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DADO
VILLA-LOBOS ASSUME O MICROFOE EM CAREIRA SOLO, NOVE
ANOS APÓS O TÉRMINO DA LEGIÃO
URBANA, BANDA-ÍCONE DO ROCK NACIONAL. GUITARRA
EM PUNHO, DESFILA FAIXAS COMPOSTAS COM PARCEIROS E
VERSÕES AMPLIFICADAS POR CONVIDADOS, REGISTRADAS
NO CD INÉDITO JARDIM DE CACTUS E TAMBÉM
EM CD DVD HOMÔNIMO GRAVADO AO VIVO, NO TEATRO
DULCINA, RIO DE JANEIRO, PARA ESPECIAL MTV APRESENTA,
EXIBIDO PELA EMISSORA EM NOVEMBRO
Por
Gabriela Varanda | fotos de Antônio
Terra
Parte
desavisada da platéia do Teatro Dulcina, provavelmente,
esperava mais um bocado de anos 80, naquela noite
de abril na Cinelândia. Afinal, Dado Villa-Lobos,
a atração aguardada, empunhou, por mais
de uma década, uma das guitarras mais importantes
no período de afirmação do rock
nacional.
A
bela arquitetura do teatro implorando por uma reforma
urgente aumentava a sensação de uma
noite rock´n´roll. E o visual se impunha
de maneira instigante: o maquinário do palco,
que não mais existia, completamente exposto
ao público, somava-se à expectativa
de intervenção do artista plástico
Luiz Zerbini, que riscaria as paredes com projeções.
Nos
camarins, o cantor Toni Platão, um dos convidados
da noite, contava mais uma piada, e quebrava, marotamente,
a concentração da banda. E assim estava
definido o time: na bateria, Lourenço Monteiro,
Laufer, no baixo, nos teclados, Roberto Pollo, a jovem
Lia Galdino nos vocais, Fred Nascimento e Carlo Bartolini,
violões e guitarras, e Dado Villa-Lobos, voz
e guitarra.
Gruas
e câmeras da MTV varriam o local quando a banda
introduziu a sensacional faixa instrumental Dois Ouvidos,
composição de Dado e Luiz Zerbini. A
voz incidental do maestro Heitor Villa-Lobos atravessou
a parede sonora, como que adiantando um possível
epílogo: Deus nos botou dois ouvidos
pro seguinte: quando a emoção é
grande, ouve-se com os dois ouvidos, quando ela não
é muito grande, entra por um e sai por outro
(risos). Essa é que é a forma natural
da gente ser sincero, em favor da arte universal.
É
a deixa para a bela e árida Jardim de Cactus,
cercada por imagens do deserto nas mãos de
Zerbini. Dado recebe a cantora Paula Toller, parceira
de longa data, autora da letra da canção
que dá nome ao trabalho. Lirismo áspero,
falação rap, melodia que ecoa nos balcões
do segundo andar: Não sabe se quer /
não sabe o que é bom ou ruim / Não
sabe se quer / o que você planta no seu jardim.
As
climáticas faixas de abertura pegam de assalto
a platéia e apontam para outras direções.
O repertório do meu trabalho solo foi
permeado por todas as minhas referências musicais
até hoje. No disco de estúdio, que também
será lançado paralelamente ao CD/DVD
do especial da MTV, meu pai, por exemplo, interpreta
uma peça de Chopin numa faixa-bônus,
uma lembrança marcante da minha juventude,
quando ele tocava piano, todo dia, para a família,
explica o músico.
Dado
assume o leme por definitivo e apresenta à
platéia do Dulcina parcerias com o pernambucano
China, em Cores e Nos Lençóis, Dias,
também com Paula Toller, e Tropeço,
com o baterista Lourenço Monteiro. Mostra ainda
a visceral Como Te Gusta?, acrescida do poderoso vocal
do parceiro Toni Platão, e Quase Nada, a quatro
mãos com Humberto Effe, que também assina
a letra da surpresa-groove Laufunk, música
de Laufer com caprichados vocais suingados do próprio
Effe e da convidada Thalma de Freitas. O atento repórter
do cotidiano Fausto Fawcett aparece ainda para um
insólito duo rap, na irresistível Faveloura
& Lov, do trio Villa-Lobos/Fawcett/Laufer.
Natureza,
outra faixa inédita, composta com Humberto
Effe e Gustavo Dreher, tem participação
especial de Chico Buarque, recitando versos do poeta
maldito Arthur Rimbaud, traduzidos por Ivo Barroso.
Tabela de elegância total, que pode ser conferida
no CD de estúdio, mas que também ganhou
uma performance ao vivo no Dulcina, com a voz gravada
de Chico.
Entre
as versões apresentadas durante o show, pérolas
sonoras da sensacional dupla gaúcha budista-rock
Os The Dharma Lovers, em Diamante e Seres Estranhos,
esta última com participação
de Nicolau Villa-Lobos, filho de Dado, e de Luiz Zerbini,
Barrão e Sérgio Mekler, o grupo Chelpa
Ferro, e muitas, mas muitas guitarradas caóticas.
A jovem estreante Lia Galdino divide ainda os vocais
com Dado, na calminha Luz e Mistério, clássico
de Beto Guedes e Caetano Veloso.
Para
fechar as participações em grande estilo,
Dinho Ouro Preto e Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João
Barone, os Paralamas do Sucesso, juntam-se a Dado
para celebrar a amizade desde os tempos de Brasília,
numa versão do reggae pesado The Guns of Brixton,
do Clash, e na emblemática Conexão Amazônica,
antiga composição de Renato Russo e
Felipe Lemos, gravada pelo Legião Urbana em
seu terceiro álbum, o ainda atual Que País
É Este?, lançado em 1987.
Ao
todo, são 16 músicas no CD/DVD do especial
da MTV e 13 faixas no CD de estúdio (Seres
Estranhos, The Guns of Brixton e Conexão Amazônica
aparecem somente em versões ao vivo). Esse
trabalho é composto por fragmentos musicais
que me acompanham. Um reflexo intuitivo do que me
emociona agora, completa o músico. Coleciono
repertório há algum tempo, mas o Laufer
(co-produtor do CD inédito) finalmente me botou
para trabalhar, diverte-se.
A
fase pós-Legião Urbana é marcada
ainda pela produção de trilhas originais
para cinema e televisão. Já compus
para longas como Bufo & Spallanzani (2001) e O
Homem do Ano (2003) e também para Mandrake
(2005), seriado exibido pelo canal de TV a cabo HBO,
todos produzidos pela Conspiração Filmes,
enumera o músico.
Seu
gosto pelo estúdio também aparece na
produção de discos de novos artistas,
como em Um Só (2004), álbum
de estréia do pernambucano China, ex-Sheik
Tosado, lançado numa parceira entre o selo
Cardume e a EMI, e, principalmente, à frente
da Rock It!, selo independente que colocou no mercado
CDs de bandas como Moreno + 2, Comunidade Nin-Jitsu
e Ultramen, e que agora lança o trabalho solo
de seu big boss, com distribuição da
gravadora EMI.
Sobre
a nova fase como artista solo e o lançamento
do seu trabalho, Dado demonstra confiança,
no aconchego de seu estúdio na Gávea.
Estou feliz, e com pilha para cair na estrada,
conclui, com seu característico sorriso tímido.
E ouvidos atentos, a favor da arte universal.
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