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Criadora
do Ateliê Culinário, Vera Saboya valoriza
a sofisticação do simple
Por
Henrique
Koifman
Dizem
que, além dos melhores ingredientes, apetrechos
e da habilidade do cozinheiro no preparo dos pratos
que se tornam inesquecíveis, há pitadas
da alma de seu criador. Sem que possam ser enumeradas
ou mesmo especificadas, essas pitadas fazem com que
determinadas iguarias sejam originais, ainda que não
incluam aparentemente nada de diferente e, sobretudo,
que sejam virtualmente inimitáveis. Essa pode
ser a explicação para o sucesso gastronômico
de gente como a carioca Vera Saboya, filósofa
que se descobriu cozinheira, banqueteira que se transformou
em empresária e consultora. Criadora da grife
Ateliê Culinário que nomeia cafés
e restaurantes, como o que funciona junto aos cinemas
do Grupo Estação, aqui no Shopping da
Gávea Vera viajou dos livros para as panelas
quase que por acaso.
A vida profissional de Vera Saboya começou cedo,
tendo por perto uma de suas maiores paixões,
os livros. Passou algum tempo trabalhando em uma livraria
e, em seguida, decidiu abrir a sua própria loja,
no Itanhangá. Antecipando uma tendência
que hoje é comum por aqui, junto com a livraria
funcionava um café que, no início,
era terceirizado, tocado por uma amiga. Com a saída
dessa amiga, Vera, até então distante
da cozinha, acabou assumindo o café. Minha
família nunca foi muito ligada em gastronomia,
embora todo mundo gostasse de comer bem. Mas eu tinha
morado na França, pouco antes de abrir a livraria,
e lá comecei a me relacionar mais com a comida,
que é um dos traços mais fortes da cultura,
conta.

Com um ponto de pouco movimento, o negócio não
deu muito certo. Vera foi trabalhar em outras livrarias.
Passou por várias delas e entrou para uma faculdade
de filosofia, sonhando também em, quem sabe,
um dia estudar psicanálise. O nascimento do filho,
no entanto, fez com que trocasse parte dos sonhos pelo
feijão e fosse procurar uma maneira mais garantida
para se sustentar.
Juntou-se com a amiga Letícia Monte, estudante
de teatro, para, na cozinha de casa, preparar quiches,
tortas e terrines. A idéia era vender os quitutes
para restaurantes e atender a encomendas.
A empreitada deu certo. A resposta foi incrivelmente
rápida. Eram encomendas chegando sem parar. O
nosso jeito de apresentar os produtos para os compradores,
nos restaurantes, era inusitado. Levávamos as
tortinhas dentro de caixas de madeira, com uma alça
de couro, pela cidade afora. Éramos muito jovens,
com um estilo diferente, relembra.
Os quitutes eram fruto de criação coletiva.
Experimentando aqui, lendo dezenas de livros de receitas
ali e selecionando tudo com muito gosto e bom senso,
as moças foram conquistando uma grande clientela.
Nossas tortinhas tinham menos açúcar,
menos manteiga. Era o nosso jeitão, a cara de
quem corria nas Paineiras, jogava capoeira e queria
uma vida saudável, conta.
Até que um dia alguém perguntou à
dupla se ela faria um jantar para 100 pessoas. Sem nenhuma
experiência, mas com a coragem dos iniciantes,
toparam a parada. E, novamente, tiveram rápido
sucesso na empreitada. Logo, logo, estavam preparando
bufês para nove eventos por semana.
O êxito, no entanto, não foi fruto de pura
sorte. Afinal, como em quase todos os ramos de atividade,
na gastronomia, até conto de fada para ter final
feliz exige muito trabalho. Era uma pauleira,
acordando cedo e indo dormir tarde. Mas é um
negócio que você pode começar em
casa. Não é preciso comprar um ponto comercial
e aquilo que você prepara já está
vendido, não há perda, ensina Vera,
lembrando que, em seu serviço de bufê,
toda a equipe era terceirizada. No começo,
éramos nós, eu e a Letícia, que
preparávamos tudo. Íamos à Cadeg
[NR: centro de abastecimento de gêneros em Benfica]
às 5h da manhã, comprávamos os
ingredientes, carregávamos caixotes, cozinhávamos.
Tudo. Até que um dia a gente pôde contratar
um cozinheiro fixo e ensinar tudo a ele, rememora,
contando que ela e a amiga estragaram dois carros fazendo
os carretos daquela época.
Do sucesso com o bufê veio um convite para abrir
um café no Leblon, que também decolou.
Tudo que a gente fazia dava certo! E tinha um
retorno, não só financeiro, mas principalmente
afetivo. Todo mundo elogiando, falando bem, conta.

E vieram outras casas como a que tornou a marca
célebre, no Leblon e que, entre outras inovações,
foi uma das primeiras a trabalhar com produtos orgânicos.
A parceira Letícia deixou o negócio e
foi substituída pela atual sócia, Niza
Simões, e o Ateliê Culinário se
transformou em franquia.
Hoje o Ateliê são duas marcas, Ateliê
Culinário e Maçã Café. Só
trabalhamos por meio de franquias. O (grupo) Estação
é um franqueado grande, que fez um pacote para
ter o Ateliê em todos os cinemas, explica
Vera. A proximidade com cinemas, livrarias e museus,
aliás, sempre acompanhou o negócio. Sou
filósofa, livreira, é natural ter parceria
com essas coisas. O meu barato é gente. Trabalhar
em um restaurante estrito senso, não
vai dar certo. Gosto de comida, gente e conversa. Do
ambiente que faz as coisas funcionarem, com muito papo
interessante. A proximidade com a cultura contamina
até os funcionários, revela.
O bom relacionamento com as equipes com quem trabalhou
e trabalha é outra especialidade de Vera Saboya,
que inclui reuniões periódicas com as
equipes das franqueadas em sua consultoria. Gosto
muito da parte de RH, tanto quanto a de criação.
Os funcionários de restaurante, geralmente, vêm
de família pobre e têm de aprender muita
coisa, atingir um nível de conhecimento específico
grande, entrar em contato com coisas que nunca estiveram
em suas listas de compras. Ela diz que, no entanto,
a sofisticação não está
obrigatoriamente ligada à classe social. Há
pessoas que são sofisticadas por natureza, independente
da origem. E outras, riquíssimas, que não
têm sofisticação alguma. É
preciso investir nas pessoas. Depois de algum tempo,
cria-se uma cultura do negócio que os próprios
funcionários passam uns para os outros,
ensina.

No caso dela, no entanto, o aprendizado tem sido obtido,
na maior parte do tempo, por conta própria. E,
orgulhosa, diz que hoje domina tudo o que está
envolvido no negócio, do começo ao fim,
incluindo a administração e o planejamento.
Sem formação prévia em cozinha,
ela só foi fazer um curso especificamente dedicado
ao ramo depois de muitos anos de carreira. Eu
não sou chefe de cozinha. Fiz um curso na França
somente após cinco anos no negócio, meio
que para me justificar para mim mesmo. Minha maior felicidade
é estar num café com os amigos, lendo
um livro ou criando uma tortinha, um bolinho novo,
confessa, contando que uma das coisas que seu trabalho
lhe proporciona e de que mais gosta é
viajar para descobrir coisas novas, não só
na gastronomia, mas na literatura e na cultura, de um
modo geral.
Outro
dia, falando no programa Sem Censura, comentei que os
eventos gastronômicos são muito aborrecidos.
Sentar à mesa para falar do alho porró
e da uva do vinho é muito chato! Eu acho que
essas coisas estão na mesa para a gente saboreá-las
e falar de outros assuntos. Nada contra conhecer vinho,
mas a ostentação desse conhecimento é
um porre, opina. A crítica se estende ao
estilo previsível que vem tomando conta dos bares
e restaurantes da Zona Sul carioca. Bom era sentar
no final do Leblon para comer carne seca e falar do
novo disco do Caetano, de um livro ou filme. Hoje, na
Zona Sul, as coisas estão muito temáticas.
As pessoas se preocupam com quem assinou o ambiente,
assinou a carta de vinhos. Na Zona Norte, felizmente,
as coisas não são assim, muito pelo contrário.
Lá não se perdeu a espontaneidade, que
é uma das marcas registradas do carioca,
lamenta Vera, que confessa que, por conta do trabalho
puxado, tem saído pouco à noite.
Como próximo passo, o Ateliê Culinário
deve criar uma linha de produtos para supermercados,
juntamente com o parceiro Central Culinária
que pré-produz atualmente toda a linha básica
do cardápio de doces e salgados das franqueadas
da marca, que são depois finalizados e assados
nas lojas. O Ateliê Culinário, há
tempos, atravessou fronteiras e passou a figurar nas
páginas de guias estrangeiros. Tanto que, não
raro, as mesas de suas lojas recebem grupos de outros
países e, recentemente, a gastronomia e o estilo
das casas mereceu uma grande reportagem na revista semanal
do francês Le Fígaro.
Atualmente, sem contar com mais nenhum funcionário
próprio, Vera e Niza dão consultoria para
as franquias, garantindo que o padrão e a qualidade
de sua marca sejam mantidos. Somos só nós
duas em um pequeno escritório no Leblon, cercadas
de livros. Tem até um divã de psicanalista.
Sem nunca ter largado a filosofia ela conseguiu
se formar na faculdade, anos mais tarde, Vera mostra
que também nunca abriu mão de seu sonho
freudiano. Eu provavelmente ganharia mais
dinheiro se fosse dona dos restaurantes, mas assim tenho
tempo para ler, escrever, viajar, criar, e desenvolver
outros projetos. Inclusive os pessoais. Pitadas
desses livros, conversas, escritos e projetos acabam
sempre aparecendo nos quitutes servidos no Ateliê
Culinário. E fazem toda a diferença.

em livro
Um peixinho com purê de cará ou de baroa
aqui, um doce de leite, goiaba ou manjar de coco com
caldinho de manga ali. Feijoada servida com manga grelhada,
castanha de caju torrada sobre os legumes, moquequinha
com banana da terra cozida e coco queimado por cima.
A comida classificada por sua criadora como rústica
e simples e o estilo do Ateliê Culinário
foram o ponto de partida para o livro Ateliê
Culinário para Viagem, escrito por Vera
Saboya e lançado recentemente pela editora Zahar.
Nele estão receitas, dicas, crônicas e
um guia com indicações dos restaurantes,
bares, mercados e feiras preferidos pela autora em cinco
cidades que a marcaram particularmente: Rio, São
Paulo, Tiradentes, Nova York e Paris.
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