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CONVIDE OS AMIGOS PARA TOMAR UM SORVETE, ESCOLHA SEU SABOR FAVORITO E APROVEITE O MELHOR PROGRAMA DA ESTAÇÃO MAIS QUENTE DO ANO

Por Henrique Koifman

Gelado, colorido, alegre, saboroso. Se é verdade que cada verão tem sua moda, suas gírias e sua marca única, entra ano, sai ano, o sorvete está sempre na onda - se é que "estar na onda" ainda se usa, que meus verões já se acumulam e as gírias são tantas que nem mais sei qual usar. O que sei é que basta convidar: que tal tomar um sorvete? Para ouvir "demorou", "já é" e expressões equivalentes, dependendo da tribo - e da faixa etária - em questão. Todas significando a mesma aprovação à proposta, especialmente se o dia é de sol, de chuva ou nublado. Aproveitando o clima e o pretexto - como se precisássemos de motivo especial para tomar um sorvete... - Gávea enche a taça a seguir com algumas colheradas de informações sobre essa doce e refrescante iguaria. Vamos nessa?

Poucas coisas combinam mais com o verão carioca do que um bom sorvete. De preferência tomado na calçada, sem pressa - coisa cada vez mais difícil - e em boa companhia. Frutas, cremes, variações e combinações de chocolate; no copinho, casquinha, taça ou palito; confeitado com caldas e outros adereços ou em solo de sabor e singeleza: o doce gelado é o tal. Pense bem, quantas pessoas você conhece que não gostam de sorvete? Sim, elas existem, mas são tão numerosas quanto os torcedores do Íbis - o auto-intitulado "pior time de futebol do mundo", lá de Pernambuco. E o porquê dessa quase unanimidade, veremos mais adiante, pode estar bem além do simples paladar geladinho. Antes disso, um pouco de história.

Há quase tantas histórias sobre a origem do sorvete quanto sabores para experimentar. Uma das mais antigas fala de uma milenar mistura de neve com caldo doce de arroz, popular na China ancestral, o antepassado mais provável do que hoje conhecemos por sorbet. Há registros de que babilônios e árabes também preparavam gelados semelhantes, bem antes da Era Cristã. Sabe-se ainda que, há uns dois mil anos, o Imperador Nero - ironicamente eternizado por sua sinistra afinidade com o fogo - mandava trazer gelo das montanhas para congelar suco de frutas adoçado com mel, transformando-os em refrescante iguaria, bisavó da nossa velha raspadinha. Antes dele, Alexandre o Grande teria levado o sorvete para a Europa. Não o dito cujo, evidentemente, mas sua receita, trazida das cozinhas chinesas: frutas picadas e calda de mel colocados dentro de jarros de barro e enterrados sob a neve para se manterem congelados.

A maioria dos historiadores concorda, no entanto, que, entre tantas outras coisas, Marco Pólo trouxe para Veneza em sua bagagem de uma de suas viagens ao Oriente, uma receita para fazer sorvete com base de água, da qual derivam as que se usa até hoje. O doce, como o macarrão, igualmente importado por Pólo, ganhou rapidamente as cortes italianas - donde deduzimos que sem Marco, o mercador intrépido, a culinária italiana teria um tanto menos de graça! A sobremesa chegou à França no bufê de casamento da veneziana Catarina de Médici com Henrique II. E foi no país dos gauleses que a receita gelada se sofisticou, ganhando ovos e ficando mais cremosa. Sucesso! Em 1660, dizem pesquisadores, foi aberta a primeira sorveteria do mundo, em Paris, pelo mestre-sorveteiro siciliano Francesco Procopio Coltelli.

Aqui no Brasil o sorvete chegou na década de 1830. Nosso antenado imperador, Pedro II, foi um de seus primeiros entusiastas, tornando-se freqüentador assíduo da sorveteria de Antonio Francione aqui no Rio. Sua preferência: sorvete de pitanga - mais brasileiro, impossível. Uma curiosidade: como não havia geladeiras, a sorveteria dependia do suprimento de gelo, que era trazido de navio. A iguaria era preparada e tinha de ser consumida logo em seguida. A corrida para a sorveteria, quando a notícia de que o sorvete seria fabricado, era grande.

Na década de 1850, já havia em Baltimore, nos EUA, uma fábrica de sorvetes, produzidos em larga escala para consumo popular. Um tipo de negócio que logo se espalhou. No final do século XIX, os italianos inventaram a casquinha e, inspiradíssimos, criaram também o picolé - este no início do século passado. Na mesma época, nos EUA, apareceu o sundae. Batizado inicialmente como sunday - domingo, em inglês, teve sua grafia modificada porque religiosos protestantes acharam que seria uma heresia dar o nome do dia sagrado cristão a um doce. Vai ver os tais pastores tinham dentes sensíveis ao gelo...

No Rio, há quem diga que o hábito de tomar sorvete foi um dos responsáveis por trazer as mulheres às confeitarias - antes freqüentadas quase que exclusivamente por homens. Frapês e taças de gelado enfeitadas com frutas eram a coqueluche dos verões bellepoquianos cariocas.

Fabricado de forma artesanal até então, o sorvete brasileiro ganhou escala de produção com a chegada dos americanos da U.S. Harkson e sua marca, a Kibon, em 1941. Inicialmente fabricando um gelado de baunilha com cobertura de chocolate - o mesmíssimo Eski-bon, que existe até hoje -, os gringos logo adotaram nossas frutas tropicais em suas receitas, ampliando seu cardápio. Outras indústrias de grande ou menor porte se estabeleceram por aqui desde então. Com o avanço da tecnologia de refrigeração e a popularização de freezers, batedeiras, etc, as pequenas sorveterias artesanais também se espalharam por todo o Brasil. Hoje, segundo os fabricantes, 200 mil toneladas doces e geladas são consumidas em nosso país todos os anos. No mundo, dos trópicos aos pólos, o geladinho é a sobremesa mais popular.

Aqui no Rio, o sorvete logo se transformou em tradição e gerações se deliciaram com os doces de marcas como Zero, Moraes, Alex, Dragão Chinês, Babuska, Hébom... Uma dessas pequenas sorveterias é a carioca Itália - nascida em 1975, pelas mãos inspiradas dos italianos (sempre eles!) Orazio e Salvatore Rameta, ali em Ipanema. Sucesso no quarteirão e na praia - onde seus produtos são vendidos por ambulantes -, a marca cresceu e, hoje, possui uma rede de franqueados, um deles, feliz coincidência, justo no Shopping da Gávea.

Do prosaico (e meu preferido!) picolé às apoteóticas taças multisabores multicoloridas, passando por casquinhas, sundaes, bananas split e copinhos, nas centenas de sabores possíveis e impossíveis ou até mesmo empanado, à moda chinesa, o sorvete pode ter o segredo de sua unanimidade justamente na grande variedade de opções de sabor, aparência e formato que oferece. Cientistas do Centre for Neuroimaging Sciences, de Londres, no entanto, têm uma explicação diferente. Depois de muito pesquisar, utilizando sortudas cobaias humanas, eles descobriram que, quando comemos sorvete, certas regiões encarregadas de processar as sensações de prazer em nosso cérebro se acendem - pelo fluxo de impulsos nervosos. E nem é preciso comer muito: uma pequena colher do gelado, pelo que dizem, "alegra" o cérebro.

Precisa de mais algum pretexto para tomar um sorvetinho agora? Eu não. Fui!

 

 

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