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Jô Hallack (Texto e Ilustração)

PRAZER, AGENTE STARLING!

“Por acaso você é policial?” Poderia enumerar as razões pelas quais não tenho a menor simpatia pela polícia carioca, razões que transformariam a pergunta da recepcionista simpática numa ofensa. Por algum estranho motivo, acho extremamente cool ser confundida com uma policial. Vi muito Chips quando era criança. Sei que é praticamente impossível alguém me confundir com uma policial, a não ser que eu estivesse infiltrada em escolas para descobrir o esquema do tráfico de drogas no primário. Mas finjo que não sei que é uma pergunta padrão e já me sinto a própria Gil das Panteras.

Só por esta, o preço da matrícula já valeu a pena! Eu acabo de me inscrever na academia de ginástica da polícia civil. É o efeito verão. Faltando dois meses para janeiro chegar, o calor começa a torrar seu cérebro e coisas estranhas acontecem. Seus olhos brilham quando alguém fala a palavra dieta. Seu coração acelera de medo quando você pensa em um biquíni. E você começa a ter uma estranha simpatia pelo povo coreano, pois eles têm o hábito de entrar no mar com roupas! O próximo passo: perceber que largou a academia há cinco meses, que está gorda e monstra e que tudo é válido na hora de recuperar a sua dignidade dentro de um traje de banho. Até mesmo ingressar na academia de ginástica da polícia civil, porque é bem em frente ao seu trabalho. “E se a academia é longe, você acaba não indo”, dizem todos os terráqueos, em coro.

Sempre fui contra fazer ginástica do lado da firma. Mas sucumbi e passei a relevar fatos. Ser vista pelas pessoas do trabalho com uma touca de natação amarela passou a ser menos importante do que ser vista pelas pessoas que não são do trabalho em um momento “a estranha força que a lei da gravidade exerce no corpo do ser humano”. E a academia é ótima, pois tem até hidroterapia e lambaeróbica. Cristo, onde fomos parar!

Me sentindo muito foda porque sou praticamente uma policial, vou para o exame médico. Aquele momento humilhante de medir seu percentual de gordura com uma pinça que mostra que o seu pneu é anti-estético e que uma barriga assim não é permitida na corporação. Levo um susto: “Você não precisa emagrecer e seu percentual de gordura está até abaixo do indicado”, diz a médica. Saio do exame totalmente decepcionada – afinal, o mínimo que eu esperava era ela falar que eu estava flácida e com obesidade mórbida! Tenho vontade de ir à recepção e pedir meu dinheiro de volta. O exame médico foi um anticlímax e me sinto desestimulada. Mas agora é tarde para desistir, a recepcionista já está com meus três cheques pré em seu poder.

Vou trocar de roupa. Há uma estranha placa no banheiro feminino. “Diante dos desagradáveis acontecimentos que aconteceram no vestiário, favor não deixar bolsas aqui”. Porque há um mão-leve que rouba os pertences das moças. Gosto do paradoxo, um ladrão surrupiando sutiãs dentro do banheiro da polícia civil. Dizem que no vestiário masculino não há este tipo de furto. No vestiário masculino os homens andam em trajes mínimos e mesmo assim não se separam de seus trabucos. É uma cena que não faço questão de ver: policiais malhados e suados com revólveres. Diante disso, o furto no banheiro feminino começa a parecer uma boa opção.

Saio carregando minha mochila e minha sacola, antes que meus pertences medíocres sumam. Vou para a aula de hidroginástica. A turma tem senhoras do Bairro de Fátima e fortões com correntinhas de ouro no pescoço. Fazem o estilo “sou policial e detetive, mas tive uma lesão e a fisioterapeuta me obrigou a fazer hidro”. Embora o uso da touquinha patética seja obrigatório, os pretensos policiais não usam o adereço. E ninguém vai obrigá-los. Nem mesmo a professora, uma gordinha que parece que saiu de uma HQ do Robert Crumb e que grita “vamos lá gente, força” no seu microfone Madonna. Ela manda todos darem voltas correndo dentro da piscina, formando uma espécie de redemoinho. E quando o redemoinho está bem forte, ela inverte o sentido da corrida e todos ficam desafiando a correnteza que se formou neste sopão quente que é a piscina. Os policiais lesionados não têm o menor problema em ultrapassar as senhorinhas do Bairro de Fátima. Eu também não, e vou na cola dos detetives. Todos rodam no sopão: os policiais, as velhinhas e eu. Me sinto praticamente a Agente Starling treinando para uma nova missão do FBI.

E começo a me preocupar com meu comportamento bizarro. Logo estarei me alimentando de Donuts. Ou pegando amizade com investigadores do Draco. Alguém precisa me impedir!

Jô Hallack é jornalista e uma das autoras do site www.02neuronio.com.br

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