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CARROS
ANTIGOS CONQUISTAM CADA VEZ MAIS ADEPTOS NO RIO, QUE
NÃO MEDEM ESFORÇOS PARA TER O SEU "CARANGO"
ORIGINAL DE FÁBRICA
Por
Henrique Koifman
::
Fotos
Celso Pereira
Poucas
coisas simbolizam tão bem e tão completamente
o século XX quanto o automóvel. Emblema
vistoso da industrialização, da produção
em série e da evolução mecânica,
ele é também um objeto de desejo comum
a quase toda a civilização (fora da área
de influência desse desejo, estariam apenas grupos
isolados ou, como diz aquela velha canção
nordestina, lugares sem rádio e sem notícia
das terras civilizadas). Por outro lado, poucas
coisas se tornaram e se tornam tão
rapidamente obsoletas no mercado quanto os modelos de
automóveis. Desde os anos 1950, nesse segmento,
o status da novidade não dura mais que uns meses
e o da atualidade, uns três anos. Assim, o que
era o máximo do arrojo, um bólido de linhas
sensuais e tecnologia de ponta há cinco anos,
hoje não passa de um carro qualquer e, daqui
a mais alguns poucos anos, será classificado
como velho e terá como destino, nesta
ordem, alguns motoristas de baixa renda; os maus tratos
mecânicos e o ferro-velho.
Esta
história está bem melancólica,
não é, leitor? Como Gávea não
é revista para reflexões depressivas,
o que nos leva a falar de carros antigos aqui é
um pequeno mas charmoso desvio no destino das máquinas
descartáveis de quatro rodas. Desvio que só
se apresenta para poucas delas, justamente as mais interessantes.
São os chamados modelos clássicos,
que por suas características acabam colocando
toda aquela conversa sobre linhas atualizadas e tecnologia
na devida pasta da chatice e alcançando um tipo
de status totalmente diferenciado. Principalmente depois
que a maior parte de sua safra já
foi devidamente reciclada. Assim, sem perder a pose
depois de mais de 30 anos de asfalto, um pequeno conversível
pode chamar muito mais atenção que em
seus tempos de linha.

Mercury
1947
Esse
é o caso, por exemplo, do Karmann-Ghia 1970 da
cantora Danni Carlos. Fã confessa de antiguidades,
Danni ganhou o carrinho de presente há alguns
anos e não o troca por nenhum outro. Mais que
isso, tempos depois, comprou outro veterano. Gosto
de tudo o que é antigo, móveis, roupas,
etc., diz a cantora. Tenho também
uma Alfa Spider 1974 e, se puder, quero comprar um Fusca
conversível, original de fábrica,
sonha ela. A expressão original de fábrica,
aliás, é definidora do valor desses carangos.
O Karmann-Ghia de Danni, por exemplo, é um dos
poucos da série numerada de conversíveis
fabricados pela Volkswagen no Brasil e, por isso mesmo,
raro e valorizado.

Estevão
Ciavatta
Para
manter essa fidelidade às características
originais dos modelos, os aficionados não medem
esforços ou despesas. Muitas vezes, compram um
carro que, ao longo dos anos, sofreu modificações
e investem tempo e dinheiro para recolocá-lo
nos mesmos padrões que tinha quando era novo.
Uma operação que exige também muita
paciência e dedicação já
que as peças para essas máquinas são
difíceis de obter. Um mecânico caprichoso
e igualmente paciente, para tanto, é também
fundamental. Meus carros acabam passando um tempo
grande na oficina, confessa Danni Carlos. Ela
diz, no entanto, que tudo isso vale a pena pelo prazer
de ter e dirigir os modelinhos. Além disso,
não são carros caros, que despertem a
atenção de ladrões, completa.

La
Sale 1939
Essa
vantagem tranqüilizadora nesses nossos bicudos
tempos é uma das coisas que atraíram
o diretor e fotógrafo de cinema Estevão
Ciavatta para o volante de seu charmoso Gordini 1965
carrinho fabricado no Brasil na década
de 1960. Encontrei o carro em Itaguaí,
no interior do Estado do Rio, relembra. Estava
todo engatilhado, o tanque de gasolina era uma garrafa
de desinfetante de dois litros. Agora, depois de dois
anos de trato, ele está quase perfeito,
orgulha-se. Estevão reconstruiu o carrinho aos
poucos com a ajuda de Nélson Cintra, mecânico
especializado em carros antigos europeus e também
proprietário de um Gordini. O diretor usa sua
raridade diariamente para ir trabalhar e diz que adora
a mudança de ritmo que ele proporciona. Você
dirige com as janelas abertas, conversa com as pessoas
nas ruas, é a maior curtição. Jamais
teria o carro se não fosse para usar, afirma.
Sua única queixa em relação ao
carrinho diz respeito ao conforto: é um pouco
duro e apertado. Deficiências que fazem com que
seu dono sonhe com outra aquisição. Gostaria
de comprar um Cadillac da década de 1950,
revela.

Mercedes
Benz 1967
A
paixão pelos carros antigos gerou até
um termo para designar seus adeptos: são os antigomobilistas.
Reunidos em clubes, eles promovem reuniões periódicas,
trocam informações, peças e participam
de passeios com suas jóias a gasolina. No Rio,
há algumas dessas agremiações.
As duas maiores e mais conhecidas são o Veteran
Car Club (fundado em 1968) e o Clube Carioca de Carros
Antigos. Fazem parte desses grupos, proprietários
de modelos com mais de 30 anos ou simplesmente
admiradores dessas máquinas. Para quem está
pensando em comprar um desses carangos, aliás,
a melhor pedida é passar a freqüentar as
reuniões de um dos clubes além
desses, há outros, dedicados a marcas e modelos
específicos, como o VW Clube, o Clube do Opala
e do MP Lafer (réplica do MG inglês fabricada
no Brasil nos anos 1970/80), entre outros. Uma navegada
na internet, com visita aos sites desses clubes, é
um ótimo começo.

Danni
Carlos: tudo pelo prazer de dirigir carros antigos
Outra
dica para quem quer se iniciar no antigomobilismo sem
gastar muito é optar por um modelo nacional que
tenha sido fabricado por um bom período
como um Opala, um Fusca (ou outros VW), Jeep Willys,
etc. Desse modo, será mais fácil e mais
barato obter peças para deixá-lo e mantê-lo
em forma. Modelos importados geralmente exigem considerável
fôlego financeiro e oferecem maior dificuldade
de restauração e manutenção.
A exceção fica com modelos como os da
linha Mercedes, para os quais há quase todas
as peças que podem ser importadas dos
EUA ou da própria Alemanha. O custo neste caso,
no entanto, não é dos mais convidativos.
No
mais, para curtir o que um modelo clássico desses
tem de melhor, basta mantê-lo brilhando e aproveitar
as tardes ensolaradas cariocas em longos passeios pela
cidade. Sem pressa, sem neuras e com muito charme. Como
nos bons tempos.

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