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Denise Lopes

Olhar estrangeiro deturpa o Brasil

Da imagem simpática de um Zé Carioca em Alô, amigos (EUA, Walt Disney, 1943) ao terror de Turistas (EUA, John Stockwell, 2006), que traz jovens norte-americanos sendo drogados, assaltados, presos, torturados e mortos, vítimas de uma quadrilha de tráfico de órgãos ao visitarem o Brasil, há muita diferença. O imaginário estrangeiro sobre os prazeres exóticos dos trópicos latinos sempre foi estereotipado, repleto de clichês, erros e fantasias. Mas daí a misturá-lo à violência extrema, perversão sexual e total ausência de governo, no sentido mais estrito do termo, vai um longo caminho, que mostra que cada vez mais a visão do país e do brasileiro lá fora é associada ao que há de pior.

Na pesquisa de doutorado, defendida na USP pelo professor da pós-graduação em cinema da UFF, Tunico Amâncio, são apontados cerca de 40 filmes realizados no exterior, que dão o Brasil como destino certo para ladrões, estelionatários, golpistas e ordinários de toda sorte. A tese de Tunico, publicada em livro - O Brasil dos gringos: imagens no cinema (Intertexto, 2000) - serviu de base para o documentário Olhar Estrangeiro, de Lúcia Murat, lançado no Rio e São Paulo. Além de paraíso da impunidade, filme e livro registram outras aberrações produzidas pelas lentes de fora, como um exacerbado erotismo sexual, onde o topless é permitido, os casamentos acontecem em rituais de candomblé na praia e o brasileiro é sempre um hedonista, despreocupado com a vida, que vive numa espécie de país do vale tudo. Como o trailer de Turistas apregoa: “Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer”.

O blockbuster da Fox Atomic, que deflagrou campanhas de boicote, comunidades no Orkut e contra-ataque da Embratur e das agências de turismo país afora, serviu para alertar sobre o poder da sétima arte de manchar, se não de vez, por muito tempo, a imagem de uma Nação. Olhar Estrangeiro discute este poder ao entrevistar interlocutores de produções como Feitiço no Rio (EUA, Stanley Donen, 1984), Orquídea Selvagem (EUA, Zalman King, 1990), Amazônia em chamas (EUA, John Frankenheimer, 1994), e Próxima parada, Wonderland (EUA, Brad Anderson, 1999), além de cem populares na França, Suécia e EUA, na tentativa de desvendar os mecanismos que produzem tantos fetiches e erros sobre o país.

Michael Caine, de Feitiço do Rio, e Hope Davis, de Próxima parada, Wonderland, são alguns dos entrevistados que mostram desconhecimento sobre o país. Enquanto Caine se espanta em saber da relação de Carmem Miranda com o Brasil - “Mas ela era brasileira? Carmem Miranda? Achei que ela fosse uma criação de Hollywood. Da América do Sul” - , Davis defende o roteiro, que coloca um latin lover cantando em castelhano músicas de Tom Jobim e convidando para uma praia em “Su Paulo”, dizendo que os erros seriam propositais para exacerbar ainda mais o caráter canastrão do personagem.

Turistas tem os mesmos erros de seus antecessores, a selva amazônica fica ao lado da praia do Rio, os personagens falam em espanhol e um negro e um índio estão entre os vilões. A diferença é que se em Brenda Starr (EUA, Robert Ellis Miller, 1989) se pode gargalhar vendo uma empetecada Brooke Shields surfar num jacaré de salto alto, brincos e vestido esvoaçante, em Turistas não há como rir. O exotismo de um paraíso solar, romântico, brejeiro, do futebol, do samba, da bossa nova... vem dando lugar a uma visão sinistra cada vez mais distanciada do ufanismo de um Zé Carioca ou de uma Carmem Miranda.

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