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Eduardo Souza Lima

HERÓIS COM CÉREBRO

Peter Milligan é um roteirista que sofre de, digamos, excesso de criatividade; o desenhista Mike Allred e sua mulher, a colorista Laura, são egressos dos quadrinhos independentes americanos e têm como maior referência a arte pop de Roy Lichtenstein. Quando Jose Quesada, editor chefe da Marvel, resolveu juntar os três, não devia ter a mínima idéia da fria que estava se metendo. Ou talvez não tivesse peito para fazê-lo.

Há alguns anos, a indústria de quadrinhos americana atravessava uma crise sem precedentes e Quesada, um marqueteiro de marca maior, viu que era a hora de tomar medidas radicais. Ousou até mesmo mexer em time que estava ganhando. A franquia “X-Men” era - e ainda é - a mais rentável da editora. Ainda assim, o editor achou que era hora de mudanças. Mas ninguém foi mais longe do que Milligan e os Allred. Ao trio coube reformular o gibi da X-Force, uma espécie de segunda divisão dos X-Men. Só que eles não deram a menor pelota para o grupo criado por Rob Liefeld. Sem qualquer desculpa ou aviso prévio, mudaram completamente a sua formação e o enfoque das histórias - o que antes era pura pancadaria acéfala virou sátira quase lisérgica.

Milligan parece escrever sob a influência de alucinógenos e não raro as conseqüências são desastrosas. Desta vez, porém, o roteirista acertou a mão. A nova formação estreou lá fora na edição 116 de “X-Force” (e aqui, na revista mensal “X-Men extra” número 7). Com a maestria de um Stan Lee, Milligan criou uma bela história de apresentação de personagem, estrelada pelo líder do grupo, Zeitgeist. O leitor conhece sua origem, suas motivações e é preparado para a sua primeira missão. Mas não para o que viria a seguir: com exceção de dois integrantes, toda a equipe é brutalmente assassinada - Zeitgeist, inclusive!. O gibi desagradou à Comics Magazine Association of America, um rebotalho do macarthismo, que lhe negou o Comic Code Authority - um selo de aprovação concedido às revistas que honrem os bons valores americanos. No número seguinte, já é apresentado aos novos integrantes e ao novo líder, o Órfão. E as baixas continuaram nos números seguintes. Mas por trás desta matança desenfreada há uma crítica ácida ao culto da personalidade, da busca sem limites pela fama e à política externa americana, entre mais um bocado de coisas. Os dois membros mais jovens da equipe, Adiposo e Vivissector, se fazem passar por um casal gay apenas para ganharem as atenções da mídia. Outro integrante, Doop, filma todas as missões do grupo, que são transmitidas pela TV. E geralmente elas são algum trabalhinho sujo para o governo americano.

A X-Force é bancada por um gênio da informática milionário, inspirado em Bill Gates, que manipula os seus integrantes ao sabor das oscilações do Nasdaq. E nem mesmo a própria Marvel escapa da ironia de Milligan: numa das aventuras da X-Force, Wolverine, o herói mutante favorito da garotada, faz uma participação especial; mas um letreiro diz que ele só está alí para aumentar as vendas da revista. O grupo acabou mudando o nome para X-Statix, para evitar um futuro processo de Liefeld, e até isto foi alvo de gozação para o escritor.

O último sacrilégio de Milligan foi anunciar que ressuscitaria Lady Di - a própria, ela mesmo, a princesa do povo - para que ela fizesse parte da equipe. O escritor argumentava que ninguém melhor do que ela, uma pessoa que era conhecida justamente por ser famosa, para fazer parte de um grupo que vive atrás da fama. A historinha já tinha até título, “Di another day” - um trocadilho infame em cima do nome do novo filme do 007 - mas diante das reclamações do Palácio de Buckingham, a Marvel recuou e tirou as menções ao nome da princesa da aventura. Grandes coisas, já que a personagem é a cara da finada. A X-Force é uma prova de que ainda há vida inteligente nos quadrinhos de super-heróis.

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