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ÍCONE DO TEATRO E DO CINEMA BRASILEIRO, A ATRIZ CAMILA AMADO COMEMORA 50 ANOS DE CARREIRA LANÇANDO LIVRO EM QUE CONTA A HISTÓRIA DE SUA VIDA

Bianca Jhordão

Não é fácil condensar quase meio século de carreira em um livro. E tudo fica ainda mais difícil se você tem tanta vida para ser contada, como é o caso da atriz Camilla Amado, um ícone da dramaturgia brasileira. “Eu não tinha a intenção de fazer um livro, comecei a escrever para ocupar um tempo de espera nos ensaios”, revela a atriz. A surpresa maior ficou por conta do resultado. “Trata-se de um livro de erros e desabafos, onde revejo os momentos que fizeram parte de minha vida e carreira”.

Justamente por isso, Camilla Amado batizou a compilação desses momentos históricos, que sai em dezembro, de ‘Às Três da Manhã’, uma alusão às centenas de saudosas madrugadas passadas em claro na tentativa de resgatar os melhores momentos de sua trajetória que teve início em 56, quando a atriz estudava na Suíça. “Desde criança, vivia na ficção lidando com personagens imaginários. Foi um caminho que me foi oferecido naturalmente”, revela.

De volta ao Brasil, resolveu levar a sério o talento desenvolvido na Europa. “Era muito forte a cena de teatro na década de 60. A TV mudou tudo, mas a classe teatral continua a mesma. Pode ter uma porção de artistas numa sala, mas quem é de teatro se reconhece, somos muito unidos”.

Sua primeira experiência na televisão foi no programa ‘Grande Teatro’ da TV Tupi. Dirigido por Sérgio Britto, o programa contava ainda com um grande elenco: Fernanda Montenegro, Glauce Rocha, Yoná Magalhães, Cláudio Cavalcanti, Ítalo Rossi, entre outros. Foram três anos atuando ao vivo na TV, já que naquela época o videotape não existia. “Acontecia de tudo, as pessoas erravam, era muito bacana”.

Apesar de ter trabalhado em várias emissoras de televisão, Camilla deixa claro sua preferência pelo teatro, principalmente quando aponta as poucas semelhanças entre atores de teatro e da televisão: “As pessoas que vão fazer televisão não necessitam se desvencilhar da própria personalidade e nem sempre isso acontece. A TV não dá tempo para o ator se separar da sua personalidade e absorver uma outra. Quando você é ator de teatro é diferente, você deixa sua personalidade no camarim e veste outra pra entrar em cena”.

Em 1975, Camilla ganhou o Kikito de Ouro de melhor atriz no Festival de Cinema de Gramado pelo filme ‘O Casamento’, de Arnaldo Jabor. Depois foi convidada pelo ator e diretor Ziembinsky para a remontagem de ‘O Vestido de Noiva’, de Nelson Rodrigues. “Foi maravilhoso ter trabalhado com o Ziembinsky, um gênio, um verdadeiro diretor de teatro”.

Nessa época, Camilla queria fazer arte e revolução, por isso não se enquadrava nas regras das novelas: “Quando o Ziembinsky me chamou, eu tinha acabado uma novela na Rede Globo - ‘A Escalada’ - onde era a protagonista e par romântico de Tarcísio Meira. Deixei para trás todas as novelas que fiz na Globo. De vez em quando eles me ligavam querendo saber se eu estava bem, acho que eles tinham medo de mim e eu deles”, lembra dando risada.

Aos 30 anos de idade, ficou viúva do jornalista Carlos Eduardo Martins e com dois filhos pequenos resolveu produzir teatro. Conseguiu um bom empréstimo num banco e produziu ‘Um Encontro num Bar’, de Bráulio Pedroso, que estreou no Teatro das Artes (hoje, Teatro da Cidade, em Ipanema). “Foi um fracasso! Os atores foram fazer outros trabalhos e fiquei sozinha com um empréstimo enorme e muito angustiada”. Numa manhã, Camilla foi para o teatro, se sentou no palco e um anjo apareceu para ela: “O teatro estava todo escuro e de repente a porta do fundo se abriu e como um feixe de luz, um rapaz alto, loiro com cabelo pelo ombro apareceu, parecia um anjo. Ele veio em minha direção e disse que gostaria de substituir um dos atores que tinha deixado a peça”. Era Marco Nanini, que na época fazia sucesso como o Julinho da novela ‘O Cafona’. Mesmo com o ator incorporado ao elenco, a peça não decolou. “Depois fizemos ‘As Desgraças de uma Criança’, de Martins Pena, que foi um sucesso. Chegamos a fazer três sessões por dia!”, lembra Nanini.

Outro momento marcante em sua carreira foi em ‘A Dama das Camélias’, no Teatro João Caetano, também um grande sucesso de público. Camilla produziu espetáculos para a velha guarda com nomes como Grande Otelo, Walmor Chagas, Ítalo Rossi e Henriqueta Brieba. Investiu também em espetáculos de outros artistas como Fernando Torres, Paulinho da Viola, João Carlos Assis Brasil, Egberto Gismonti e Francis Hime.

No cinema, Camilla protagonizou ‘Amélia’, filme de Ana Carolina. No teatro fez a tragédia ‘Tróia’, com Eduardo Wotzel. Em 2001 fez ‘Hamlet’ no Centro Cultural Banco do Brasil e reinaugurou o Teatro do Jóquei com a peça ‘Carícias’.

Não satisfeita com o teatro, a televisão e o cinema, Camilla também mantém em sua casa, na Gávea, uma escola de interpretação com método próprio. Formada em filosofia pela Faculdade Nacional, ela recebe atores consagrados que fazem com ela uma espécie de reciclagem, além de absorver dela sua vasta experiência profissional.

Recentemente, Camilla dirigiu a peça ‘Divinas – Uma Comédia Olimpicamente Errada’, escrita pelas atrizes Paula Cohen e Lú Grimaldi, que ficou os dois últimos meses em cartaz no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea e agora viaja pelo Brasil. Foi a primeira vez que Camilla dirigiu sua filha, Rafaela Amado: “Foi uma ótima experiência trabalhar com uma pessoa que você confia e que você sabe que está fazendo o melhor, que não vai dar dicas equivocadas. Ela sabe o que faz, tem muita experiência, foi maravilhoso ter trabalhado com minha mãe”.

E como é sobreviver quase cinqüenta anos no teatro? “Meu pai costumava dizer que eu era funcionária do Departamento de Milagres. E não deixa de ser uma verdade, porque nessa profissão não temos nenhuma infra-estrutura, nada que realmente nos dê apoio. A vida é uma só e você precisa seguir o seu instinto, fazer o que gosta e pagar o preço, porque tem um preço. Posso dizer que sou feliz, porque faço aquilo que quero fazer. O teatro foi meu único caminho, foi a única possibilidade que a vida me ofereceu e sou grata a ela por isso”.

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