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A artista plástica Ângela Aguiar abre seu ateliê para a Revista Gávea

Por Bianca Jhordão

Terça-feira ao meio-dia, o céu estava azul e o sol brilhando. Andei em direção ao Baixo Gávea, virei na pequena Rua José Roberto Macedo Soares e entrei no prédio amarelo em frente ao Guimas. Subi três lances de escada e fui recebida pela artista plástica e ceramista Ângela Aguiar em seu ateliê. Logo na entrada, uma pequena exposição de vasos, xícaras e pratos em cerâmica já mostravam a diversidade e o bom gosto. Na sala, estantes repletas de peças decorativas e utilitárias com formas, tamanhos, cores e texturas diferentes. Travessas, porta-velas, manteigueiras, bandejas, jarros, queijeiras... “Foi absolutamente por acaso”, diz Ângela.

Formada em Letras pela PUC, Ângela Aguiar iniciou sua formação em cerâmica em 1985 no Atelier Cláudia Amorim. “Foi minha primeira professora. Um dia visitei o ateliê dela e me apaixonei”. Também cursou escultura com a artista plástica Celeida Tostes e com o ceramista Hélio Rodrigues. Passou por diversos ateliês até iniciar o seu próprio, em 1993. “Não existe uma formação acadêmica de cerâmica. Fui buscar uma formação em ateliês, cursos e workshops. Até que, de um momento para o outro, me vi com um ateliê funcionando”.

A história da cerâmica se perde nos primórdios do tempo. As primeiras cerâmicas de que se têm notícia são de 6500 AC. Eram vasilhames, utilitários, de formas rudes e sem qualquer tipo de ornamento. Muito antes do Brasil ser descoberto, a cerâmica já fazia parte da realidade dos índios, que a utilizavam em potes, panelas, bonecos para as crianças, objetos para rituais, entre outros utensílios. Era feito pelas mulheres, que enfeitavam com diferentes símbolos, identificando suas diferentes tribos.

Cobrinha de Argila
A “técnica da cobrinha” vem de milênios e é a mais conhecida. “Você sobe a peça a partir de uma cobrinha de argila e a partir dela faz qualquer coisa em cerâmica”, diz Ângela que, em seu ateliê, também trabalha com o torno elétrico, máquina com movimentos giratórios contínuos, que tem como objetivo auxiliar o ceramista na construção de peças. “O torno te dá mais velocidade, produção, possibilidades”.

Mas como um bloco de argila se transforma em cerâmica? “Após a modelagem, a peça entra no processo de secagem que dura cerca de 24h. Nesse “ponto de couro” podemos dar o acabamento, trabalhar texturas, alisar... Depois de terminada, a peça continua secando ao tempo até evaporar toda água para a primeira queima. É aí que ela se torna cerâmica”, explica Ângela. “Essa primeira queima a gente chama de biscoito. A peça vai num forno elétrico com a temperatura em torno dos 900 graus. Depois é que você vai trabalhar a tinta, a pintura e a esmaltação”.

As peças utilitárias precisam ser esmaltadas para se impermeabilizarem, deixando assim que a água e os alimentos não grudem. Depois, vai novamente ao forno e, dessa vez, em alta temperatura. “Assim a peça vai adquirir durabilidade e ficar mais rígida, é o que chamamos de cerâmica pedra. No meu caso, as peças vão para o forno numa temperatura de 1240 graus”. A ceramista atenta que a temperatura certa é o segredo para uma peça resistente. “Se você coloca um material de baixa temperatura num forno de alta ele vai derreter e, se for ao contrário, vai ficar sub-cozido”.

A cerâmica é uma atividade que demanda envolvimento, tempo e paciência. Entre iniciar e ficar completamente pronta, uma peça demora em média 15 dias. “Por isso que é especial, são objetos únicos e feitos de modo totalmente artesanal. Cada pessoa coloca a sua energia, cada dia é um dia. Tem dias que você não consegue trabalhar por estar impaciente, ansiosa e isso acaba refletindo no trabalho. Também dou aulas aqui, então quando se trabalha com alunos, você vê muito isso. Tem dias que a pessoa não produz mas, em outros, faz peças lindas”.

As aulas acontecem no próprio ateliê de Ângela, que recebe 5 alunos por vez para dar bastante atenção a todos. Enquanto um dos alunos está no acabamento, outro está no esmalte ou no torno e cada um no seu nível de conhecimento daquele trabalho. “Sabe o que é engraçado? As pessoas chegam e acham que não são criativas, que não vão conseguir trabalhar com as mãos. E, no primeiro dia de aula, já fazem alguma peça. Isso surpreende, ver um trabalho realizado pelas próprias mãos”.

Um bom exemplo é a ceramista Thereza Roland que trabalha com Ângela há 4 anos e se prepara para abrir seu próprio ateliê em 2007. Ex-funcionária do Banco do Brasil, sua vida começou a mudar em outubro de 2002, quando recebeu um convite para a exposição de Ângela e suas alunas no Caiçaras. “Cheguei lá e pensei: é isso que eu quero fazer!”

Thereza cursou artes plásticas na faculdade de arquitetura e já tinha uma noção do que a argila era capaz mas, quando viu a exposição, resolveu colocar, literalmente, as mãos na massa. Nos cursos do ateliê de Ângela Aguiar, Thereza desenvolveu uma técnica de colocar alças - de coco, vidro, moranga - em volta da cerâmica. “Sempre gostei da arte indígena. Comecei fazendo pinturas mas buscava fazer cerâmica com pedrinhas, até que desenvolvi essa técnica”. Devidamente registrada no Instituto de Propriedade Intelectual, a arte de Thereza começa a alçar outros vôos. “Agora estou montando meu próprio ateliê, mas não vou conseguir deixar de vir aqui visitar a Ângela, é uma amizade muito grande”.

É uma cachaça!
A decoradora Maridéia de Deus também é aluna e conta que sempre teve curiosidade em saber como transformar argila em cerâmica. “Gosto de trabalhar com texturas e couro, misturar os materiais. Areia, garfo, folhas...” Fui convidada para um café e não resisti, vi fotografias das exposições e conversamos sobre o porquê da cerâmica ser uma arte tão especial:

Ângela Aguiar - Em cerâmica você não parte de uma coisa pronta, você mesma cria desde o início.

Maridéia de Deus - Admirava as cerâmicas em exposição aqui e fora do Brasil e ficava curiosa em saber como uma pessoa conseguia transformar blocos de argila em peças tão lindas.

Ângela - Normalmente a pessoa que não conhece, não imagina que é capaz de fazer.

Maridéia - Isso aqui é uma cachaça! (risos). Às vezes estou em Itaipava tomando café, olhando as árvores e isso me traz inspiração para as formas. As montanhas, as nunvens, as folhas...

Thereza - Isso é minha vida!

• Ateliê Ângela Aguiar:
(21) 3875-6678/m.angelaaguiar@globo.com

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