesto dos ódios é construído sobre fundamentos teológicos. Nunca houve na história períodos mais estagnados, corruptos e brutais do que aqueles em que o poder religioso foi dominante. Blaise Pascal disse: “Nunca o ser humano pratica o mal tão completamente e com tanto prazer, como quando o faz por convicção religiosa.” Só sei de uma coisa: foi o homem que criou Deus.

RG - O que tem importância hoje?

JORGE GUINLE - A liberdade, e isso porque a verdadeira liberdade é a consciência, portanto a livre escolha. O problema é que não é explicável.

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“Precisamos de pessoas malucas. Vejam só onde as pessoas normais
nos levaram.”