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No espaço de Paola Lenti, o artesanal está em alta no coloridíssimo tapete de crochê de corda de algodão criado por Patricia Urquiola

 

 

 

 

CASA À MODA ITALIANA

Quase 3000 expositores espalhados por 221 mil m2 reunindo uma média de 200 mil visitantes do mundo inteiro. Milão, a capital da moda e estilo da Itália, sediou o 45º Salão Internacional do Móvel / Salone del Mobile, um evento imperdível para quem se interessa por design e decoração.

Impossível descrever o megaevento que tomou conta de Milão, entre os dias 5 e 10 de abril, enumerando simplesmente as tendências de design e decoração ali apresentadas. Afinal, a Feira do Móvel - que reúne também os 141 expositores da bienal Eurocucina e Salone Internazionale del Bagno (destinados a lançamentos da área de cozinha e banheiro), além do Salão Satélite, onde jovens criativos exibem seus projetos - é algo muito maior, com cerca de 350 mostras espalhadas pelos quatro cantos da cidade (Fuori Saloni). Em suma, há pequenas exposições em lojas, museus e centros culturais, outras à céu aberto e muitas grifes reunidas também nos galpões da Zona Tortona (algumas alternativas e irreverentes como o Superestúdio Più, do inglês Tom Dixon, outras consagradas, como a cristais Swarovski). Ou seja, muito o que ver, fazer, digerir e aprender. Idéias e inspirações para todo o tipo de público e gostos.

Dessa vez, a festa ainda foi mais grandiosa com a inauguração do novo complexo Rho-Phero, construído como parte do processo de reurbarnização de uma área localizada a 20km do centro da cidade. O projeto do arquiteto Massimiliano Fuksas é nada menos do que impressionante, com uma enorme estrutura de aço e vidro, perfeita para abrigar a feira comme il faut: com total competência, organização e sofisticação. O metrô foi também ampliado para deixar os visitantes dentro de uma área coberta, logo na entrada do pavilhão. Dividido nos temas "Clássico", "Design" e "Moderno", os expositores mostraram criações que privilegiaram o branco em muitas reedições de peças consagradas - em resumo, modelos antigos com novas dimensões, materiais e acabamentos. Na Edra, por exemplo, os paulistas Humberto e Fernando Campana apresentaram um remake da mesa Brasília, com tampo de mosaico espelhado em várias cores. "Eles são realmente grandes sensações do evento, tratados com a mesma reverência de um Philippe Starck", diz o arquiteto Luiz Marinho, que comparece há seis anos na feira.


O PUFF ASTER PAPPOSUS DOS DESIGNERS FERNANDO E HUMBERTO CAMPANA PARA A CASA EDRA.

O que uma visita às centenas de estandes comprova é que não há rigidez de regras quando o assunto é morar bem - e com muito estilo. O importante é garimpar, em meio a tanta versatilidade, o que combina com a sua casa e o seu jeito. Mas algumas tendências se destacaram no evento: o preto e branco são clássicos que resistem ao tempo e as estampas florais - que lembram um romantismo retrô e quase geométrico - também sobrevivem forrando poltronas e paredes e quebrando, muitas vezes, a rigidez de formas retas e ambientes limpos e modernos. "Parece que a casa está se tornando mais poluída de estampas, mais personalizada e quente. Mas tudo em tons neutros", contam as arquitetas Carmem Zaccaro e Marise Kessel, que também estiveram na feira. "Muitas camas têm dossel, os lustres são de cristal e até a madeira está mais mel, com uma tonalidade que lembra a nossa peroba. O rústico e bruto continuam forte, como um contraponto para as tecnologias avançadíssimas de ferragens e acabamentos de móveis", acrescentam elas. Para Luiz Marinho, as tonalidades que prevalecem são os marrons, grafites e pretos. "Os florais são muito conceituais e acho que, muitas vezes, não funcionam bem em ambientes como uma casa, porque se tornam cansativos. É algo feito para chamar a atenção e tornar os espaços mais cenográficos", afirma ele.


Chaise Antibodi da badalada designer espanhola Patricia Urquiola para a Moroso

A aproximação com a moda, de um modo geral, é também uma aposta forte no universo da decoração. Valentino, Dior, Armani e Cavalli são alguns nomes que estão investindo em linhas específicas de produtos para a casa. Na contrapartida, muitos designers de móveis se fazem valer, cada vez mais, de acabamentos dignos de alta-costura e de detalhes que privilegiam o artesanal. A espanhola e badalada designer Patrícia Urquiola criou para a Moroso a bela chaise Antibodi, com dobraduras de feltro que parecem flores. Já o sofá RPH (Revolutions per hour) que Fabio Novembre desenhou para a Cappelini ganhou um revestimento de tweed de lã que lembra a elegância de um tailleur Channel. O toque feminino também se faz notar nos tons terrosos e rosados das peças de Paola Lenti. "Esses designers se destacam porque se preocupam com cada detalhe do móvel: o verso, a costura, o acabamento. E tem um diferencial, trazendo esse visual da moda para a decoração. Nada de pret-à-porter. É uma alta costura mesmo", define Patrícia Quentel, da 3 Plus, que organiza a mostra Casa Cor carioca e compareceu esse ano ao evento. Luiz Marinho vê com um certo cuidado essas inovações. "Por mais que queiram inserir a moda no design de interiores, são contextos que não se baseiam no mesmo conceito. A roupa, em geral, é pensada para resistir por um ano. O móvel é um investimento muito caro e, por isso, deve ser feito para durar. Quem compra uma peça para a casa deve se preocupar essencialmente com conforto, qualidade e estética. Acho que necessariamente nessa ordem".


A estante modular Random, da Neuland Studio, apresenta um mosaico de módulos que facilitam a adaptação em qualquer tipo de espaço

Outro evento paralelo - no mesmo pavilhão Rho-Pero - que se repete a cada dois anos (revezando com a feira de iluminação) é a Eurocucina. A abundância de materiais e ferragens chamou a atenção das arquitetas Marise e Carmem, que viram também cozinhas cada vez mais integradas à sala de estar. "São espaços que conquistaram um visual extremamente moderno", dizem elas. Exemplo? A Minotti Cucina onde simplesmente, de fogão à pia, tudo se escondia atrás de painéis de madeira (ou laminado, como é mais comum na Itália) que se abriam com leves toques. "Definitivamente a cozinha entrou dentro da sala", atesta Patrícia. "É claro que o europeu e americano apostam nessa tendência, porque efetivamente usam esses ambientes já que não têm empregada. Mas de qualquer forma, é um costume que veio para ficar", resume. O Z.Island Unit, criado pela arquiteta Zaha Hadid, chama também atenção por sua aparência futurística. Montado todo em Corian, privilegia os equipamentos multimídias, tão (ou mais) importantes quanto o fogão e a geladeira. "A cozinha funcionar como o centro da casa não chega a ser uma novidade. O que impressiona é o investimento em design para esse ambiente", atestam Carmem e Marise, que destacam ali a combinação de madeira, aço, vidro e cerâmica. Nos banheiros, impera a mesma estética da alta tecnologia e do minimalismo. Luiz Marinho se apaixonou pelos registros de água deslizantes da Boffi e também pela abundância de modelos de banheiras de hidromassagem com todo o tipo de jatos.

"Algo que me chamou a atenção foram também as luminárias pendentes, que trazem muita personalidade aos ambientes. A luz embutida e discreta foi preterida em função de lustres maravilhosos, muitos de acrílico", conta Patrícia que aproveitou também para dar uma olhada no Fuori Saloni. "Tem tanta coisa para ver, mas o que mais gostei foi a mostra com trabalhos de Ron Arad (designer israelense) que estava no Metropole, o antigo cinema que Dolce Gabanna comprou e renovou. Imperdível", resume ela. Carmem e Marise ficaram impressionadas com os galpões da Zona Tortona e a exposição de Swarowski. Já Luiz Marinho gastou vários dias batendo perna pela cidade, desvendando as pequenas exposições dentro das lojas, todas anunciadas com um banner escrito "Interni" na fachada. Ou seja, cada um traçou um roteiro bem específico do melhor de Milão, sem dúvida um programa imperdível para quem aprecia design e estilo. "Parece uma overdose de informações, mas vale muito a pena. Está tudo ali, concentrado", garante Patrícia.

Anote alguns nomes de designers e produtos que se ainda não estão na sua agenda, um dia vão entrar...

PATRICIA URQUIOLA - Está desenhando para todas as grandes marcas e trouxe toques de alta costura para o design de móveis. Seus produtos são diferentes e criativos. Olhe o verso das peças, o acabamento é fundamental.
FABIO NOVEMBRE - Um must quando o assunto é irreverência. Era a capa da revista Interni lançada durante o evento e assina o visual de vários bares e restaurantes de Milão.
MARCEL WANDERS - Conquistou o prêmio de Designer do Ano da Elle Décor italiana. Holandês, ele usa ironia e fantasia em seus desenhos, que tem a marca do contemporâneo. Trabalha para Bisazza, assina a linha New Antiques da Cappellini e o tecido My Dreams da Moroso.
LOUISE CAMPBELL - Sua poltrona Prince é um luxo, feita de neoprene com recortes que lembram uma renda. É um ótimo exemplo da influência da moda no design de móveis. Em exposição nas Conran Shops do mundo inteiro.
ZAHA HADID - Ela não chega a ser uma novidade, já que sua fama é enorme. Mas a luminária Vortexx, lançamento com sua assinatura, utiliza uma tecnologia das mais modernas.
Neuland Studio - A estante Random é um mosaico simples e impressionante feito de pequenos módulos perfeitos para guardar livros e para ser apreciada.
HUMBERTO E FERNANDO CAMPANA - Precisa explicar? Já se tornaram celebridades no mundo inteiro quando o assunto é design.
SUPERESTUDIO PIÙ - Tom Dixon é o criador por trás da nova coleção expressionista da casa.

 

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