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...cantavam
as Frenéticas em coro na provocante Dancin
Days amplificando o fenômeno Disco para
todo Brasil. Isso há quase três décadas
atrás, quando muitos dos atuais clubbers mal
tinham idade para irem ao banheiro sozinhos, que dirá
pra sair a noite! E é essa geração
que idealiza aquela época como a mais liberê
e enlouquecida que o Brasil já viveu. Afinal,
era hora de afrouxar um torniquete que a ditadura apertava
há anos e partir pro desbunde total e radiante.
As pessoas só pensavam em abrir suas asas, soltar
suas feras, cair na gandaia e entrar naquela festa!
E durante três meses de Agosto a Outubro
de 76 o Shopping da Gávea foi o epicentro
da alegria e do frenesi carioca. Foi ali, no quarto
piso, aonde hoje é o Teatro dos Quatro, que funcionou
o Frenetic Dancin Days, a lendária discoteca
de Nelson Motta, berço das Frenéticas
e da Disco Music no Brasil. Poucos neurônios restaram
para contar a história, mas foi o bastante para
reconstituir os fatos por trás da lenda! Uma
entrevista livre, leve e solta com quem viveu esses
três meses de disco music, lurex e mucha loucura!
Nelson
Motta - O Dancin era como o dono
ultra-liberal. Como vivíamos uma época
de forte repressão política, uma das saídas
para não sufocar, era escancarar no existencial,
no comportamento. Sexo, drogas e Disco Music. A direita
até chamava esse pessoal mais libertário
de esquerda pornográfica.
Don
Pepe - Antes do Dancin, a noite era muito
elitista. Só existiam aquelas boites em que não
se entrava de tênis, que homem não podia
ir sozinho, tinha que passar por vários crivos.
Preto então, você não via mesmo.
Sandra
Pera - A gente ia no máximo ao Bar Acapulco
ou pro Baixo Leblon.
Du
MORAES Eu, que era virgem então, só
saía acompanhada da minha irmã.
Lidoca
- A noite era bem menos agitada. A Gávea
era extremamente residencial. O shopping estava no esqueleto.
Acho que a primeira coisa ali foi a discoteca.
Du
MORAES Não tinha nem Baixo Gávea...
Lidoca
Se você acha a Marquês de São
Vicente tranqüila, imagina o que era em 76.
Nelson
Motta - Parecia Petropólis. Silenciosa. Verde.
Com um ou outro raríssimo estabelecimento comercial.
O Shopping da Gávea foi um choque tão
grande, era tão estranho naquela paisagem bucólica,
que ninguém sabia que ele existia. Por isso a
imobiliária, dona do shopping, me contratou para
criar uma casa noturna que chamasse a atenção
para o Shopping da Gávea, que estava pronto
e deserto. Funcionou. Sorry, pessoal da Gávea
bucólica.
Don
Pepe Nosso pessoal saía mais de dia,
se encontrava na praia. E o Dancin era uma conseqüência
natural do Posto 9. Era uma continuação
direta da praia.
Nelson
Motta - Nosso público era feito do pessoal da
praia, surfistas e cocotas do Posto 9, músicos,
jornalistas, pessoal da TV Globo, onde eu trabalhava
no jornalismo e minha mulher na época, Marília
Pêra, fazia novelas, pessoal do cinema como Jabor,
Glauber Rocha, Cacá Diegues, do teatro
Sandra
Pera - Acho que não tinha nem Posto 9 ainda.
Todo mundo se encontrava em frente ao hotel Sol Ipanema.
Don
Pepe As pessoas que iam lá guardavam
segredo, com medo de popularizar demais e a liberdade
miar. Enquanto a playboyzada da época ia pro
Hippo, o pessoal mais cabeça ia pro Dancin.
Lá você entrava como quisesse, ninguém
ia ficar te olhando, reparando. Nelson Motta - O Dancin
foi a primeira casa onde havia uma bilheteria e como
num cinema, qualquer um, de qualquer cor, com qualquer
roupa, entrava.
Don
Pepe Era só pagar e passar, que nem
ônibus.
Nelson
Motta - Caso emblemático: uma noite o pintor
Jorge Guinle Filho encontrou na pista a sua empregada,
dançando alegremente.

Don
Pepe - Não tinha hostess na porta, promoter...
Nelson
Motta - Tinha a Scarlet Moon, que dava uma força
na divulgação. As Frenéticas eram
um pouco hostess - tinham centenas de amigos
além de garçonetes e cantoras.
Don
Pepe Eu me lembro bem da primeira noite,
do Glauber Rocha do meu lado na cabine do DJ, no segundo
andar. Além dele estavam Neville, Jabor... tava
muito cheio! E Não tinha ar... o clima tava literalmente
quente!
Lidoca
- A primeira noite foi uma loucura. Lembro de cruzar
com a Rita Lee, com o Liminha, o Milton...
Nelson
Motta Foi um sufoco. O pessoal ainda estava
pintando a sala de entrada e o público já
estava batendo nas portas de vidro, que quase foram
quebradas pela massa que queria entrar. Mas o som e
a luz estavam bons, tinha uma banda de rock ao vivo,
o Euforia, que revezava com Dom Pepe. Então atrasou
tudo e o show da Rita Lee começou lá pelas
duas da manhã. Adrenalina máxima!
Lidoca
E a gente ali, servindo todo mundo! Mas quem
trabalhava mesmo era Eu, Sandra e Du. A gente ralava
a pampa mas ganhava um bônus polpudo na comissão.
E ainda fazíamos um contrabando informal de cigarros
pra faturar um por fora.
Sandra
Pera - Eu vendia Minister.
Lidoca-
As outras ficavam mais dando pinta. A Regina então,
vivia encostada no balcão...
Nelson
Motta - Era para ser assim mesmo, totalmente informal.
Afinal, elas não eram só garçonetes.
Du
MORAES Todo dia antes de pegar no batente
eu ia pro bar e tomava uma caracu com ovo pra segurar
a onda!
Sandra
Pera - Era uma época de muita dureza. A gente
chegava as sete e só saía quando todo
mundo já tinha ido. Eu sempre fui a primeira
em vendas. Lembro que depois do Dancin eu fiquei
dois meses calma de dinheiro.
Nelson
Motta - Quem vendia mais bebida ganhava mais comissão,
então... quem ralava mais, ganhava mais, cada
uma que se virasse o quanto quisesse.
Lidoca
- Teve uma vez que o Chiquinho Scarpa me escolheu pra
ser a garçonete dele por uma noite. Ganhei uma
gorjeta bem gorda, maior do que o meu rendimento no
mês inteiro!
Sandra
Pera - Mas era duro. A gente levava mão na
bunda, nos peitos... em todo o canto.Teve uma vez que
eu tomei uma mãozada que me levantou do chão!
Quando eu voltei pra dar na cara do sujeito, cadê
ele??
Du
MORAES - Eu ficava mais ali pelo balcão,
com o seu Geovanni, o barman. Eu não me metia
ali pros lados da pista...Todo mundo doido...
Nelson
Motta - Mas isso logo acabou porque elas se tornaram
um sucesso, as pessoas iam ao Dancin para ver,
ouvir e dançar com as Frenéticas! Bandeja
nunca mais. O duro era discutir com seis mulheres falando
ao mesmo tempo
Sandra
Pera - Lá pela uma da manhã trocávamos
nossas roupas de lurex e cetim em prata e nossos aventais
com o bolso cheio de gorjetas desenhadas pela
minha irmã - por um maiô colorido brilhante
e subíamos no palco!
Lidoca
- Era tudo muito espontâneo. A gente não
cantava Disco, era mais uma coisa meio MPB eclética
com rocknroll. Lets Spend the Night
Together com Back in Bahia
E cada uma se traduzia
em gestos e vozes em cima do palco. Era um mix de todas
as nossas experiências afetivas, sociais, familiares...
Uma coisa de cuspir a personalidade de cada uma, uma
tradução da liberação da
época. Não era uma emoção
fabricada. E o público entendeu isso. As pessoas
ficavam loucas.
Nelson
Motta - Olha, gente que nunca saía a noite,
como Maria Bethânia e Milton Nascimento, sacolejava
na pista.
Lidoca
Do palco a gente via a Gal, o Caetano, o Serginho
dos Mutantes... e eles adoravam!
Sandra
Pera Isso era muito emocionante! O Ney (Matogrosso)
também ia direto ao Dancin...
Du
MORAES - Ele inclusive me pediu em namoro!! Eu disse
que era mocinha, que não podia namorar alguém
do Secos e Molhados, imagina, ia matar meus
pais de desgosto! Mas ele disse que ia me respeitar!
Fiquei nervosa...quase que eu aceitei...
Sandra
Pera - Eu lembro de vários casais se formando.
Lembro da Monique Evans ficando com o Pedrinho Aguinágua,
da Betty Lago ficando com o Eduardo Conde...
Don
Pepe E da Sônia (Braga) que pegava
geral! E tinha o Petit, que também não
perdoava! Se a sua mulher quisesse ficar com o Petit,
você não podia nem ficar puto. Ele era
tipo o sonho de consumo das mulheres...e mulher, sabe
como é que é...
Sandra
Pera O Petit era um deslumbre... encapetado!
Nelson
Motta Cazuza era um que fervia todas as noites.
Era um dos mais assíduos. E certamente o mais
jovem, porque deveria ter pouco mais de 16 anos (a portaria
do Dancin era bem liberal com idade
). E
um dos mais doidos também.
Du
MORAES Ele ia com aquele menino de chapéu,
o Ronaldo Resedá...
Don
Pepe As pessoas conheciam o Cazuza como filho
do João Araújo. Eu lembro dele com aquele
cabelo cacheado, tipo um anjinho. A gente meio que cuidava
dele, ficava de olho...
Don
Pepe - O povo do soçaite também ia,
pra ver a fauna do Dancin´, tipo (imitando voz
empostada de grã fino) Vamos lá
ver a casa noturna do Nelson Motta. Chegando lá,
eles se soltavam. Todos aqueles sobrenomes ilustres
foram dar um confere.
Sandra
Pera - Eu lembro bem quando a Tônia Carrero
foi lá. Todo mundo falando Ih, a Tônia
Carrero tá aí. Ela tava vestida
com um macacãozinho azul, acompanhada de dois
homens. Daí eu fui servir e ela me disse Sabe
que você parece muito com a irmã da Marilia
Pêra? Daí eu respondi Tônia,
sou eu! Ela não acreditou!
Don
Pepe Não tinha essa história
de área vip. Tudo era área vip ali. Era
todo mundo junto, misturado.
Nelson
Motta Só tinha mesmo a e-nor-me cabine
de som, que ficava no alto da arquibancada, de onde
se via tudo e todos. Convidados especiais meus e de
Dom Pepe viviam ali. Mas o resto se misturava numa boa,
todo mundo se sentia VIP. Começou a ter muita
granfinada também, Zózimo, Ricardo Amaral,
dondocas, misturados a surfistas, roqueiros, vagabundos,
gente de teatro, comunistas... Era o charme do Dancin.
Sandra
Pera E todo mundo suando. Suava-se muito
ali... Culpa do som do Pepe, que era demais! E também,
porque não tinha ar condicionado.
Nelson
Motta O Pepe tocava um mix de disco music
com Black Rio e rock nacional da época. Tinham
uns hits da época como Cocaine do
Eric Clapton e I Shot the Sheriff do Bob
Marley. misturados com Andrea True Connection, uma estrela
pornô que estourou na Disco Music, Gloria Gaynor,
Earth, Wind and Fire
Don
Pepe - O som era bem diversificado. Não tinha
esse papo que tem hoje, de escolher a música
pelo BPM. Eu escolhia a música pelo feeling!
Nelson
Motta E o Pepe ainda descolou um projetor
de 16mm pra gente passar uns promos das gravadoras,
porque na época não tinha clip, era tudo
em película, com aquela imagem espetacular. Um
dos que fazia mais sucesso era o de Hurricane
do Bob Dylan, que tinha mais de 8 minutos...
Sandra
Pera Tinha uma mulher tocando um violino
branco nesse clip, né? Essa era a deixa pra eu
ir comer meu sanduíche de atum.
Don
Pepe Eu sei que pra fazer aquela pista ferver,
eu tinha que estar na mesma sintonia que todos, no mesmo
pique... E era aquela loucura, né? Todo mundo
tomava Drak. Era um remédio pra dormir. Mas se
você segurasse o sono, dava uma ooonda. Você
ficava muito amoroso... As pessoas não se cumprimentavam
só com selinho não, era com chupão
mesmo!
Nelson
Motta Era o Mandrix. Custava 11 cruzeiros
uma cartela de doze comprimidos na farmácia.
Era o Ecstasy da época.
Lidoca
As minhas cartelas duravam bastante, porque eu
tomava de meiota em meiota.
Sandra
Pera - Eu ganhava de presente toda a sorte de aditivos...e
não tinha muita experiência no assunto...
eu lembro que era a época do Angel Dust também,
uma mistura de várias coisas que tinha um cheiro
meio ruim.
Du
MORAES Cruzes, tinham umas pessoas que ficavam
babando. No final da noite ficava todo mundo pedindo
água. Acho que era por causa disso.
Lidoca
O Drak agia direto no senso de inibição.
Lembro de uma vez que a gente tava ali perto do bar
e vimos uma menina levantar a saia e começar
a se masturbar, sem mais nem menos. Perto de onde tinha
uma cortina preta que ela achou que era uma parede.
Sei que no auge da parada, ela não tava mais
se agüentando em pé, foi encostar na cortina
e desabou.
Sandra
Pera - Eu lembro dessa cortina. O povo, enlouquecido,
encostava achando que era uma parede e claro, se estabacava.
A Edir que era a mais velha, sempre cuidava dos mais
loucos.
Don
Pepe As pessoas ficavam a vontade para pagar
mico sem se preocupar. Porque, vamos combinar: quem
fica doido, de verdade, paga mico. E as pessoas enlouqueciam...
Eu não lembro dos micos dos outros porque eu
já estava muito ocupado cuidando dos meus.
Du
MORAES Depois a gente fechava o Castelo da
Lagoa, o Chicos bar...
Don
Pepe Eu ia pro baixo Leblon baixar a bola...
Era tudo tão bom que eu nem pensava em dormir!
A noite, eu curtia o Dancin e a tarde tinha a praia.
Nessa época eu era magro que nem um palito! Mas
tô compensando hoje tudo o que eu não dormi!
Du
MORAES Eu fiquei um graveto depois disso
tudo. Foi a dieta Dancin Days...
Sandra
Pera - Na última noite rolou um clima meio
triste. Nelson Motta - Eu mesmo não lembro de
quase nada dessa noite.
Lidoca
o Sergio Dias foi um dos que subiu. No final
do show ele disse Vocês são muito
importantes para a música popular brasileira.
Vocês não podem encerrar aqui. E
a gente resolveu continuar...
Sandra
Pera - Quando eu cheguei em casa no último
dia, tava naquele pique, não conseguia
dormir e lembrei de uma música do Gonzaguinha
que eu tinha ouvido na casa da Angela Leal, aonde eu
morava. Ela tinha todos os discos do Gonzaga e eu fui
ouvindo faixa a faixa até achar O Trem
da Alegria. Esse acabou sendo o nosso primeiro
grande hit. E eu acabei tendo uma filha com o Gonzaguinha...
Nelson
Motta - A gente sabia desde o início que
a festa tinha dia para terminar. Me lembro que estava
muito louco - talvez para não lembrar de nada
- mas nunca estive triste, pelo contrário, eu
sempre falava ao pessoal que era sensacional a gente
fechar no pico do sucesso, que íamos virar uma
lenda. Detesto decadência. E casa noturna da moda
então
dura uma temporada. A nossa vai
durar para sempre.
Du
MORAES Eu ainda tenho umas roupas dessa época.
Outro dia saí com uma e alguém disse Menina,
que linda! E eu disse Tem 27 anos!
Don
Pepe Cara, eu sei que curti muito! Comi muita
gente, fui cruel!... Mas depois, pensando bem, eu cheguei
a uma conclusão: poderia ter comido muito mais!
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