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Jô Hallack (Texto
e Ilustração)
A
população mundial contra os corações
partidos
Um
dia você acorda e pronto: está no inferno.
Você já tinha estado lá antes, aquele
lugar depressivo aberto sempre até o último
cliente. Demora para dormir, acorda sem motivo às
quatro da manhã. Ri de piadas estúpidas
do pessoal do escritório. Só para disfarçar
- principalmente de você mesma - o seu coração
partido. Um único alento: desgosto emagrece.
É
verdade, menina, você está na lama. Ouvindo
suas melhores canções depressivas. Chorando
pelos cantos, se sentindo uma coitada, uma ninguém,
arrastando as meias pela sala. Até que a humanidade
chega para atrapalhar.
A
população mundial é uma estranho
povo que gosta de Ne me quites pas e que
tem a biografia da Billie Holliday no original em inglês.
Chora quando vai ao cinema ver filmes românticos
baseados em fatos reais. Leu Mariana Alcoforado e sabe
cantarolar um samba triste. Mas não pode ver
ninguém sofrendo por amor. Assim já é
demais!
Numa
espécie de loop, você começará
a ouvir que vai passar, vai passar.
Que
você ainda vai rir disso tudo.
Que
ele não te merece.
Que
foi melhor assim pois vocês eram muito diferentes
E
que você é uma mulher linda, poderosa,
tem um bando de gente dando em cima de você, onde
é que já se viu ficar se lamuriando pelos
cantos?!
Que
o bom é sair para espairecer. Que a população
mundial já sofreu e a população
mundial sabe como é: um dia passa.
Tem
uma outra péssima, algo do tipo depois
da pior tempestade é que a terra se aduba.
O que é isso? Bula de remédio para o solo?
Em
quesito corações partidos, a humanidade
dá as mãos e todos cantam levanta
sacode a poeira e dá volta por cima. E
você lá, desidratada depois de tantas lágrimas.
Sugerem que você vá ao baile da Orquestra
Imperial fantasiada de coelha. Essa gente é esquisita!
Dizem que é melhor você deixar para lá
seus discos de amor, você deve ouvir algo para
cima, uma mixtape daquele DJ ultracool de Berlim. A
população mundial faz perguntas estranhas:
Quantas milhas você tem acumuladas?
Afinal seria ótimo ir para a Mongólia
refletir.
Desde
que o bolero caiu de moda, o sofrimento por amor também
datou. Porque a vida prossegue e você tem que
reagir. Porque não há tempo para choro
nem vela. Porque a paixão é uma mera reação
(química e estúpida) no seu cérebro,
passou isso num documentário na TV a cabo. Vendo
seu estado lastimável, a população
mundial se desespera. E te reprime: O quê!?!!!
Enlouqueceu? Você quer fazer macumba?.
De
vez em quando você esbarra numa boa alma que diz
que tudo vai se resolver. Mas logo a boa alma escorrega
e emenda: De um jeito ou de outro. Enquanto
você se descabela, o mundo só quer saber
de sensatez.
E
você passa a escrever cartas de amor às
escondidas. Imagina ser flagrada pela população
mundial pedindo para alguém voltar para você
porque, pelo amor de deus, você está morrendo?
É
por isso que eu digo: vai passar o cacete.
E
tire o seu bloco da rua que eu quero passar com a minha
dor.
Jô
Hallack é jornalista e uma das autoras do site www.02neuronio.com.br 
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