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ETERNA MARIA CLARA
Arquivo pessoal da maior escritora de teatro infantil do país agora faz parte do acervo da Casa de Rui Barbosa

Por Isabela Caban

Enquanto observa a mãe tricotar em uma cadeira de balanço, um pequeno fantasma confessa: tem medo de gente. Porém, aos poucos, ele ganha confiança e vê a possibilidade de vencer esse medo. Foi com a encantadora história de Pluft, O Fantasminha que Maria Clara Machado ganhou de vez a atenção da imprensa e do grande público há pouco mais de 50 anos. As primeiras críticas publicadas nos jornais do país sobre a peça testemunharam com entusiasmo o aparecimento da maior escritora do teatro infantil brasileiro. "Não há dúvida de que Pluft, O Fanstasminha, de Maria Clara Machado, merece, tanto quanto Auto da Compadecida e mais do que qualquer outra peça moderna de autor brasileiro, o título de verdadeiro clássico da nossa dramaturgia". Este artigo do Jornal do Brasil, impresso durante a quarta montagem da peça em 74, agora faz parte do acervo do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Casa de Rui Barbosa, em Botafogo.

Os 800 registros ajudam a montar a trajetória da grande autora, diretora, professora e atriz, que dividiu o teatro infantil em antes e depois de Maria Clara Machado. Foi a partir de sua obra que esse gênero passou a ser qualificado com valor dramático. O que antes era mal produzido e sem graça, ganhou sensibilidade com Maria Clara, que chamava atenção do público para a narrativa. Soube falar diretamente aos pequenos iniciados e colecionou uma legião de fãs - crianças e adultos. Suas histórias povoam doces lembranças infantis de quem tem menos de 60 anos. Entre as mais de 30 peças, muitas são remontadas e traduzidas para diversos idiomas até hoje. A mestra, como era carinhosamente chamada por seus alunos, ainda criou um curso de improvisação na escola de formação de atores, O Tablado. Passou pelo Tablado? Meio caminho andado para a carreira.


O Cavalinho Azul (1960)

Uma viagem deliciosa pela cultura brasileira é fuxicar e descobrir o material da autora, doado recentemente em sistema de comodato pela sobrinha Cacá Mourthé. Os cadernos de folhas grossas e amareladas escondem preciosidades. Em algumas folheadas, os originais de peças famosas, como A Bruxinha que era boa e O Cavalinho Azul. Um passeio pela bela letra da escritora mostra um pouco o processo de criação de Maria Clara Machado, com muitos rabiscos e desenhos do que viria a ser o cenário. Uma história pode ser repentinamente interrompida para dar lugar a outras idéias e retomada bem mais à frente do caderno. As correspondências revelam uma mulher doce, carinhosa com a família e muito saudosa durante suas viagens. Nas cartas, incentivava ainda alunos e colegas e para a amiga e tradutora Maria Julieta Drummond de Andrade, Maria Clara Machado contava novidades e trocava elogios.


A Bruxinha Que Era Boa (1958)

O arquivo guarda ainda desenhos e pinturas que começou a fazer na época da terapia, período que ela atribui grande importância em sua vida. "O ambiente intelectual em que fui criada certamente influenciou minha vida. Mas o que me modificou mesmo foi a análise. Quem conhece minhas peças a fundo sente perfeitamente essa transformação", disse a autora em entrevista à revista Fatos e Fotos, em 76, quando completou 25 anos de teatro infantil. No mesmo ano, o jornal O Estado de São Paulo acompanhou o processo de censura de O aprendiz de Feiticeiro e a mobilização de alguns artistas. Tudo documentado e agora acessível na Casa de Rui Barbosa.

Um entre os milhares de fãs da autora
Como profissional e entusiasta do teatro infantil, o ator e diretor Bernardo Jablonski já esbarrou e muito com Maria Clara Machado. Primeiro, nos anos 70 como aluno do Tablado, onde hoje é professor. Ao longo dos anos, como ator e assistente de direção da autora em suas peças. "Boa parte da minha carreira está atrelada a ela", conta orgulhoso. A amizade durou até 2001, quando a autora morreu de câncer aos 80 anos. Desde então, Jablonski já conta três montagens de peças dela como diretor, com passagens pelo Shopping da Gávea. A mais recente conta a história de duas famílias vizinhas que se detestam, mas precisam lidar com o romance entre seus filhos. Parece familiar? Em Os Cigarras e Os Formigas, Maria Clara Machado misturou essa fábula à famosa história de Romeu e Julieta e, mais uma vez, conseguiu um texto cheio de mensagens, atual e bem humorado. “A peça é sobre o lazer e o fazer, ou seja, viver para trabalhar ou trabalhar para viver? Quer tema mais atual que esse? O legal também da Maria Clara é que suas histórias prendem a atenção não só de crianças, mas dos adultos”, diz. O diretor lembra com saudade que esse musical rock foi escrito em 1976 para Wolf Maia montar. Jablonski define a amiga como uma pessoa de forte personalidade, fascinante e engraçada: "ela sempre tinha umas tiradas bem humoradas. Certa vez em uma festa na casa dela, já de madrugada, apareceu escovando os dentes, com uma toalha no pescoço. Era um sinal que estava na hora da festa acabar e ela queria dormir".

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