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COM
UM SORRISO PERMANENTE NOS LÁBIOS, E UM JEITO
MENINO DE SER, TIM RESCALA SORVE, COM SABEDORIA, O DOM
NATURAL DE VIVER SUA ARTE
Por
Sandra
Teixeira
Filho
de Amado Rescala, que foi cantor do Teatro Municipal,
e da cantora e organista Maria de Lourdes Rescala e
irmão do cantor José Rescala, Tim que
é compositor, pianista, arranjador, autor teatral
e ator, experimentou a música desde cedo como
algo natural. Como quase todo brasileiro, já
pensou em ser jogador de futebol, mas foi mesmo a paixão
pela música que definiu o seu destino. Irrequieto
e múltiplo em sua vocação, Tim
está sempre atrás de novos desafios. Se
não os encontra, ele tem um jeito todo especial
de inventá-los. A seguir, você vai conhecer
um pouco mais desse grande talento.
Revista
Gávea - Você trabalhou como arranjador
e pianista de música popular e erudita até
1979. A partir desse momento, a sua vida profissional
deu uma guinada e você passa a compor e a dirigir
espetáculos teatrais. De onde vem a sua ligação
com o teatro?
Tim
Rescala - No final de 1980, fui convidado para fazer
a direção musical de uma peça chamada
Happy End musical que ficou conhecido com o pessoal
do Despertar (Miguel Falabella, Maria Padilha, Daniel
Dantas, Zezé Polessa, etc). Esse foi o meu primeiro
contato com teatro. Naquele momento, pensei que o teatro
seria uma solução econômica, mas
logo vi que não era por aí. Embora ganhasse
pouco dinheiro, eu gostei de fazer. Depois dessa experiência,
surgiu o convite para fazer um outro espetáculo
com o Pessoal do Cabaré. Em 1981, fui convidado
para compor pela primeira vez para uma montagem do Peer
Guint. Com uma certa influência do primeiro trabalho
com a obra de Brecht/Weill me encantei por Kurt
Weill como compositor eu, que já trabalhava
em duas vertentes diferentes, a música de concerto
e a música popular, abracei uma outra vertente:
a música incidental para teatro e televisão.
RG
Você tem alguma formação
especial para ser ator? Como você começou
a trabalhar nesta área?
Tim
Rescala Comecei a fazer teatro por acaso.
Nunca tinha pensado em ser ator. Ao trabalhar em teatro,
principalmente com Pedro Cardoso e Felipe Pinheiro (1982)
em Bar Doce Bar, tive que enfrentar novos desafios como,
por exemplo, fazer música com letra, que só
tinha feito para a minha banda de rock. Tive que fazer
músicas engraçadas, que combinassem com
os espetáculos de humor. Aos poucos, fui vencendo
os desafios. No teatro, Felipe e Pedro tinham que trocar
de roupa, portanto, era necessário um número
especial para os intervalos. Então, eles começaram
a me pedir para improvisar, cantar uma música,
dançar. As pessoas achavam engraçado e,
a cada espetáculo, eu comecei a ter uma atitude
mais performática. Tudo foi acontecendo de maneira
intuitiva. Fui levando a experiência com humor
e o teatro para o universo da música de concerto.
Tudo foi sendo agregado.
RG
Como descobriu sua veia cômica?
Tim
Rescala - Descobri este meu lado, de certa forma,
também por acaso. Teve um episódio importante,
em 1978, que foi definitivo. Eu estava fazendo um curso
de música contemporânea, na classe de composição,
e tive que fazer uma apresentação no final.
Acabara de compor uma música para piano que durava
um minuto. Procurei uma pianista para tocar a minha
peça. Na hora do concerto, descobrimos que a
peça anterior a nossa era para piano preparado.
Havia dentro do piano vários objetos (parafusos,
borrachas) que produziam ruídos estranhos. Ela
me disse no desespero: vai falando, explicando a sua
peça para o público, enquanto eu retiro
estes objetos. Eu disse que não tinha nada para
explicar, porque, afinal, a peça só tinha
um minuto. Não teve jeito. Comecei a falar, a
inventar umas coisas sobre a peça. O público
começou a rir, principalmente porque no meio
da minha fala saiam sons esquisitos com a retirada dos
objetos. Quando chegou, finalmente, a hora de tocar
a peça que durou apenas um minuto
o público caiu na gargalhada. Foi um sucesso!

"Quando
não encontro um desafio no trabalho, eu invento
ou complico"
RG
Qual foi o seu primeiro trabalho para crianças?
Tim
Rescala Foi Pianíssimo, escrito em
1992 e encenado em 1993. O espetáculo é
derivado de uma peça para um concerto de três
minutos. Nesse espetáculo, a pianista fala e
contracena com um instrumento. A experiência foi
muito interessante. Eu já costumava trabalhar
no teatro musical com os músicos falando e tocando
ao mesmo tempo, mas queria ir mais fundo nesta idéia.
Percebi que a linguagem que mais se adequava ao que
eu queria fazer era o teatro infantil. Foi então
que escrevi o Pianíssimo. A menina, personagem
principal, tem uma relação muito especial
com o piano. No início, ela não gosta
dele, acha chato, porque a sua professora de música
é muito castradora. Até que ela chuta
o piano e ele reclama. Nasce aí uma amizade.
RG
- Carlos Gomes e Villa-Lobos tinham uma grande preocupação
com a educação musical e se voltaram muito
para isto. É visível também no
seu trabalho o amor pelas crianças (e o respeito
por elas) e toda uma preocupação com a
educação musical. Qual a influência
desses compositores na sua formação?
Tim
Rescala Em termos de composição,
eu tive mais influência do Villa-Lobos do que
do Carlos Gomes. Villa-Lobos me influenciou também
como pessoa, pois ele era uma figura muito singular,
interessante e curiosa. A participação
do Villa-Lobos na educação musical no
Brasil foi fundamental, e seria ótimo se todos
os músicos seguissem o seu exemplo. A criança
que freqüenta concertos numa boa, sem precisar
ser obrigada a ir, ou pelo menos que é levada
uma primeira vez, com certeza, irá uma segunda
vez com menos dificuldades. Hoje as crianças
não têm opção. Elas recebem
uma única via sonora. Um tipo de música
que, na maioria das vezes, é de baixa qualidade.
Portanto, mais do que nunca, a educação
musical é importante.
RG
A educação musical de uma criança
é muito diferente da de um adulto?
Tim
Rescala Diferente do que muitos pensam, acho
que a educação musical de uma criança
não precisa ser mais simples. Ao contrário,
ela está mais disponível e é muito
mais capaz de aprender e de ouvir propostas musicais
mais elaboradas do que o adulto. Até uma determinada
idade, a criança é uma página em
branco e está aberta a tudo. É justamente
nesta fase, nos primeiros anos de vida, que devemos
nos preocupar com os ouvidos infantis.
RG
Alguns dos seus trabalhos são extremamente
didáticos. Você tem uma proposta educacional?
Tim
Rescala Sim. Com a Orquestra dos Sonhos esta
proposta foi mais subliminar, mas com o espetáculo
Brincando de Orquestras o objetivo didático foi
mais elaborado. Já pensei em um projeto educacional
a partir dessa peça. A idéia é
fazer um trabalho dentro do contexto da música
brasileira, citando compositores como Villa-Lobos, Francisco
Mignone e muitos outros. Mostrar como é o paralelo
da música erudita com a música popular.
RG
Qual o espaço ideal para um projeto como
este?
Tim
Rescala - Falta espaço e oportunidade. As
salas de concertos são poucas. Não tem,
regularmente, uma programação acessível
ou gratuita. Os Concertos para a Juventude, que duraram
quatro anos, acabaram sem mais nem menos. O problema
é não ter uma continuidade. O ideal seria,
no caso da Prefeitura, que as escolas fossem regularmente
a um determinado lugar, dependendo da natureza do projeto.
O projeto Brincando com Orquestra, por exemplo, por
incluir uma orquestra completa, não pode ser
levado às escolas. As crianças iriam,
por exemplo, até o Carlos Gomes uma vez por semana
participar do projeto. Nos outros dias, seria o contrário.
Os músicos, em naipes diferentes, trabalhariam
nas próprias escolas, trabalhando especificamente
aquele universo, mas com um monitoramento de professores
de música.
RG
- O que lhe dá mais prazer: escrever, compor,
dirigir ou atuar?
Tim
Rescala Alguma coisa que eu ainda não
fiz, que ofereça um desafio, que me leve a pensar
e a encontrar soluções novas. Quando não
encontro este desafio no trabalho, eu invento ou complico.
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