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Uma usina de barulho, criação e provocação reside na santa paz da Gávea. Quem habita e freqüenta o bairro, não pode imaginar o que aquela tranqüilidade toda provoca na mente de Barrão, Zerbini, Mekler e Chico Neves, os corações e mentes por trás do Chelpa Ferro. Chelpa o que?

“Chelpa e Ferro são gírias portuguesas para dinheiro, na época do Brasil colonial. A gente nunca soube se isso era verdade, mas acabou que ficou esse nome” explica Zerbini.

Significado é a última preocupação que passa pelas suas cabeças. Afinal o grupo já existia, antes de surgir. Foi em 1995, quando o poeta Chacal perguntou ao artista plástico Barrão se ele conhecia uma banda nova para se apresentar no CEP 20.000, seu tradicional happening poético. Barrão disse que sim e convocou Luiz Zerbini e Sérgio Mekler para a empreitada, ou seja, inventar uma banda, mesmo sem saber tocar. “No primeiro show éramos nós quatro tocando guitarra em cima de uma base eletrônica”, lembra Barrão. “E na terceira apresentação convidamos 14 guitarristas, fizemos o maior barulho!“, completa Zerbini. No fim do “show”, o produtor Chico Neves acabou aderindo ao Chelpa. Com essa formação, gravaram o primeiro disco, lançado pela RockIt! em 1997 e distribuído pela Universal.

A história desses quatro amigos e seu combo plastifônico está muito ligada à Gávea, já que é no ateliê de Zerbini – na tranqüila rua Major Rubens Vaz - que as idéias surgem e são realizadas. Aliás, a casa onde fica o ateliê foi um dia a residência do brigadeiro da aeronáutica e também pintor Araken, que continua morando no bairro. “Até deixei as marcas de respingo de tinta pela casa, pelas portas. Já estou aqui há mais de 10 anos e adoro o clima do bairro. Ás vezes, quando dá um branco, dou um passeio por aqui e volto cheio de idéias”.

O paulista Luiz Zerbini estudou artes plásticas na FAAP e veio para o Rio em 82. Morou em Botafogo e depois se mudou para a Gávea. “Demorei quase um ano para achar essa casa. Eu queria que fosse na Gávea e tinha que ter o pé direito alto pra fazer um ateliê, já que meus trabalhos são grandes”.

“Meu estúdio fica no Jardim Botânico, onde trabalhamos com áudio e a parte de montagem das instalações é na Gávea, no ateliê do Zerbini. É um bairro que mais parece uma cidade do interior, onde todo mundo se encontra” elogia Chico Neves, que produziu entre outros discos “O Dia Em Que Faremos Contato” de Lenine; “Hey Na Na” dos Paralamas e “Lado B Lado A” do Rappa.

Em 1983, Sérgio Mekler alugava uns filmes na locadora, pegava uns videocassetes emprestados e fazia edições para passar num telão durante o show do multiperformático Fausto Fawcett. Logo estaria editando programas na TV como o “Brasil Legal” de Regina Casé e sendo premiado por seus clipes para Marisa Monte, Paralamas e Lulu Santos na MTV. O trabalho de Mekler ainda pode ser visto em filmes como “Deus é Brasileiro”, “A Ostra e o Vento”, “Orfeu” e agora no longa “O Homem do Ano”.

Barrão participou da Geração 80 e já expôs na Suécia e em Cuba. além de ter feito capas de cds dos Paralamas, Kid Abelha, Lenine e Fausto Fawcett. ”O Chelpa Ferro são quatro pessoas que exploram as mais diferentes possibilidades. Não somos um grupo nem de música nem de artes plásticas, misturamos tudo isso... e não sei o que é na verdade”. “Os punks sabiam tocar três acordes e o Chelpa não sabe tocar nenhum” brinca Serginho.

E a locomotiva multimídia não pára!. Desde que surgiu, o Chelpa já participou de diversos eventos importantes, entre eles o “FreeZone” (no Rio, Curitiba e Porto Alegre), a “XXV Bienal de São Paulo”, além de exposições na Galeria Forts Vilaça e Casa das Rosas (SP), sempre com instalações inusitadas, polêmicas e até geniais.

Uma das que causou mais barulho foi sem dúvida a “Autobang” que inaugurou a XXV Bienal de São Paulo em 2001 e consistia em fazer batucada num carro até destruí-lo. “Desenvolvemos o projeto e microfonamos todo o carro. A gente começava com baquetas e no fim pegávamos marretas, vergalhão, barra de ferro... As pessoas ficaram possuídas, rolou uma adrenalina incrível. Era polêmico. Alguém tinha que fazer aquilo”. Para quem quiser saber o efeito causado pelo “Autobang”, Zerbini avisa que está saindo o livro e o CD da performance, com uma tiragem limitada de dois mil exemplares.

Esse ano, o Chelpa Ferro vai se apresentar em novembro na Bienal de Havana, em Cuba, além de continuar com os preparos para seu próximo disco. Vem muito mais barulho por aí...

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