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Jô Hallack

MINHA LISTA PREFERIDA DE TRAUMAS INFANTIS

Todo mundo tem a sua. Geralmente, não são traumas reais que transformaram a pessoa em algo terrível como um serial killer ou um jornalista. São apenas singelos momentos de sua infância em que ela sofreu horrivelmente. Por uma fofura. Como por exemplo, nas Olimpíadas Infantis do Pré-Primário. Minha conguinha saiu do meu pé no meio do salto em distância. Não é fofo? Mas na época foi apavorante e minha memória deste dia é de toda a turma rindo de mim, em câmera lenta. Ainda não falei sobre isso na análise...

Minha Susi (sou de uma época que só as pequenas milionárias ganhavam Barbies!) não tinha o namorado Beto. E como não tive irmãos, ela ficou encalhada, pois não podia sair com o Falcon. Então, ela começou a namorar o Feijãozinho, que era do tamanho dela. Com o pequeno detalhe: o Feijãozinho era um bebê que usava um gorrinho! Eu e minha irmã tínhamos umas brincadeiras de boneca um pouco estranhas. Em vez de cuidarem das casas, nossas Susis passavam a brincadeira toda fugindo de uma perseguição religiosa, que incluía seqüestros de Fofoletes. E numa dessas, a minha Fofolete foi congelada como o Han Solo, num prato fundo cheio de água posto no congelador. Quando foi descongelada, ela nunca mais voltou a ser a mesma e ficou meio deficiente, com o corpo molenguinho. Coitada!

Não tive patins de bota: afinal, o meu Bandeirantes andava tão bem quanto o outro e logo o de bota não iria mais caber no meu pé. (Esse era o argumento dos meus pais!). Já o patins Bandeirantes ia sendo adaptado à medida que o seu pé crescia. Ou seja, você nunca conseguia se livrar dele! Também não tive casaco de papel, máquina que faz etiqueta com nomes e a Seladora Lorenzetti (que era uma seladora de alimentos para o lar que eu queria muito, só porque o comercial era ótimo!). Em vez disso, tive vários brinquedos educativos como um kit para fazer paninhos de batique, tipo uma criança hippie.

Aprendi o que era colonialismo cultural aos sete anos. A luta da minha mãe contra este mal me trouxe vários problemas. Ela se recusava a comprar camisetas com dizeres em inglês tipo "Let's have fun" e "Be a girl" para mim. Mamãe também organizou um levante contra a injustiça da troca dos papéis de carta. Qualquer mulher sabe muito bem que um papel de carta americano vale quatro brasileiros. Minha mãe achava isso um absurdo e fazia discursos sobre como eu deveria me rebelar e exigir a troca de um por um. Obviamente, eu nunca me rebelei.

Tive que assistir a muitos filmes cabeça na infância. Acho que vi todos os documentários sobre a Guerra dos Canudos já feitos na história do cinema brasileiro. Também fui ver 'Jango' no dia da estréia e 'O Encouraçado Potenkim' quando tinha 12 anos. Resultado prático: eu adoro filmes ruins e o cinema americano como um todo.

Nunca fui à Disney. Em compensação, fui em vários museus do folclore, Amazônia, Caruaru. Mas lá não vendiam moletons do Mickey. Por isso, meu filho será obrigado a ir à Disney assim que tiver idade. Dois meses.

Outra proibição era o mate da praia. Dizia a lenda que era feito da água suja e que os vendedores de mate enchiam seus tonéis em bica de portaria! Os churros também eram vetados, pois eram feitos em condições pouco higiênicas. Por isso, passei anos comendo churros e tomando mate na clandestinidade! Os churros, sem dúvida, eram o mais arriscado já que eu morava perto do colégio e podia ser flagrada a qualquer instante. Ah, e por falar em morar perto do colégio: nunca andei de ônibus escolar. Sofri muito por isso!

Como eu sou do tipo mignon (um jeito cafona de dizer que eu tenho um metro e meio!), sempre fui a primeira da fila e tinha que fazer várias radiografias para ver minha idade óssea. E quando era pré-adolescente, ainda tinha que comprar roupas e sapatos em lojas com nomes denunciadores como Só Criança e Pituca, pois nas outras lojas as roupas ficavam largas. E fiquei com medo de ser barrada em 'Guerra nas Estrelas', pois eu tinha sete anos e a censura era de dez.

Da primeira vez que fui ao McDonald's, passei muito mal. Todo mundo sabe que a inauguração do primeiro McDonald's do Rio de Janeiro - bem ali na Hilário de Gouveia - foi um grande evento na cidade. Mas eu passei dois dias vomitando e fiquei anos sem poder pisar na lanchonete. Até hoje não sei quais foram os efeitos colaterais de ter ficado sem comer no McDonald's todo este tempo!

E nasci no final de agosto, sendo nativa do signo de virgem. Quando as crianças começavam a falar de horóscopo, eu tinha de dizer a frase "Eu sou virgem". E todos riam de mim. Em câmera lenta.

•Crônica publicada no livro Almanaque 02 Neurônio: Guia da Mulher Superior - Editora Record

Jô Hallack é jornalista e uma das autoras do site www.02neuronio.com.br

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