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Para
celebrar o caldeirão de experiências que
é viver no Rio de Janeiro, conversamos com cinco
personalidades de alma carioca, que compartilharam as
delícias e os desafios de retratar a cidade em
trabalhos tão distintos e fascinantes
Por
Gabriela
Varanda
Do
balcão do tradicional bar Cervantes, em Copacabana,
nada escapa ao olhar certeiro de Fausto Fawcett. Musa
maior de suas criações, a princesinha
do mar é companheira de chope e de muitas histórias,
que passam apressadas nos quarteirões do bairro.
Cresci por aqui, a fauna humana sempre foi minha
vizinha. Copacabana é um posto de observação
privilegiado, uma espécie de gueto da Zona Sul,
capital do Rio de Janeiro, resumo do Brasil. Se a Bahia
deu régua e compasso a Gilberto Gil, costumo
dizer que Copacabana me forneceu a papelaria toda,
explica, aos risos.
Por
sinal, bom humor sobra à obra de Fausto. As mazelas
da cidade, aquelas que todo carioca gostaria de ver
pelas costas, são transformadas, surpreendentemente,
em linda poesia. A escopeta de sainha plissada e a sub-uzi
equipadinha com cartucho musical de batucada digital,
do hino-canção Rio 40 Graus,
nunca foram tão atuais. Fausto dá uma
gargalhada: Sou um pessimista festivo. Não
vejo o mundo como um local só de gente boazinha.
Todo lugar tem seu dark side of the moon, e isto precisa
ser dito. O grotesco também está aí
para ser percebido, falado. Mas os pesadelos, os conflitos,
a baderna costumam ser colocados meio de lado.

Cena
de "Como ser solteiro" de Rosane Swartman:
Rio se impõem como cenário absoluto
Se
auto-intitulando um flanelinha existencial (uma referência
bem-humorada ao termo flâneur, imortalizado
pelo poeta francês Charles Baudelaire), é
fácil ver Fausto caminhando pelas ruas de Copacabana,
em busca de definições para o dia-a-dia.
As frases do poeta são um punhado de achados.
Todas exatas, cruas e no alvo. Meu processo de
observação é quase científico,
experimento o cotidiano, comenta. Repórter
permanentemente a serviço do Rio, Fausto escreve
as linhas mais atuais sobre a cidade.
Mas
se é a efervescência do asfalto que move
Fawcett, é a nostalgia de um Rio sem edifícios
e de natureza plena e exuberante que inspira a artista
plástica Analu Prestes. Em pequenas telas, que
simulam antigos cartões-postais da cidade, com
direito a carimbo do correio e tudo, mas com pinceladas
generosas de cor, Analu resgata o famoso contorno de
mar e montanhas, sem a interferência dos prédios
espetados na paisagem. Eu gosto mesmo é
da imagem solar e colorida da cidade, uma abordagem
pop do Rio, explica a paulista, que mora há
32 anos na cidade.

O
jornalista Arthur Dapieve: "Não há
falta de assunto numa cidade como o Rio de Janeiro.
Nem mesmo em dias chuvosos"
Aficionada
por recortes e colagens, Analu não abre mão
de interferir nas imagens, numa espécie de transgressão
visual. Até mesmo na série sobre o Rio,
ela não pensa duas vezes quando cisma de colocar
mais água onde originalmente não há,
engordando os trechos de azul da paisagem. Sempre com
um bloco de papel ou máquina fotográfica
na mão, Analu registra os melhores ângulos
da cidade, em caminhadas pela Lagoa Rodrigo de Freitas
ou por passeios na orla e em Santa Teresa, onde fica
seu ateliê. O Rio é fascinante para
qualquer um que trabalha com imagem. São paisagens
incríveis que invadem o seu olhar, da janela
de casa, do carro ou num despretensioso passeio a pé,
completa.
Imagem
também é tudo no trabalho da roteirista
e diretora de cinema Rosane Svartman. Acostumada a transformar
os cantos da cidade em cenário para seus filmes,
Rosane cria cariocas inatos, personagens com falas carregadas
de chiado. É mais fácil situar uma
história num lugar que você conhece bem,
que lhe é familiar. Sei o que dizer de uma pessoa
que mora no Rio. Tudo o que você escreve acaba
sendo, de alguma maneira, autobiográfico. Há
muito do que presencio em meus personagens, explica.

Um
dos trabalhos da artista plástica Analu Prestes:
nostalgia de um Rio sem edifícios e de natureza
plena e exuberante
Durante
as filmagens do seu bem-sucedido longa, Como ser
solteiro, Rosane optou por transformar seu apartamento
na Gávea em locação. Tenho
uma relação afetiva com vários
pontos da cidade, tudo é referência para
mim, conta. O Posto 9, disputado trecho da Praia
de Ipanema, onde a cineasta já jogou muito papo
fora com amigos, é o tipo de lugar que não
escapa à lente da diretora. Tenho um amigo
paulista que disse que o Rio de Janeiro não é
local para estúdios, mas sim uma cidade-locação.
Não tem jeito, a cidade acaba se impondo como
cenário absoluto, diverte-se.
Interessado
na iconografia clássica do Rio, o fotógrafo
César Barreto também se rendeu aos encantos
cariocas. Inspirado pelo trabalho de Marc Ferrez, que
registrou com maestria o Rio de Janeiro do século
XIX, César optou por clicar a cidade com câmeras
de madeira, de grande formato, e panorâmicas com
negativos 6x17cm, assim como os pioneiros fotógrafos
que eternizaram a memória do Rio Antigo. Tenho
plena convicção de que a fotografia alcançou
seu ápice técnico há muitas décadas.
Temos hoje uma fotografia mais rápida e barata,
melhor nunca, opina.

Inspirado
pelo trabalho pioneiro de Marc Ferrez, o fotógrafo
César Barreto retrata o Rio utilizando câmeras
antigas e grandes formatos
Com
este olhar saudosista, César enquadra o perfil
mais fotogênico do balneário, como nos
velhos tempos. Conheço bem os caminhos
do Rio e de suas encostas. Fujo um pouco do asfalto
e procuro mostrar o lado urbano da cidade inserido dentro
da paisagem natural, o que é para mim a nossa
característica mais marcante, diz ele.
O resultado é de uma textura rara, sempre registrada
em preto e branco. Normalmente, minhas fotos nascem
sem câmera, de inspirações transitórias
de quem anda e se encanta com novos ângulos e
perspectivas, completa.
Inspiração
permanente é o que todo cronista deseja diante
da folha branca, na tela do computador. O jornalista
Arthur Dapieve, que há 11 anos assina uma coluna
para o jornal O Globo, fez do Rio seu aliado. Acostumado
a exercitar sua verve de repórter, observando
atentamente cada passo em falso do cotidiano, viu o
dia-a-dia invadir espontaneamente seu pedaço
de página. A cidade surge como assunto
inevitável para quem assina uma coluna. Principalmente
para um jornalista, que está sempre atento ao
que acontece ao seu redor, enfatiza. Entre resenhas
musicais apaixonadas e odes à estrela solitária
do Botafogo, seu time de coração, Dapieve
dedica extensas linhas ao Rio.

Fausto
Fawcett: "Se a Bahia deu régua e compasso
a Gilberto Gil, costumo dizer que Copacabana me forneceu
a papelaria toda"
A
propósito, a cidade sempre reuniu um time de
peso das letras. Machado de Assis, João do Rio,
Rubem Braga, entre outros craques, fizeram nome nas
gazetas do Rio, transformando a crônica num gênero
literário tipicamente carioca. Naturalmente
uma herança da época em que éramos
a capital política e cultural do Brasil,
opina Dapieve. Porto seguro para toda sorte de aventureiros
ao longo dos séculos, ainda hoje ponta-de-lança
cultural do país, bonita e cosmopolita por natureza,
não há falta de assunto numa cidade como
o Rio de Janeiro. Nem mesmo em dias chuvosos,
diverte-se o jornalista. Confirmando sua vocação
de exibida, a Cidade Maravilhosa nunca perde a pose.

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