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Paulo Betti com o grupo
do espetáculo
"A canção brasileira", musical dirigido por ele

 

ENO PALCO E NA VIDA REAL, UM SONHADOR ENTRA EM CENA
“Comecei a fazer teatro envolvido pelo clima pesado da ditadura. Era impossível ficar alheio. Queríamos mudanças, queríamos liberdade”

Por Flávia Machado

Um perfil de Paulo Betti... por onde começar? Ah, pela internet! Campo vastíssimo de pesquisas para jornalistas... Acho coisas muito interessantes a seu respeito, mas preciso conhecê-lo melhor, trocar idéias, conversar. Mando um e-mail e, para minha surpresa, a resposta vem rápido. Ficamos de nos encontrar na Casa da Gávea, espécie de refúgio do ator, para bater um papo antes de um compromisso rotineiro: uma sessão de cinema que acontece todas as terças-feiras na Casa.

Bom, lá estava eu na terça, esperando por Paulo. Eu e mais um monte de amigos, alunos, atores, alguns jornalistas e um fotógrafo. Quando ele chega, todos querem sua atenção e ele mal consegue uma brecha para se apresentar. Mas a sessão de cinema já está atrasada e sem o Paulo ela não começa. Resolvemos então que, mais uma vez, a internet poderia nos ajudar, já que não conseguimos conversar pessoalmente.
E mesmo tendo trocado idéias por e-mails, conheci um Paulo Betti bem diferente daquele que estava acostumada a ver na televisão. Está certo que conhecia mais seus personagens que a ele próprio. Mas este que conheci agora era diferente. Um Paulo sonhador, batalhador, realizador, que começou sua carreira lá atrás no teatro amador e foi, aos poucos, se agarrando às oportunidades. Sempre correndo atrás de seus sonhos, realizando alguns e ainda achando que falta muita coisa pra ser feita. Teatro, muito teatro, como ator, diretor, foi assim que começou. E para chegar até aqui, tendo seu trabalho reconhecido por todos, teve que primeiro mudar a sua própria história.

A história de um menino pobre saído de Sorocaba, interior paulista, filho mais novo de uma empregada doméstica que teve 15 filhos, e que teve a sorte de estudar em excelentes escolas públicas. Sua paixão pelo teatro começou ainda nas aulas de português, incentivado pela professora. “A professora incentivava e eu gostava de aparecer. Era coroinha só para ler os trechos da Bíblia e tocar o sino na missa”, conta o ator.
Fazendo teatro amador, ainda em Sorocaba, ganhou o seu primeiro de muitos outros prêmios que ganharia em sua carreira, o Prêmio Governador do Estado, em 1971, como melhor ator amador. Depois disso, foi para São Paulo estudar na Escola de Arte Dramática (EAD) da USP e lá, junto com outros colegas, fundou o grupo Pessoal do Victor, no qual atuou e dirigiu inúmeras peças. O grupo teve muita repercussão e, em 1977, foi convidado para montar o Centro de Teatro da Unicamp, onde ficou até 1984.

Com o Pessoal do Victor foram inúmeras montagens de grande sucesso, entre elas, “Na Carreira do Divino” (1979), de Carlos Alberto Soffredini, que o levou a ganhar alguns dos prêmios mais importantes de sua carreira como diretor – o Prêmio Molière e o da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA). “Na ‘Carreira do Divino’ foi o resultado muito feliz de uma soma de desejos, todos tínhamos feito a EAD juntos, todos nós tínhamos vindo do interior de São Paulo e queríamos falar que o caipira era legal. Sentíamos falta do sotaque caipira nas artes”, conta com entusiasmo. Para o ator, este foi o principal espetáculo que dirigiu. Outra montagem de grande empatia com o público foi “Feliz Ano Velho” (1983), de Alcides Nogueira e Marcelo Rubens Paiva, que viajou pelo Brasil e também se apresentou na Europa. Também vencedor do Prêmio Molière de melhor direção.

Com a repercussão de “Feliz Ano Velho”, tendo seu reconhecimento por parte da crítica, Paulo chega ao Rio e então é convidado para atuar na novela da TV Globo “Transas e Caretas” (1984), de Lauro César Muniz, com direção de José Wilker – hoje amigo e parceiro na Casa da Gávea. A empatia com a cidade e com os cariocas foi imediata e ele passa a morar no Rio e a se dedicar à televisão e ao cinema. “Acho que sempre sonhei em morar aqui. Fiquei apaixonado pela cidade e decidi que nunca mais sairia. Adoro essa mistura de morro e praia. Sou mais ligado ao mato do que à praia, mas gosto de saber que ela está ali por perto”, derrete-se.

Com o teatro, também se envolve com a política. “Comecei a fazer teatro amador envolvido pelo clima pesado da ditadura. Era impossível ficar alheio. Queríamos mudanças, queríamos liberdade”, desabafa. Mais tarde, no início da década de 90, e de certa forma, por causa da política, nasce a Casa da Gávea, criada para ser um ponto de reflexão e produção cultural, com atividades ligadas ao teatro, ao cinema e à cultura.

A partir daí, a televisão passa a tomar um papel importante na sua vida e ele faz inúmeras novelas e minisséries, principalmente na TV Globo. Das novelas, “Vereda Tropical” (1985), Força de Um Desejo” (1999), “Carmem” (1987), “Indomada” (1997), “Pedra Sobre Pedra” (1992) e, a mais marcante delas, “Tieta” (1989), onde interpreta o Timóteo, cujo bordão “nos trinques” tomou conta do Brasil. Questionado sobre o sucesso e o fato de ser uma pessoa pública, Paulo diz que isso não o incomoda, muito pelo contrário. “Adoro atuar na televisão e ser reconhecido pelo público. Me agrada ser uma pessoa reconhecida”. Das minisséries, “Engraçadinha ... Seus Amores e Seus Pecados” (1995), “Os Maias” (2001) e “JK” (2006) foram algumas nas quais atuou. Sua carreira no cinema também remete à década de 80. Dos filmes, ele cita “Lamarca” (1994) e “Mauá – O Imperador e o Rei” (1999), como uns dos mais marcantes de sua trajetória como ator. Mais recentemente, produziu e co-dirigiu, juntamente com Clóvis Bueno, “Cafundó” (2005), com Lázaro Ramos no papel principal. O filme ganhou 17 prêmios, incluindo cinco Kikitos no Festival de Gramado daquele ano.

E o Paulo Betti que conheço agora ainda não se dá por satisfeito. Trabalha na montagem de dois filmes, coordena um espetáculo teatral que será apresentado ao ar livre, dá aulas na Casa da Gávea, promove debates, reclama da distribuição de filmes no Brasil e faz o que pode para mudar o mundo, sem querer se envolver muito com a política. Acredita que a Gávea tem vocação para o teatro. “Basta contar quantos teatros temos aqui no bairro: Teatro dos Quatro, das Artes, do Jóquei, do Planetário, da Casa da Gávea, enfim.”

Ah, e lá na casa onde morou em Sorocaba funciona hoje o Quilombinho, projeto social comandado pelo ator que incentiva a educação e a cultura daquelas crianças e ajuda a melhorar suas perspectivas de vida. Além dos muitos sonhos que ainda têm, ele acredita que o palco pode mudar a vida de muita gente.

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