| |
CADA
VEZ MAIS BRASILEIROS, COMO O ATOR EDUARDO MOSCOVIS,
SE DIPÕEM A DEDICAR PARTE DE SEU TEMPO PARA EXERCER
A CIDADANIA AJUDANDO O PRÓXIMO. SAIBA MAIS SOBRE
O TRABALHO VOLUNTÁRIO NO BRASIL E COMO FAZER
PARA PARTICIPAR DE ALGUMA AÇÃO VOLUNTÁRIA
Por
Márcia
Oliveira :: Foto de Mario
Grisolli
Segundo
pesquisa realizada recentemente em 23 das maiores cidades
do planeta e publicada pela revista American Scientist,
os cariocas são o povo mais cordial do mundo.
O estudo, baseado em 2 mil simulações
nas ruas de cidades como Nova York e Calcutá
(deficientes visuais que precisavam de ajuda para atravessar
a rua, por exemplo), foi conduzido durante seis anos
pelo professor Robert Levine, da Universidade da Califórnia.
Mas a disposição de ajudar, inerente à
população do Rio de Janeiro, vai muito
além destas conclusões.
Até
o início da década de 90, tínhamos
no Brasil, de um lado, uma população de
miseráveis vivendo à margem, lutando a
cada dia pela sobrevivência e, de outro, pessoas
solidárias que procuravam ajudar fazendo doações
para obras de caridade ligadas a igrejas ou clubes.
Ou seja, faltava fazer a ponte entre os necessitados
e aqueles dispostos a contribuir para minorar seu sofrimento
e resgatar sua dignidade.
O
surgimento de organizações que arregimentam
pessoas dispostas a colaborar de forma mais ativa e
constante preencheu essa lacuna. Hoje, não é
preciso estar ligado a uma determinada religião
ou grupo social para participar ativamente, seja através
do compromisso com uma instituição ou
por meio de doações. A caridade esporádica
nem por isso menos válida deu lugar
ao engajamento e à conscientização
dos cidadãos como agentes de transformação.
Firmou-se entre nós o conceito de voluntariado.
O
sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que faleceu
em 1997, foi um dos grandes responsáveis por
essa mudança, revolucionando o sentido da palavra
cidadania. Em artigo publicado no Jornal do Brasil em
setembro de 1993, ele dizia: Se a exclusão
produziu a miséria, a solidariedade destruirá
a produção da miséria e produzirá
a cidadania plena, geral e irrestrita. Betinho
conseguiu mobilizar todo o País, afirmando que
o cidadão comum tem um papel social a desempenhar.
Ainda
em 1993, Betinho coordenou o Movimento Nacional Ação
da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela
Vida, mais conhecido como Campanha contra a Fome, que
em dois anos estabeleceu 5 mil comitês por todo
o país e distribuiu toneladas de alimentos para
a população carente. Foi também
em 1993 que surgiu o Viva Rio, organização
não-governamental que, por intermédio
de projetos e campanhas (como Brasil Sem Armas e Natal
Sem Fome), incentiva indivíduos e empresas a
construir uma sociedade mais justa, e que tinha Betinho
em seu conselho diretor. O Viva Rio teve seu mérito
reconhecido através do recebimento de prêmios,
como o da Unesco e o Prêmio Herói Urbano,
concedido pela Fundação Príncipe
Clauss, da Holanda.
Betinho
mudou corações e mentes. Antes existia
apenas a cultura filantrópica, assistencialista;
ele mostrou que podemos mudar o País, afirma
a pediatra Vera Cordeiro (conversando com uma criança,
na foto da página anterior), idealizadora da
Associação Saúde Criança
Renascer, criada em 1991 por um grupo de médicos
que trabalhavam no Hospital da Lagoa. Concorrendo com
outras 400 ONGs, a Renascer recebeu no Cairo, em 2003,
o prêmio máximo do Global Development Network
pelo projeto mais inovador em assistência, considerado
o Oscar das instituições não-governamentais
de ordem social. Célula-mater da Rede Saúde
Criança, a ONG já atendeu a cerca de 20
mil pessoas, e atualmente conta com 14 instituições,
sendo onze delas no Rio de Janeiro.
A
grande revolução mundial das últimas
três décadas não foi a globalização,
mas as milhares de instituições criadas
no mundo inteiro que representam a voz do cidadão
comum. As pessoas perceberam que têm o poder de
transformar e que, ao interferirem de forma profunda
na vida de outras pessoas, transformam a própria
vida. Muitas me dizem, Eu renasci com a Renascer.
Não se muda um país da noite para o dia,
mas fazendo trabalhos pequenos, passo a passo, ao longo
do tempo os cidadãos farão a diferença,
afirma Vera Cordeiro.

O
ator Eduardo Moscovis é voluntário da
Renascer e recentemente doou a bilheteria da pré-estréia
de uma peça para a instituição.
Ele comparece periodicamente à pediatria do Hospital
da Lagoa, onde a instituição possui uma
sala de recreação para as crianças
internadas. Além de brincar com elas, visita
os quartos daquelas que não têm condições
de se deslocar e participa das quatro festas realizadas
pela ONG durante o ano no hospital. Eu costumava
visitar a Obra do Berço todos os sábados,
junto com um grupo coordenado por um padre do colégio
onde estudava. Na adolescência, eu me desvinculei
e fiquei sentindo uma lacuna. Queria voltar a participar
mais ativamente.
Foi
a paternidade que despertou no ator o desejo concreto
de participar de atividades com crianças. Existe
um contraste muito grande entre a nossa estrutura e
a realidade de uma parcela esmagadora da população.
Já trouxe uma de minhas filhas aqui. Acho importante
que ela saiba que existem hospitais e famílias
carentes, e que podemos fazer alguma coisa, estar junto
delas, trocar, dar carinho e assistência. O simples
fato de demonstrarmos interesse é muito importante
para essas pessoas. Ao falar de sua experiência
pessoal, acaba dando uma dica importante para quem pretende
se engajar como voluntário. O hospital
e a sede da Renascer, no Parque Lage, ficam perto da
minha casa; o acesso é rápido. Não
adianta ter a intenção de ajudar e ir
apenas uma vez por não conseguir manter a freqüência.
Sempre que venho aqui saio feliz por ter ajudado,
diz.
E
a ajuda vai além disso. É que a divulgação
de campanhas por artistas chama a atenção
e ajuda a afastar a desconfiança em relação
à utilização de recursos obtidos
através de doações. Vânia
Ribeiro, voluntária responsável pela recreação
no Hospital da Lagoa e pelos eventos da Renascer, conta
sempre com a participação de artistas,
entre eles Guilherme Leme, Camila Pitanga, Fernanda
Torres, Gisele Tigre, Helder Agostini, Giuseppe Oristanio
e Kid Abelha. A presença de pessoas famosas
e queridas pelo público desperta o interesse
pelo voluntariado e confere credibilidade, informa
Vânia.

Faz
bem para a saúde e para o currículo
O trabalho voluntário pode trazer mais benefícios
do que se imagina. No livro The Healing Power of Doing
Good (O poder curativo de fazer o bem), o norte-americano
Allan Luks, que foi diretor executivo do Institute for
the Advancement of Health, examina a relação
entre altruísmo e saúde, e conclui que
pessoas que ajudam o próximo têm uma saúde
comparativamente melhor que a de outras da mesma idade.
O estudo baseou-se na observação de 3
mil voluntários em todo o país e constatou
que os benefícios físicos e psicológicos
como redução dos sintomas de estresse
e depressão, e uma visão mais positiva
da vida , são imediatos e de longa duração.
Oito em cada dez pessoas entrevistadas por Allan Luks
afirmaram que os benefícios para a saúde
retornavam quando se lembravam da ação
feita em anos anteriores.
As
conclusões de Luks são confirmadas por
um estudo da Universidade de Michigan conduzido pelo
dr. James House, que observou que o trabalho voluntário
realizado com regularidade aumenta consideravelmente
a expectativa de vida, mais do que qualquer outra atividade.
Durante dez anos, 2.700 pessoas foram acompanhadas para
que se verificasse o impacto desta atividade na saúde.
A pesquisa mostrou que o trabalho voluntário
aumenta a energia e a auto-estima, fortalece o sistema
imunológico e faz bem no sentido literal
e no figurado ao coração. Interessante
foi a constatação de que o efeito é
maior nos homens: um aumento de até 2,5 vezes
da expectativa de vida para aqueles que atuam como voluntários
pelo menos uma vez por semana.
Atualmente,
o fato de constar no currículo do candidato a
uma vaga de emprego a atuação como voluntário
conta pontos a seu favor. É que o trabalho voluntário
é tido cada vez mais como indicativo de responsabilidade,
iniciativa e liderança, e de um profissional
com facilidade de trabalhar em equipe.

O
trabalho voluntário é uma via de mão
dupla. Transforma tanto a vida da pessoa que está
sendo beneficiada, quanto a daquela que está
dispondo de um pouco do seu tempo e talento em prol
do outro, declara Heloísa Coelho, diretora
executiva do portal Rio Voluntário. O voluntário,
no início, pensa que só irá doar,
mas recebe em troca muito amor, carinho e uma imensa
gratidão daquelas pessoas cujos corações
são tocados com sua solidariedade. E essa troca
faz um bem enorme à alma!, diz. Anualmente,
entregamos o Troféu Beija-Flor a dez voluntários
e no discurso de agradecimento eles sempre dizem, muito
emocionados, que já receberam sua maior recompensa,
que é toda a alegria e o prazer que o trabalho
voluntário traz para as suas vidas, completa
Heloísa.

Brasileiros
participam de moviemntos solidários: o trabalho
voluntário realizado com regularidade aumenta
consideravelmente a expectiva de vida.
Os
depoimentos de voluntários confirmam esse contentamento.
Jacira da Silva Lino é professora do ensino fundamental
e há anos atua como voluntária. Sempre
ajudei esporadicamente, mas sentia-me alienada, sentia
um vazio. Comecei a ajudar de forma mais estruturada
quando vi o anúncio de uma universidade convocando
voluntários, e então por cerca de cinco
anos alfabetizei adultos. Em 2001, Ano Internacional
do Voluntário, fui a um evento com várias
ONGs na Lagoa e me cadastrei no Rio Voluntário.
Eles me contactaram, passei por uma capacitação
que durou três horas e hoje dedico meus sábados
a duas instituições vinculadas ao Projeto
Brasileirinho, de educação infantil.
Jacira gostaria de ter ainda mais disponibilidade. Queria
ter mais tempo para ajudar, pois a satisfação
é plena. Recebo o reconhecimento das pessoas
envolvidas, não em termos profissionais ou de
um salário, mas de algo muito maior: ser reconhecida
pela pessoa que sou. O que me move é poder praticar
a cidadania. Não participo por ser professora,
e sim pela minha identidade, pelo meu título
de eleitor, enfatiza.
Vânia
Ribeiro, voluntária da Renascer, declara: Eu
me sinto muito mais ajudada do que ajudando. Quando
vejo as crianças sorrindo, correndo para mim,
eu me sinto o máximo! Sinto que o que faço
realmente faz diferença.

LEIA
TAMBÉM:
Como
tornar-se um voluntário ou fazer doações

moda
| decoração
| entrevista
| gastronomia
| teatro
ensaio
pela gávea | shopping
| lan | artigos
| a revista | contato
| imprimir
| topo | |