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Jô
Hallack (Texto e Ilustração)
OS
WORKAHOLICS MERECEM O INFERNO
Não
adianta eu ajudar cegos atravessarem a rua, ser uma
garota boazinha e comer todos os legumes do meu prato.
Isso não vai resolver o meu problema. Quando
eu morrer, eu vou para o inferno.
Sua cela é a 37377 no subsolo 103.
Como assim!? Eu nem cobicei a mulher do próximo!
Mas você não é aquela que trabalhava
nos dias de folga?
Sabe o que é... aquilo era um projeto pessoal...
E o que eu tenho a ver com isso? Seus arquivos serão
enviados em seguida. Você pode passar a eternidade
trabalhando. E já vou logo avisando: aqui no
inferno não dá para fazer back-up.
Baldes
de café serão servidos a cada meia hora
até que minhas pálpebras começarão
a tremer. Uma espécie de tique nervoso para todo
o sempre. E então, eu vou descobrir o pior! As
outras celas do subsolo 103 vão ser ocupadas
por pessoas que trabalham na área de marketing.
E eles vão me convidar para eventos para integração
das pessoas do subsolo 103, em que cada um terá
que falar sobre sua experiência pessoal. Socorro!
Se quiser passar na nossa cela mais tarde, a gente vai
fazer uma happy-hour! Você sabia que uma pesquisa
concluiu que pessoas que freqüentam happy-hours
têm mais chances de se darem bem na vida e galgarem
degraus da fama dentro da empresa?
É
verdade. Com as pálpebras tremendo de tanto tomar
café e tendo que fazer serão por ter perdido
todos os arquivos do computador que não faz back-up
(só os chatos fazem back-up, essa é a
verdade), vou me lembrar desta pesquisa que revela que
trabalhadores que ficam enchendo a cara com os colegas
da empresa depois do expediente ganham 17% a mais do
que os que vão direto para casa. E não
estou falando de tomar um goró no boteco e sim
de pessoas que freqüentam happy-hours imundas com
música horrível. E ao vivo!
Serei
castigada por ter achado que trabalhar que nem um camelo
era algo bacana. Por isso vou para o inferno, um lugar
cheio de barzinhos com apresentações voz-e-violão
e eventos do marketing. Um lugar em que as pessoas,
ao invés de fazerem sexo, vão querer agregar
valor! Serei obrigada a permanecer o tempo inteiro com
ombreiras e ir em peças de teatro em que o público
participa. Tanto sofrimento por quê? Porque que
sou uma daquelas pessoas que caíram no truque
da mulher ocupando seu espaço no mercado
de trabalho!!
E
quando sobra algum tempo entre a firma, a aula
de grego, a manicure-pedicure-drenagem, a psicanálise,
a macumba, a ginástica, a power-capoeira e as
reuniões dos projetos pessoais (que humilhante!
Eu também caí no truque dos projetos pessoais!)...
bem, quando sobra algum tempo eu vou ler O ócio
criativo.
Ócio criativo? É um livro
sobre artesanato? Perguntou a minha avó Leonor,
sabiamente.
Tenho
um pouco de vergonha quando tento explicar aos amigos
porque vou trabalhar sábado e domingo. Dias santos
e feriados. Natal, Reveillon, Páscoa e Carnaval.
Tenho um pouco de inveja das pessoas lesadas que passam
o dia inteiro no Posto 9, mesmo que elas sejam toscas
e morem com os pais aos 40 anos. Estou em surto, não
reparem.
Mas
acho que esta crise pode ser boa, porque da crise pode
renascer uma pessoa com idéias ótimas.
E aí, é só formatar um projetinho!
Chega.
Não quero pensar em nada, em absolutamente nada.
O nada não é um vácuo temporário
de onde brotarão pensamentos incríveis.
Você não vai sair do nada uma pessoa melhor.
O nada também não é um estado de
meditação que vai elevar sua alma. O nada
é simplesmente um buraco negro e o máximo
que você vai conseguir é voltar de lá
com suas meias que haviam desaparecido há cinco
anos.
E
que venha o limbo.
PS.:
e como diz uma canção que eu tenho ouvido
muito: Todo dia é do trabalho. Minha vontade
é largar tudo!
Jô
Hallack é jornalista e uma das autoras do site
www.02neuronio.com.br

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