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Eduardo
Souza Lima
O
BRAVO SOLDADO DO CINEMA
Festival
de Brasília, novembro de 2001: em frente ao Cine
Brasília, sede oficial do evento, Afonso Brazza
aproveitava o bafafá para fazer o seu corpo-a-corpo.
Estava divulgando o seu filme mais recente, Tortura
selvagem - A grade, e aproveitou para anunciar
seu novo e mais ambicioso projeto: Quero a Vera
Fisher no meu próximo filme. Não tenho
dinheiro para pagar o cachê dela, mas tenho certeza
de que a convenço a trabalhar de graça
para mim.
Tamanha
convicção vinha do fato de que, para ele,
para fazer cinema, bastava ter vontade. O bombeiro-cineasta
de Brasília, que morreu no último dia
29 de julho, escreveu, estrelou, produziu e dirigiu,
no peito e na raça, nada menos do que oito filmes
- entre eles o inacabado Fuga sem destino,
no qual tinha um papel para Vera. Nem mesmo Collor conseguiu
parar o bravo: nos anos que se seguiram à extinção
da Embrafilme - da qual, aliás, nunca recebeu
nem um tostão - ele foi um dos poucos cineastas
brasileiros que conseguiram filmar.
Fã
do faroeste caboclo de Tony Vieira (1938-1990), o piauiense
Brazza foi para São Paulo no início dos
anos 70 para aprender a fazer cinema naquela que considerava
a Hollywood brasileira: a Boca do Lixo. Foram
os melhores anos do cinema nacional. Hoje, não
restou nada, lamentava-se.
Lá,
participou de 48 filmes até 1979, nas mais diversas
funções. Já as aulas teóricas
tomou com o mestre José Mojica Marins, o Zé
do Caixão, em sua famosa escola de artes dramáticas.
Depois radicou-se em Brasília, onde entrou para
o Corpo de Bombeiros e iniciou a carreira de cineasta
com Procurador Jefferson, matador de escravos
(1982). Depois vieram Os Navarros (1985),
Santhion nunca morre (1987) - lançado
em 1991 e que bateu Uma linda mulher e Predador
2 em sua primeira semana de cartaz na cidade-satélite
Gama -, Inferno no Gama (1993) - mais de
4.800 fitas de VHS vendidas -, Gringo não
perdoa, mata (1995), No eixo da morte
(1998) e Tortura selvagem - A grade (2001),
sua mais cara produção. Só
de tiros, foram 850!, gabava-se.
O que dava mais ou menos mil pratas por bala, já
que o filme custou R$ 850 mil. Mas só no
papel, gostava de frisar. Fiz tudo nos outros
filmes e neste fiz mais ainda. Além de dirigir,
sou o roteirista, ator principal, câmera e diretor
de fotografia. Agora comprei uma moviola e sou o montador
também. Assim consigo economizar.
O
filme conta com as participações especiais
de José Mojica Marins, Rodolfo e Digão,
dos Raimundos, e Liliane Roriz, filha do governador
do Distrito Federal Joaquim Roriz e apresentadora de
um programa de TV local. Todos trabalharam de graça,
levados pela lábia de Brazza. Liliane faz uma
das mocinhas que disputam o coração do
protagonista do filme, Maicon - as outras duas brazzagirls
são as atrizes Cláudia de Carvalho e Claudete
Joubert, viúva de Tony Vieira, com quem se casou.
Mas como seus demais personagens, Maicon é tão
macho que nem de mulher gosta.
É
um personagem só, não liga para mulher,
o negócio dele é vingança. E não
é porque ela é filha do governador que
teve tratamento especial não!.
Brazza
se via como uma espécie de Rambo do Cerrado.
Nunca fez comédia, mas geralmente a platéia
caía na gargalhada nas sessões de seus
filmes. Ele nem ligava. Também era comparado
a Ed Wood. E uma coisa ele realmente tinha em comum
com o cineasta americano - que ganhou a fama de ser
o pior de todos os tempos: um amor incondicional pelo
cinema.

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