Gávea
 
moda
entrevista
gastronomia
teatro
ensaio
pela gavea
shopping
lan
artigos
a revista
contato
contato

 

 

 

 

 

 

FEIRA DE ANTIGUIDADES DA GÁVEA SE REVELA COMO UM MUSEU AO AR LIVRE

Por Bianca Jhordão :: Fotos de Celso Pereira

 

 

Um domingo ensolarado, enquanto muitos iam à praia, meu encontro era com a Feira de Antiguidades da Gávea, na Praça Santos Dumont. Há sete anos, o evento vem reunindo colecionadores e curiosos que apreciam o valor e a beleza de peças antigas.

Logo que cheguei, notei um turista perguntando sobre relógios antigos e negociando preços. Com um olhar clínico, ele observava várias peças num estande de imagem e som. Resolvi me aproximar. O colecionador dinamarquês Torbjórn Lund Petersen está no Rio há dois meses, e durante os fins de semana percorre o circuito das feiras de antiguidades: aos sábados, na Praça XV (há 25 anos, em frente ao Museu Histórico Nacional), e aos domingos, na Gávea. “Hoje comprei algumas peças e outras estou negociando. Acho que no Brasil as antiguidades são mais caras do que na Europa, ou então eles estão me cobrando mais caro”, afirmou, entre risos, garantindo que já reconhece os freqüentadores de ambas as feiras.

A Feira de Antiguidades da Gávea começou em dezembro de 1997 e é coordenada pela Associação Brasileira de Antiquários (ABA), com o apoio da AMAGávea. A ABA, inaugurada em 1970, tem por finalidade incentivar o comércio de objetos antigos e apoiar colecionadores, estudiosos e pesquisadores de arte, segundo informações do site oficial www.associacaodeantiquarios.com.br. Continuando minha visita, observei um simpático grupo conversando num dos estandes. Eram o presidente da ABA, Antônio G. Ribeiro da Costa, o diretor cultural João Carlos Goldberg e mais dois expositores da feira. Ali mesmo, puxei um banquinho e assisti a uma aula sobre antiguidades e experiências de vida.

O arqueólogo e ex-diretor do Parque Lage, João Carlos Goldberg, é um dos freqüentadores, incentivadores e compradores mais assíduos da feira. “Minha vida sempre foi ligada a atividades culturais. Eu considero este evento como um museu ao ar livre, onde as pessoas podem vir para observar, conversar com os expositores e ter uma série de aulas gratuitas. Ao mesmo tempo, ela incentiva a preservação da história através de cada um desses objetos, que tem a sua própria história para contar”.

Os colecionadores e pesquisadores de objetos antigos são chamados de antiquários. O papel cultural deste grupo é preservar e difundir o bem cultural no mundo. Ou seja, resgatar tudo que poderia se perder com o passar do tempo. Não se trata apenas de comércio, os antiquários são verdadeiros garimpeiros do material que futuramente vai para as salas dos museus. Antes de vender para leigos, eles dão preferência aos colecionadores de confiança, que, por profissão, sabem como cuidar da peça. Mas, por trás de toda essa seleção de objetos, existe um intenso trabalho de pesquisa. Os antiquários são estudiosos que se preocupam em buscar origens e respostas para criar bibliotecas especializadas.

A feira da Gávea faz seu próprio controle em relação ao expositor, já que muitas vezes é difícil confirmar detalhes sobre a origem das peças. A base de toda compra e venda é a confiança no expositor, e, deste, no fornecedor. “Eu digo para os meus clientes que o antiquário é igual a um médico, se você não confiar, compra gato por lebre. Sempre procure pessoas idôneas para negociar. Arte é um investimento; comprando boas peças, você jamais perderá dinheiro”, disse o ex-industrial e especialista em pratas portuguesas, João Donato, dono de um dos estandes mais bonitos da feira.

A maior preocupação da ABA é que o cliente não seja enganado. Se a peça estiver restaurada, se for uma réplica ou tiver qualquer outro problema, o comprador deve ser informado. “Torço muito para que os expositores sejam os mais sinceros possíveis. Estou aqui todo domingo e procuro sempre fiscalizar os estandes”, avisou o presidente da ABA, Antônio G. Ribeiro da Costa. Ele contou que naquele domingo teve um problema com um de seus expositores, que teria vendido uma réplica como se fosse peça autêntica. Antônio interveio no caso e fez o expositor desfazer a venda. O presidente da feira acredita que o sucesso do evento se deve à credibilidade adquirida com estas atitudes. “Há um certo controle, sim. As pessoas podem confiar quanto à segurança da origem da peça. Por isso existe a necessidade de todos os expositores serem credenciados junto à Associação. Ninguém está livre de ter problemas, mas desta maneira facilita-se o trabalho”, completou ele.

Os candidatos a expositores têm que se cadastrar na ABA ou na Prefeitura para obter uma licença. Todos os estandes estão identificados com uma bandeira da Associação. Na feira da Gávea, os 80 espaços reservados para exposição estão completos, e mais de dez nomes aguardam sua vez na fila de espera.

A feira também não é exclusivamente de antiguidades, vários estandes trabalham com produção de cinema, TV e teatro. Esse é o caso da expositora e colecionadora Jane Pimentel, vice-presidente da ABA. Com um acervo que conta com três mil chapéus e 600 bolsinhas de vinil da antiga fábrica Copacabana (anos 60), Jane está empolgada com o projeto de montar o primeiro museu da moda no Rio de Janeiro. “Atualmente, quase todas as roupas da minissérie ‘Um Só Coração’ e da novela ‘Chocolate com Pimenta’, são nossas. Nós lavamos, recuperamos e deixamos tudo em ótimo estado, por isso a procura dos produtores”. Ela lembra que durante a novela “O Clone”, todas as peças do brechó da Ivete, personagem de Vera Fisher, eram de seu acervo.

Histórias de Amor
A feira também tem suas histórias de amor. João Goldberg conta que, certa vez, comprou uma peça africana que estava sendo observada há meses por um arquiteto. Após a compra, foi almoçar num dos restaurantes do Baixo Gávea, quando esse arquiteto veio a seu encontro e contou uma história tão fantástica que convenceu João a lhe revender o objeto. “Você precisa entender a paixão do outro. Por mais apaixonado que eu estivesse pela peça, ele estava mais! Essa relação humana é muito interessante”. Este envolvimento intenso ultrapassa a prática do consumo. Trata-se da sensação de possuir um fragmento histórico. A emoção do antiquário está em desvendá-lo, conhecê-lo nos seus mínimos detalhes. “Acho que daqui a algum tempo vai ser difícil analisar a evolução. Os objetos estão muito descartáveis”, disse Antônio demonstrando sua preocupação.

Para preservar os objetos, a ABA organiza junto com o IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ) uma série de cursos sobre restauração e formação cultural. A idéia destes projetos didáticos é abranger as mais diferentes áreas do chamado Antiquariato. Para se afiliar à ABA, é necessário que o candidato prove ser um conhecedor de antiguidades, já que a profissão de antiquário não é regulamentada. Uma vez membro, recebe-se permissão para expor nas feiras da Praça XV e da Gávea.

Todo Cuidado é Pouco
Jovens estão, cada vez mais, freqüentando a Feira de Antiguidades atrás de objetos diferenciados para a decoração de seu primeiro apartamento. Peças personalizadas e baratas que dão um charme todo especial. A arquiteta Zelda Goldenstein concorda que peças antigas valorizam o espaço e alerta para o cuidado que se deve ter com elas no dia-a-dia. “Nós vivemos na maior correria: filhos, marido, amigos, faxineira, ou seja, por serem peças delicadas, as antiguidades merecem um lugar protegido para não haver acidentes”.


Máquina fotográfica francesa da marca Koilos

A arquiteta fala com conhecimento de causa. “Lembro que ganhei de presente um lindíssimo Murano e o deixava no centro da mesa da sala. Quando a faxineira veio, sem querer colocou a peça na janela e com uma ventania ela se foi, uma pena”. Colecionadora de caixinhas antigas, Zelda acredita que as pessoas devem adaptar a sua decoração de acordo com as antiguidades que têm. “Isso dá personalidade ao ambiente. É um contraste que funciona, fica harmonioso e elegante. Outra vantagem é que esses objetos sempre atraem a curiosidade das pessoas, que gostam de saber de suas histórias” .

A Praça Santos Dummont aos domingos se transforma em um centro cultural, dando chance à população do Rio de Janeiro de ter contato com bens culturais – sem aquele clima de “é proibido tocar”. Se você quer voltar ao passado por algumas horas, reserve um tempo no próximo domingo para visitar a Feira de Antiguidades da Gávea.

moda | comportamento | beleza| gastronomia
teatro | ensaio | pela gávea | shopping | lan
artigos | a revista | contato | anunciantes
imprimir | topo

 

 

 

"DOCE PARA
OS OLHOS"

No Shopping da Gávea, os antiquários Joachim Mitnitzky e Sartum, ambos no segundo piso, existem há quase vinte anos. Nestas lojas se mantém verdadeiros oásis para os colecionadores e apreciadores de antiguidades, não só do Rio e do Brasil, como também do exterior.

A Sartun, de Leila Colocci, é especializada em pratas portuguesas, Imari, porcelanas e tem um grande acervo de Bacará. Sua mascote é um cavalo de madeira chinês que tornou-se símbolo da loja por estar exposto desde a sua abertura. Os clientes se deliciam com o acervo. Certa vez, um deles comentou que a loja era um “doce para os olhos”.

O antiquário Joachim Mitnitzky já foi decorador do Rei de Portugal e do Rei da Itália???? quando decidiu abrir sua loja na Gávea. Imagens de santos, mobiliários, lustres, espelhos e cadeiras são o forte da loja. “O brasileiro gosta bastante de santos e, no auge da moda, chegamos a vender cerca de 22 imagens somente num ano”, explica o colecionador e vendedor Paulo Roberto Pedersen. Os santos variam de R$ 40 a R$ 100 mil reais e, até hoje, são as peças mais vendidas.a