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Se
hoje
em dia as ruas da Gávea e adjacências são
tomadas por blocos como o Monobloco e o Suvaco de Cristo
durante o carnaval, ou pela juventude que freqüenta
a área onde se encontram os restaurantes Braseiro
da Gávea e Hipódromo, houve, há
tempos atrás, ocasiões em que elas eram
ocupadas pelos amantes da velocidade. Entre 1933 e 1954,
baratinhas de marcas como Maserati, Ford, Alfa Romeo,
Bugatti, Allard e até Ferrari disputavam o chamado
Circuito da Gávea, uma corrida que teve 16 edições,
revelou pilotos como Chico Landi, Manuel de Teffé
e Pinheiro Pires, e chegou até a atrair ases
estrangeiros para disputá-la, como o notório
Juan Manuel Fangio que correu em 1952, logo depois
de ganhar seu primeiro campeonato na Fórmula-1,
mas foi superado por Landi.
Considerada
como a prova que deu início de fato à
história do automobilismo brasileiro (embora
várias corridas viessem sendo disputadas na então
capital da república desde 1905), o Circuito
da Gávea estava longe de ter o traçado
regular dos grandes prêmios de hoje em dia. Em
seus 11.160 metros, os pilotos tinham que enfrentar
vários tipos de calçamentos paralelepípedo,
asfalto, macadame, terra e concreto subidas,
descidas e curvas extremamente radicais e mesmo
assim chegavam a atingir velocidades de 250 km/h em
alguns trechos. O grande campeão do Circuito
da Gávea foi o Alfa Romeo do brasileiro Chico
Landi, que chegou a conquistar três títulos,
mas dizia-se na época que quem terminasse a prova
poderia se considerar um verdadeiro vencedor.
A
largada era dada na Rua Marquês de São
Vicente, na altura do antigo número 354, e os
carros seguiam pela Visconde de Albuquerque, margeando
o canal que liga a Lagoa Rodrigo de Freitas ao mar até
chegar à Avenida Niemeyer. Depois que se afastavam
da orla, os carros seguiam em terreno plano, num local
onde havia uma formação de água
chamada Lagoinha, subiam a Rocinha, passavam pela Estrada
da Gávea, e depois de alcançarem o topo
do morro desciam de novo até a Marquês
de São Vicente.
O
sonho de realizar uma corrida de prestígio na
Gávea foi materializado pelos colegas Carlos
Guinle (pai de Jorge Guinle), Manuel de Teffé
(que foi o vencedor nas edições de 1933
e 1939) e pelo italiano Primo Fioresi, que se empenharam
para transformar a prova num sucesso nacional. Afinal
de contas, não era apenas a nata da sociedade
carioca da primeira metade do século que ia para
a rua acompanhar o Circuito da Gávea. Até
mesmo estadistas como Getúlio Vargas e Eurico
Gaspar Dutra chegaram a presenciar várias largadas.
O que dá a medida da importância do Circuito
à nível nacional.
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MEMÓRIA
DO AUTOMOBILISMO
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Para
registrar a história do Circuito da Gávea,
o pesquisador e advogado Paulo Scali reuniu, num livro
luxuoso e fartamente ilustrado, todas as informações
disponíveis sobre a corrida conhecimento
que só era privilégio de alguns antigos
amantes do automobilismo e que estava perdido nos arquivos
dos jornais que circulavam entre os anos 30 e 50. Depois
de ser distribuído apenas para os clientes da
Mahle Metal Leve, em 2001, o trabalho de Scali pode
agora ser adquirido em qualquer livraria. Segundo o
autor, a grande dificuldade que teve para produzir sua
obra esteve no levantamento dos dados. Tudo o
que diz respeito à memória do Brasil é
muito complicado de ser apurado. Ainda mais quando se
pesquisa fatos que transcorreram durante os anos 30,
época em que nosso país era essencialmente
agrícola e quase não se dava importância
ao automobilismo. Depois de passar quatro anos
escrevendo e pesquisando a história do Circuito
da Gávea, Scali acabou tendo uma boa noção
da importância da prova. A Gávea
está marcada não só na história
do nosso automobilismo como na do esporte à nível
continental. Por ter atraído os grandes pilotos
da época para dela participar, a corrida também
ajudou a divulgar o nome do país em todo o mundo.
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