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Eduardo Souza Lima

EM COMA COM MADONNA

“Não existe filme ruim; você é que bebeu pouco”. Com o dito popular na cabeça, decidi encarar “Swept away”, o novo filme de Madonna.

Seus antecedentes eram bastante animadores: a cantora já nos havia brindado com algumas das mais desastrosas atuações da história do cinema – vide clássicos da ruindade universal como “A surpresa de Shangai”, “Olhos de serpente”, “Corpo em evidência”. E a direção é de seu marido, Guy Ritchie, um sub-Tarantino inglês que fez a fama com dois filmes muderninhos da pior espécie: “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes” e “Snatch – Porcos e diamantes”.

“Swept away” foi um fracasso retumbante de bilheteria nos Estados Unidos, sequer foi lançado nos cinemas da Inglaterra e sabe Deus quando chegará ao Brasil. A experiência foi feita com uma fita de vídeo pirata adquirida num camelô do Centro, com legendas em francês. Minha felicidade era ainda mais completa por se tratar de uma comédia romântica! E, ainda por cima, uma refilmagem de uma comédia romântica italiana de Lina Wertmuller!!!

Munido de oito garrafas 600ml de cerveja – acreditei que a quantidade fosse suficiente – apaguei as luzes e liguei o videocassete (cabe um parêntese aqui: caso não seja um profissional, não tente repetir esta experiência, pois os danos podem ser irreversíveis).

Logo de cara, o filme promete: seguida de uma abertura muito da mal filmada e editada, Madonna desembarca de um pequeno jato numa cidade paradisíaca qualquer do Mediterrâneo. Sua cara de megera (emoldurada por formidáveis pares de pés de galinha e de bíceps) denuncia que ela interpreta a si mesma: uma dona arrogante e cheia da nota. Ao seu lado, um bando de atores desconhecidos cuja única função dramática é preencher os espaços vazios da tela.

Abri a segunda cerveja: Madonna e seu séquito embarcam num cruzeiro. Finalmente entra em cena o galã, Alessandro Giannini, que foi escalado para o papel apenas por ter tido o azar de ser filho de Giancarlo Giannini, o galã do filme original. Na mesma hora Madonna começa a humilhar o rapaz. É claro que ela age assim porque está apaixonada. Sabemos isto não por causa de sua interpretação ou das artimanhas do roteiro, mas porque comédia romântica é assim mesmo.

Ritchie parece não saber o que fazer. Enganou meio mundo com seus filmes “espertos” sobre a malandragem inglesa e agora tem pela frente uma história de amor para tocar. Desesperado, lança mão de seu repertório de tarantinices. E dá-lhe citações da cultura pop despropositadas, piadas de marinheiro e enquadramentos supostamente ousados. Aos 19 minutos, Madonna solta um “fuking puking or a fucking kung fu king!”. Corro para a cozinha atrás da quarta ou quinta garrafa e volto a tempo de ver Madonna interpretando a bêbada da anedota tentando seduzir Giannini. Começo a me desesperar, achando que calculei mal o estoque de cervejas e já cogito buscar um reforço no Duda’s Lanches. Eis que chega a melhor parte: Madonna e Giannini agora estão sozinhos numa ilha deserta e os papéis se invertem. O camarada aplica uma bela dúzia de bordoadas em suas fuças e a obriga a lavar suas cuecas. Madonna imita cachorro e cai de quatro por ele. Para a minha surpresa, porém, não cheguei nem a esboçar um sorriso. Dei-me conta que “Swept away” não se enquadrava no caso do filme que de tão ruim chegava a ser bom: era apenas constrangedor.

Com a mente envenenada pelo álcool começo a devanear: imaginei-me um jovem cineasta promissor que se viu obrigado pelo destino cruel a se casar com uma mulherzinha histérica que se acha dona do mundo... Pobre Ritchie. Naquele momento, para mim ficou claro que “Swept away” foi a forma que encontrou para se vingar das humilhações que vem sofrendo em sua própria casa. Imerso nestes pensamentos, só me dei conta de que o filme tinha acabado quando começou a chiadeira de estática na TV. E o pior: a cerveja também. O Duda’s certamente ainda estava aberto, era só pegar mais uma dúzia de latinhas e rebobinar a fita. Mas, decididamente, não era um desafio que valesse o risco de um coma alcoólico. Da próxima vez, tento um filme do M. Night Shyamalan.

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