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Denise
Lopes
Budapeste
em duas linguagens
Budapeste,
de Chico Buarque de Hollanda, vira filme pelas mãos
de Walter Carvalho e deve estrear até o fim do
ano. A adaptação do livro para as telas
ficou a cargo de Rita Buzzar, roteirista também
de Olga (Jayme Monjardim/2004), baseado na obra de Fernando
Morais. Adaptar uma história que se passa
praticamente na cabeça do personagem/escritor
foi um desafio, atesta. Consciente de que cada
meio tem suas especificidades e de que para atingir,
na tela, objetivos equivalentes aos da narrativa literária
é preciso muitas vezes subverter os próprios
parâmetros da obra original, Rita diz ter se cercado
de toda subjetividade possível para construir
o universo de José Costa, ou Zsoze Kósta,
o escritor vivido por Leonardo Medeiros que desembarca
na capital da Hungria. Budapeste não é
apenas o espaço onde a história se desenrola,
Budapeste é mais um personagem. Não podíamos
deixar de filmar lá, explica.
As
filmagens em território húngaro acabaram
em março e não abriram mão de conferir
a atmosfera local. No livro, não há
nenhuma menção à retirada de estátuas
da época do regime comunista dos locais centrais
da cidade. Aliás, ele nem toca nesse passado.
Mas todo o clima de desterro, de um certo nonsense o
perpassa. E essa sensação me veio quando
estava lá e vi uma estátua de Lênin
ser carregada pelas ruas. Nada mais natural do que refazer
esta cena no filme, diz Rita. O reboque de um
Lênin de cerca de 20 metros pelas águas
do Danúbio, antes mesmo da exibição
do longa, já virou marca de Budapeste. O que
prova que livro e filme podem e devem, muitas vezes,
se utilizar de químicas diversas para provocar
em seus interlocutores fruições semelhantes.
Transpor
obras literárias para o cinema nem sempre é
tarefa fácil. As estatísticas existem
para não nos deixar mentir. O comum é
que ao se defrontar com um livro levado às telas
o leitor renegue o visto pelo lido. Herança,
talvez, de uma tradição cristã,
que tem na Bíblia a palavra sagrada,
e que tende a favorecer o impresso aos recursos audiovisuais.
Como se a fisicidade do cinema, entre outras coisas,
estivesse fadada a tirar do receptor a capacidade de
construir imageticamente sua história, restringindo
as possibilidades de criação deste. A
supremacia da literatura precisa, então, ser
relativizada. Um passo importante é reconhecer
seu grau elevado, de todo não injustificável
historicamente, em comparação às
demais manifestações narrativas. Outro
é rever a superada noção de fidelidade
ao original, desmistificando preconceitos sobre a relação
literatura/cinema.
Talvez,
por isso, Rita se assuste com a pergunta sobre sua próxima
adaptação. Não! Chega! Isso
é muito difícil. Budapeste quase me leva
à loucura. Acho que não quero mais passar
por isso. É muita responsabilidade e sofrimento,
diz. Filmes como Macunaíma (1969), de Joaquim
Pedro de Andrade, a partir da obra de Mário de
Andrade, Morte em Veneza (1971), de Luchino Visconti,
adaptado da novela de Thomas Mann, Blade Runner (1982),
de Ridley Scott, baseado na ficção científica
de Philip K. Dicke, e mais alguns outros bons exemplos,
no entanto, provaram que um texto literário pode
mesmo ser atualizado e/ou melhorado por uma transubstanciação
audiovisual, termo retirado da liturgia católica,
que, segundo o Aurélio, significa mudança
de uma substância em outra (...) para explicar
a presença real de Jesus Cristo no sacramento
da Eucarística (...) pela mudança da substância
do pão e do vinho na de seu corpo e de seu sangue,
a fim de caracterizar que literatura e cinema têm
mesmo substâncias diferentes e que a química
que se processa entre o leitor e seu livro e o espectador
de cinema e o celulóide projetado na tela, embora
diferenciada, pode ter resultados, por hora, semelhantes
e complementares.
Budapeste
ainda nem finalizou, mas talvez já fosse bom
ir alertando para que ao invés de julgá-lo
- boa ou má adaptação, fiel ou
não ao texto original - ter em mente as especificidades
literárias e cinematográficas e perguntar
que tipos de gozos e em que grau a equivalência
de propósitos e sentidos foram possíveis
nas duas formas de linguagens: literária e cinematográfica.

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