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Eduardo Souza Lima

O DESBUNDE DE MADAME SATÃ

Agnaldo Timóteo - quem diria? - poderia ter sido a Rainha Diaba. A revelação é feita pelo diretor Antonio Carlos da Fontoura, na versão comentada que acompanha o recém-lançado DVD de seu filme. Entre outras curiosidades, Fontoura conta também que o ator Samuka acreditou que realmente tinha batido as botas quando o seu personagem é morto na história. E não foi porque era um adepto do método Stanislavsky: ele praticamente saiu direto de uma internação por problemas psicológicos para os sets.

Timóteo acreditou que fazer “A Rainha Diaba” (1974) poderia manchar sua reputação de botafoguense e o papel caiu nas mãos de Milton Gonçalves, que o encarou sem medo e acabou ganhando o Candango de melhor ator no Festival de Brasília, entre outros prêmios. A tal Rainha Diaba é uma versão desbundada de Madame Satã: um homossexual que não treme diante de nenhum machão. Como o personagem da vida real, mora num muquifo na Lapa e vive de sua fama de mau. Mas se Satã era um malandro dos velhos tempos, Diaba comanda uma quadrilha de traficantes de maconha - mais anos 70, impossível.

A história: os negócios de Diaba prosperavam até que um de seus comparsas, logo o mais chegado, resolve vender a maldita numa escola. Para evitar que ele vá para o xadrez, outro capanga (Nelson Xavier) do bandidão bola um plano: arrumar um inocente útil (Stepan Nercessian) para enganar a polícia. O plano acaba dando errado e, depois de várias reviravoltas, unhadas, puxões de cabelo e facadas pelas costas, tudo termina num inacreditável banho de sangue. No elenco estão ainda os impagáveis Wilson Grey e Lutero Luiz, além de Odete Lara, Yara Cortes, Haroldo de Oliveira e um jovem Perfeito Fortuna bancando o travesti.

O DVD traz ainda cenas inéditas, trailers, depoimentos etc. Mas “A Rainha Diaba” poderia ter saído sem nenhum extra. Só o fato de ter sido restaurado - pelo CTAv (Centro Técnico Audiovisual da Funarte/Ministério da Cultura) - já seria motivo de sobra para comemorar: o filme é uma pérola do cinema pop brasileiro, dessas que já não se faz mais.

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