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POR
AMOR À CULTURA
No
coração do Baixo Gávea, A CASA
DA GÁVEA se dedica à formação
de atores, leitura e encenação de textos
dramáticos e SE torna referência em teatro
no Rio de Janeiro
Por
Bianca Jhordão
TSaí
de casa a caminho do Baixo Gávea. Estava quente
e eram quase 4h da tarde. Vindo da Rua Marquês
de São Vicente, virei à esquerda na Praça
Santos Dumont e, antes da primeira esquina, vejo uma
pequena entrada com uma escadinha, bem ao lado do Braseiro.
Subi os degraus e me deparei com um ambiente muito aconchegante,
com as paredes cobertas de pôsteres, luminárias
em forma de estrelas e um piano num canto da sala. Na
pequena varanda, de frente para uma linda vista para
o Cristo, aguardo Juliana Betti, uma das novas sócias
da Casa da Gávea. "Desde pequena freqüento
o Baixo Gávea", se aproxima Juliana, "Esse
lugar é especial".
A
vida da cantora e atriz está intimamente ligada
ao lugar, já que seus pais, os atores Paulo Betti
e Eliane Giardini são alguns dos sócios
do centro de cultura, ao lado de Antonio Grassi, Cristina
Pereira, Guilherme Abrahão, Rafael Ponzi e Vera
Fajardo. E tudo começou exatamente numa das mesas
de bar do Baixo Gávea, onde esses atores se reuniam
e sonhavam com a idéia de seu próprio
palco.
"Fiz
teatro amador, estudei na EADUSP e fui professor da
Unicamp. Quando mudei para o Rio, sentia falta de uma
atividade educacional e de uma sede para os trabalhos,
um ponto. Um local onde se devolva à comunidade
um pouco do que ela nos dá. Tenho vontade de
agregar, de produzir, sempre trabalhei em grupo, a Casa
é isso" explica o ator, diretor, produtor
e presidente da Casa da Gávea, Paulo Betti.
Localizado
no Baixo Gávea, ponto de encontro da juventude
e boemia carioca, e construído em 1922, para
a Semana de Arte Moderna, o sobrado do antigo prédio
de esquina da Praça Santos Dumont estava fechado
e foi o lugar ideal para a realização
do projeto. "Rafael Ponzi e Cristina sempre moraram
por ali, eles é que acharam o lugar. O bairro
da Gávea fica perto do Jardim Botânico,
do Jóquei, tem a Feira de Antigüidades aos
domingos - que é uma maravilha! - é um
bairro gostoso, tem teatros, um shopping, é um
lugar privilegiado", elogia Betti.
Após
algumas reformas, em março de 1992 nasce a Casa
da Gávea. "Tudo nos levava a esse nome:
a beleza da fachada, a localização..."
continua Betti, "Nosso pequeno Centro Cultural
ajudou a revitalizar aquela região, agora o Braseiro
da Gávea invadiu completamente a calçada
e escondeu até nossa porta de entrada, prejudicando
totalmente nosso espaço, mas vai falar com as
autoridades para coibirem isso, nada... e o cheiro de
frango e carne? Lamentável...", alfineta.
Um
seminário sobre ética, coordenado por
Adauto Novaes, foi o pontapé inicial, seguido
do ciclo "Rede Imaginária", onde se
discutiu a democratização dos meios de
comunicação, com a presença de
José Miguel Wisnik e Gerd Bornhein.
A
sala Chiquinho Brandão foi inaugurada no ano
seguinte com a peça "A Obscena Senhora D",
de Hilda Hilst com direção de Eid Ribeiro
e "Morte e Vida Severina" de João Cabral
de Mello Neto com direção de Cristina
Pereira. Em 1993, a Casa da Gávea recebeu indicação
para o Prêmio Shell de Teatro pelo conjunto de
suas realizações.
A
Casa da Gávea firma um compromisso no sentido
de promover o desenvolvimento da atividade artística,
na procura de novos caminhos, de forma mais honrosa
e gratificante. No site oficial, o texto de apresentação
completa que é um empreendimento cultural que
dirige suas atividades para o estudo, debate e divulgação
das mais variadas formas de arte e cultura e para a
produção de espetáculos teatrais,
filmes, vídeos, edições de livros,
programas de rádio, exposições
e shows musicais. "A Casa da Gávea, depois
da CAL e do Tablado, é o lugar mais bacana para
se estudar teatro", afirma Juliana.
O
ator Rod Carvalho, que já fez aulas de teatro
no local, só tem elogios: "A Casa da Gávea
ajuda no crescimento cultural da cidade, abrindo espaço
para peças e shows de artistas que ainda estão
iniciando. Minha única ressalva é que
eles poderiam oferecer cursos de maior duração,
para os alunos não saírem de lá
com gostinho de quero mais".
À
frente do projeto "Som na Casa", Juliana Betti
arriscou utilizar o espaço também para
shows ao vivo. Em 2003 organizou uma pequena temporada
de quatro shows com sua banda. Deu tão certo
que, em 2004, voltou a se apresentar novamente. "E
fiquei na vontade de ativar o espaço para convidar
outras bandas e outros artistas para tocarem nesse novo
espaço, para as pessoas começarem seus
trabalhos", continua, "Fiquei até assustada
com a quantidade de material que recebi. No período
de um ano e meio foram cerca de 400 cds-demos de todo
o Brasil". O público também aprovou
e prestigiou o local, que desde o início do projeto
já recebeu mais de 2.000 pessoas, sendo que a
lotação do teatro é de 80 lugares.
Guitarrista
do Leela, Rodrigo Brandão se lembra do show de
BNegão & Os Seletores de Freqüência.
"Adorei aquele show! O dub viajante de algumas
músicas combinado com o clima do teatro criou
uma atmosfera incrível".
O
"Som na Casa" estreou com um show de Pedro
Luis ao violão, só que sem a Parede. "Foi
especial fazer esse formato, pois havia muito tempo
que não me expunha daquele jeito, já que
estou sempre muito bem acompanhado pelos cabras da Parede.
Foi um desafio que rendeu um enorme prazer". Pedro
também não poupa elogios ao espaço,
"A Casa da Gávea é super simpática
e minha estréia não poderia ser melhor:
assistindo Bianca Ramoneda em Só Cena",
relembra.

JULIANA
BETTI ESTÁ À FRENTE DO PROJETO SOM
NA CASA. ACIMA, IMAGEM ANTIGA DO SOBRADO QUE FOI
CONSTRUÍDO EM 1922 PARA A SEMANA DE ARTE MODERNA
"Não
ficou muito cheio porque foi o primeiro show do projeto,
e quem viu não esquecerá jamais! Ele fez
um show voz e violão, que não fazia há
muito tempo e que foi lindo!", relembra Juliana,
que conta também com o apoio de músicos
que moram / trabalham no bairro como Kassin, que escreve
uma coluna de música aqui na Revista Gávea.
Os
Ciclos de Leitura, que acontecem durante as segundas-feiras,
com entrada gratuita, existe há onze anos e têm
um público fixo. É também uma interessante
forma para os atores testarem seus textos, sentindo
a reação do público. O projeto
também teve uma ótima aceitação
e atualmente também viaja para as Lonas Culturais.
Juliana
se recorda de quando a Casa da Gávea colocou
um telão no sobrado onde essas palestras do Ciclo
de Leitura eram transmitidas ao vivo para o Baixo Gávea.
"Saiu até na imprensa uma reportagem dizendo
que o Baixo Gávea ficou no silêncio porque
as pessoas prestavam atenção nas palestras
do telão".
E
como administrar todas essas vertentes culturais com
tantos sócios ocupados? Paulo Betti nos responde.
"Falamos pelo telefone, trocamos e-mails, às
vezes fazemos reuniões e vamos decidindo. O planejamento
não é muito a longo prazo, estamos sempre
com a corda no pescoço, custa muito manter uma
casa como essa. Luz, água, aluguel, impostos,
é uma batalha. Não ganhamos nada, só
satisfação e dor de cabeça. Temos
um amigo, ator, que diz que nosso projeto é "A
Causa da Gávea". Uma boa sarna para coçar".
"É
muito trabalho pra manter. A casa é antiga e
precisa de manutenção constante",
diz Juliana. "Aproveitamos o início desse
ano para reformas internas e também na fachada.
Em maio as reformas ficam prontas e vai ficar muito
bonito".
A
Casa da Gávea é aconchegante, te faz sentir
em casa e tem todo um charme, uma certa magia. Afinal,
a arte costuma acontecer e se desenvolver em lugares
especiais como esse. "Espero que a Casa da Gávea
vire um novo berço para futuras estrelas da dramaturgia
nacional", torce Rod Carvalho.


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