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QUANDO O TEATRO VIRA CINEMA
O que faz de peças teatrais um alvo tão interessante para diretores de cinema?

Por Flávia Machado

Já foi ao cinema assistir a um filme daquele livro que leu e achou muito diferente da história original? É, isso acontece. Não porque o filme seja pior ou melhor que o livro, mas é que cada um guarda um universo único. Nada pode substituir o cheiro das páginas que vão passando e nos revelando um mundo sem precedentes, onde a imaginação não tem limites. Bem como ir ao cinema, comer pipoca e esperar que a telona o encante com um roteiro bem amarrado e uma fotografia fascinante.

Quando o teatro vira cinema não é diferente. A arte de representar ao vivo, com improvisações e saias justas de uma platéia em constante movimento, torna-se tola e genial ao mesmo tempo quando levada para a linguagem cinematográfica. Tola pelo fato de o público não estar ali, naquela hora, interferindo no espetáculo e a representação poder ser repetida até chegar ao que se quer. Mas genial pelo fato de ter que encontrar um lugar para aquela história e para aqueles personagens que não o original.

Para a atriz e diretora Carla Camurati, o mais importante é não perder a alma daquilo que está sendo adaptado. Em seu quarto longa como diretora, ela está em cartaz nos cinemas com "Irma Vap - O Retorno", uma adaptação da peça "O Mistério de Irma Vap", de Charles Ludlam, que atraiu cerca de três milhões de espectadores e ficou 11 anos em cartaz com o mesmo elenco. Neste caso, encontrar a linguagem certa para o filme foi o maior desafio da equipe, já que toda a graça do espetáculo estava no fato de Ney Latorraca e Marco Nanini revezarem-se em oito personagens, masculinos e femininos, em que eram obrigados a trocar de roupa em questão de segundos. "No caso do Irma Vap, tínhamos objetivos muito claros. O espetáculo foi escrito por Charles Ludlam, criador da "Companhia Teatro do Ridículo" de Nova Iorque. A companhia, por sinal, lembra um pouco a nossa chanchada, na qual a brincadeira é parodiar clássicos. Além da paródia, a utilização de clichês e o fato de dois atores interpretarem vários personagens são outras duas saídas humorísticas. E foi exatamente esse tripé que nós usamos na adaptação para o cinema, criando um roteiro original alinhavado pelas cenas do espetáculo", analisa. Na adaptação, Ney e Nanini interpretam dois papéis cada um, um feminino e outro masculino.


CARLA CAMURATI, NEY LATORRACA E MARCO NANINI DURANTE A FILMAGEM DE “IRMA VAP - O RETORNO”. ADAPTAÇÃO DA PEÇA QUE FICOU EM CARTAZ DURANTE 11 ANOS

Adaptações de textos teatrais não são propriamente uma novidade no cinema nacional. Nelson Rodrigues, referência do teatro brasileiro, já foi adaptado para diferentes linguagens. E se para ele, toda unanimidade é burra, somos todos seus discípulos e, obviamente, burros, pois seus textos são uma unanimidade no meio artístico, também em matéria de adaptação para o cinema. Ao todo, são simplesmente dezesseis peças teatrais de sua autoria que viraram longas-metragens, fora os curtas, séries e minisséries adaptados para a televisão. O primeiro deles foi em 1952, "O meu destino é pecar", com direção de Manuel Peluffo. Daí em diante, vieram tantos outros diretores como Nelson Pereira dos Santos ("Boca de Ouro", em 1962), Arnaldo Jabor ("Toda Nudez Será Castigada", em 1973, e "O Casamento", em 1975) e Bruno Barreto ("O Beijo no Asfalto", em 1980), que encantados com o texto trágico, permeado por adultérios e recheado de críticas sociais, fizeram de Nelson Rodrigues, talvez o autor mais filmado de todos os tempos no Brasil.

E o que faz de Nelson Rodrigues uma unanimidade? Para Camilla Amado, um ícone do teatro brasileiro, que brinca dizendo que está fazendo 100 anos de carreira: 50 como atriz e outros 50 dando aulas de interpretação, não existe receita pronta para uma peça ser bem-sucedida. No entanto, segundo ela, um texto clássico tem sempre seu valor reconhecido, passando por gerações sem perder o poder de tocar o ser humano. Talvez aí se enquadre o saudoso Nelson.


FLAGRANTES DE “POLARÓIDES URBANAS”, FILME DE MIGUEL FALABELLA COM ESTRÉIA PREVISTA PARA 2007

Desta fonte certamente bebem muitos diretores, mas sem receitas de bolo, nem rótulos definidos, o cinema nacional caminha com adaptações de peças sendo feitas aqui e acolá. Miguel Falabella, ator, autor de peças teatrais de sucesso, está agora se dedicando ao cinema como diretor. Previsto para estrear em janeiro de 2007 com o título provisório de "Polaróides Urbanas", o filme é uma adaptação de "Como Encher um Biquíni Selvagem", peça que teve enorme repercussão no cenário brasileiro, também de sua autoria. O diretor Bruno Barreto também aposta num grande sucesso do teatro, filmando "Caixa 2", peça de Juca de Oliveira, ainda sem previsão de lançamento.

E por que o teatro vira cinema? Pergunta difícil para respostas diversas. Provavelmente, para cada diretor ou ator que se faça esta pergunta tenha-se uma resposta diferente. Para Ney Latorraca, ator que divide a cena com Nanini no filme "Irma Vap - O Retorno", a montagem de uma peça tem um tempo determinado e o cinema é imortal. "O teatro é uma arte efêmera e a simples ou genial idéia de colocar isso no cinema contribui para que, num país onde não existe essa preocupação, a memória seja mantida." Boa resposta!

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