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CLARICE NISKIER E A ARTE DE TECER SENSAÇÕES
“O teatro para mim não é um apêndice de nada, ele é a
coisa em si. A coisa principal da minha vida. O teatro está
dentro da minha rotina, no meu sangue, no meu DNA”
Por
Sandra Teixeira
Tenho um encontro marcado com a atriz Clarice Niskier. Digo que a idéia é escrever um perfil sobre ela. Falo com cuidado, porque as palavras podem aprisionar. Tento me desligar da tarefa, da folha de papel em branco ou da tela de computador. Lembro das Clarices, Niskier e Lispector, a complexidade feminina: “ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações”... (trecho de “O Livro dos Prazeres”, de Clarice Lispector). Penso na última palavra: “sensações”. Quem sabe o caminho já tenha sido apontado.
Início da noite. Clarice chega, logo depois de mais uma apresentação no teatro. O sorriso é largo. Vamos aos cumprimentos, um beijo de cada lado, e ela me diz que precisa comer algo para repor as energias. Mas, em momento algum, percebo falta de energia em sua aparência ou fala. Clarice é um turbilhão. A atriz vive um momento muito especial em sua carreira e na vida pessoal. São 47 anos de idade e 25 anos de carreira. “O único intervalo que eu tive, de seis meses, foi quando meu filho Victor nasceu. Mesmo quando estava fazendo novela ou cinema, permaneci sempre vinculada a alguma peça de teatro”, comenta.
Em 2006, Clarice foi indicada duplamente ao Prêmio Shell de Melhor Atriz pelos seus trabalhos nas peças “A Alma Imoral”, inspirado no livro de mesmo nome do rabino Nilton Bonder e “Tudo Sobre Mulheres”, de Miro Gavran e direção de Ticiana Studart. O prêmio chegou com “A Alma Imoral”, “e com a concretização de vários sonhos. Até um cachorro chegou nessa hora. Eu sempre quis ter um, mas nunca pude. Na infância, meus pais achavam que dava muito trabalho. Depois várias coisas me impediram. Eu e o Zé (o músico José Maria Braga) acabamos de dar um cachorro para o meu filho. Na verdade, quando o Dog (esse é o nome do cão) chegou, eu disse: filho, a gente comprou com a desculpa de que era pra você, mas eu sempre quis ter um cachorro”...
Os pensamentos vão brotando com facilidade e se misturando com seus afetos e paixões - filho, marido, trabalho, família, amigos e o cão labrador Golden Retriever. Clarice é assim, acelerada, pensa e faz várias coisas ao mesmo tempo. Os amigos sentem a sua falta e reclamam pelos atrasos, porque ela acha, sempre, que vai dar conta da agenda cheia. “Eu gostaria de fazer mais televisão e cinema, mas me falta tempo, porque eu sou muito dedicada às peças que faço. O teatro para mim não é um apêndice de nada, ele é a coisa em si. A coisa principal da minha vida. O teatro está dentro da minha rotina, no meu sangue, no meu DNA. Eu acordo, fico pela manhã com o meu filho, mas depois que ele vai para escola, eu sou toda voltada para o meu trabalho com o teatro. Vou para aula de voz ou de corpo, leio ou escrevo, faço uma reunião ou uma produção, e vou assim até a meia-noite”.
O teatro surgiu na vida da adolescente tímida como uma espécie de válvula de escape. O sonho era ser jornalista, igualzinho ao tio Arnaldo Niskier, que era um dos editores da Revista Manchete. “Eu achava a profissão linda, chique e charmosa. Como eu gostava muito de fotografia, fui estudar jornalismo na PUC”. Clarice chegou a trabalhar como repórter durante quatro anos, mas sem abandonar o curso de teatro no Tablado. O primeiro trabalho foi em um jornal alternativo chamado Repórter e, após um estágio entre 1979/1980, o Jornal do Brasil a contratou como repórter fotográfica. Algum tempo depois, trancou a faculdade e pediu licença no jornal, porque foi convidada para fazer o papel principal na peça “Porcos com Asas”, de Mauro Rádice e Lídia Ravera. O espetáculo, que tinha como tema as crises existenciais, amorosas e sexuais dos adolescentes, fez tanto sucesso que a afastou totalmente do jornalismo. “O meu coração já estava completamente apaixonado pelo teatro.

Quando acabou a temporada, e eu recebi o convite do pessoal do Despertar para atuar no “Círculo de Giz Caucasiano”, de Bertolt Brecht, sob a direção de Paulo Reis, a paixão já era total”. O grupo do Despertar que, em 1983, era formado por Paulo Reis, Daniel Dantas, Zezé Polessa e Maria Padilha, foi também uma escola para Clarice.
Após o sucesso, logo no início da carreira, com “Porcos com Asas”, o natural seria ter viajado com a peça para São Paulo. Mas a jovem atriz, com 23 anos, queria ficar no Rio e aprender mais com as pessoas que admirava. Depois do Despertar, foi convidada para trabalhar com a Lúcia Coelho, do Grupo Navegando. Trabalhou com Antônio Pedro, Bia Lessa, Amir Haddad, Domingos Oliveira. Todos parceiros que viraram amigos para sempre. Em 1999, grávida de oito meses, após um longo trabalho de pesquisa com o diretor Eduardo Wotzik, Clarice estréia o monólogo “Um Ato para Clarice”, baseado em Clarice Lispector. Em 25 anos de carreira, foram muitos os reencontros. “Essa autonomia que eu conquistei é realmente a síntese de muito trabalho, de estudo e aprendizado com gente muito legal”.
Mas nem sempre o lado emocional caminhou junto com o profissional. Foi preciso trabalhar muito, amadurecer, adequar os sonhos para sobreviver. “A gente vai tendo as nossas experiências emocionais, vivências amorosas, que são muito importantes na nossa vida. O amor, a paixão, as decepções e as perdas amorosas, elas formam muito o nosso caráter, a nossa pessoa. O meu casamento com o Zé (completa 11 anos de casada esse ano) passou por várias crises no meio do caminho. Foi preciso muito amadurecimento. Eu tenho sorte de estar casada com um homem que respeita demais o meu trabalho”.
Clarice buscou no trabalho a disciplina necessária para enfrentar as dificuldades e amadurecer. Aprendeu a fazer escolhas importantes em função do teatro. “No início, a única certeza que eu tinha no meu coração era a vontade imensa de ir para o palco. Esse desejo norteia a minha vida até hoje”. A profissão exige um aprimoramento permanente e a atriz é uma estudiosa incansável. “Os professores são uns heróis, porque eles ficam nos bastidores, dando suporte técnico e emocional. Viva Angel Vianna! Rossella Terranova! Márcia Tannure! Rose Gonçalves! Mary Lima! Márcia Feijó! Angela Herz! enfim, todos os meus mestres”.
A atriz nunca teve vontade de desistir, mesmo nos momentos mais difíceis. Lembra que para chegar aonde chegou, precisou de muito apoio. E a família foi fundamental em toda a sua trajetória. Filha de Odilon e Celina Niskier, Clarice é irmã de Paloma, a mais velha, e de Joyce, a mais nova do trio, que também é atriz. “Nos primeiros dez anos de profissão, eu ganhei uma bolsa família, dada pelos meus pais. Tenho muito a agradecer a eles, porque, nessa construção, me ajudaram demais. Minha mãe fazia supermercado pra mim, dizendo que eu estava muito magrinha”, lembra com carinho.
A cultura judaica é redescoberta, ganha um outro sentido, após o encontro com o rabino Nilton Bonder. “Eu sou muito grata a ele, por ter reencontrado essa ligação. Ele acredita que os Homens devem encontrar suas religiões, assim como as religiões devem encontrar os seus homens. Não foi preciso abrir mão de nada, do meu budismo, para que eu fosse de encontro ao judaísmo. Ele, como rabino, veio ao meu encontro. Isso é um exemplo que como a religião pode vir de encontro os seus homens sem julgá-los”.
Outra característica do judaísmo é o amor pelos livros e pela cultura. A atriz assimilou bem isso da família. O pai a levava muito ao teatro, não porque quisesse que fosse atriz, mas pelo grande amor à cultura. “Eu tive uma formação cultural bem legal na infância. Meu pai me levava para ver Concertos para a Juventude, eu freqüentava museus e assistia as programações do Teatro Municipal”. Pequena ainda, com nove anos de idade, o pai a levou para ver uma comédia de Molière, cuja grande estrela era Procópio Ferreira. A menina ficou marcada, definitivamente, com a imagem daquele senhor no palco. “Ele ficou, durante muito tempo, sentado numa cadeira no meio do palco, mas a platéia ria muito dele. Foi ali que eu aprendi o que significava carisma”.
A meditação foi um outro hábito adquirido ao longo da vida. Necessidade de sobrevivência, já que Clarice pensa 24 horas por dia. “Aprender a meditar foi uma grande conquista na minha vida. É preciso acalmar a mente para poder desfrutar um pouco mais dos sentimentos. Esse equilíbrio entre o pensar e o sentir foi uma conquista da fase adulta, porque antes eu era muito ansiosa”. Lembra ainda da necessidade do equilíbrio entre a calma e o movimento. “Tem horas que é preciso ter calma para poder desfrutar o que se conquistou. Mas é importante ficar ligado e atento à nossa alma, pois ela dirá a hora que devemos nos levantar do sofá macio e empreender um novo caminho”.
Embora esteja desfrutando ainda da calmaria, pois é tempo de colher, Clarice faz planos para o futuro e tem idéias para duas novas peças. Assim como, em breve, mergulhará na adaptação de um novo livro para o teatro, já que a experiência foi bem-sucedida com “A Alma Imoral”, livro do Bonder. “Quero fazer a adaptação do livro “O Dia em que Che Guevara e Winnicott se Encontraram”, do psicanalista Sérgio Belmonte. O livro é lindo. Tenho um sonho de ter uma escola de teatro e música com o Zé, meu marido. Eu me vejo velhinha sendo professora de teatro na escola, escrevendo”.
Clarice diz que, às vezes, é mal compreendida, por ter curiosidade e por achar que quase tudo pode ser uma aprendizagem interessante. “Não tenho curiosidade por tudo por insegurança. Não é isso. Eu tenho curiosidade por tudo por segurança. Posso até me perder, mas não tem importância. Eu gosto de ouvir. Tem uma frase muito bonita da Viola Spolin, diretora de teatro americana, que diz assim: o professor pode conhecer mil maneiras de fazer um personagem, e o aluno só conhecer uma. Mas, às vezes, essa uma o professor não conhecia. E o professor passa a conhecer mil e uma, enquanto o aluno vai aprendendo o que o professor tem para ensinar”.
O nosso tempo acabou. Clarice me deixou em turbilhão e cheia de idéias. Ela se levanta, eu ofereço uma carona, e no caminho vamos exercitando, com prazer, a arte de falar e de ouvir. A família - Victor, José Maria e Dog - espera por ela para uma aula de adestramento com a veterinária. A nova cria da casa, além de lambida, está também sendo educada.

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