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CONHECER O JAPÃO É COMO DESCOBRIR A MÁQUINA DO TEMPO E, NA MESMA VIAGEM, IR UNS DEZ ANOS À FRENTE E VOLTAR OUTROS 100. É SE DEPARAR COM UM LUGAR E UM POVO QUE PARECE, TAMBÉM SIMULTANEAMENTE, SER TOTALMENTE DIFERENTE DA GENTE E TER UMA TREMENDA AFINIDADE CONOSCO

Texto e fotos de Henrique Koifman

É, leitor, como se não bastassem as mais de 25 horas de viagem entre o Rio e Tóquio, o confuso fuso horário e a língua em que a única palavra que coincide com o português é “né” – que quer dizer né (não é?), ué! –, desembarcar na chamada terra do sol nascente é um tremendo desafio às definições. Mas é também uma das melhores coisas que se pode fazer se a idéia for enriquecer a sua “cultura de mundo”, vivenciar novas experiências, conhecer uma riquíssima e distinta cultura e, claro, comer muito bem e muito além do sushi. Sem a pretensão de dar um panorama do Japão nestes poucos parágrafos, imagens e páginas, Gávea o convida a dar um pulinho conosco ali do outro lado do mundo – com a vantagem de não ter de curar o jet-leg depois.

“Moshi-moshi”, grita o rapaz de cabelos verdes e espetados, com piercings no nariz e na sobrancelha, enquanto encosta um minúsculo celular de última geração na orelha direita, desalinhando seu terno italiano e fazendo com que a gravata de seda italiana, negra e sem detalhes, se projete para frente fazendo com que os contornos de sua imagem lembrem os de um dos centenas de incompreensíveis ideogramas que preenchem as páginas do mangá que ele traz dobrado na mão esquerda. Estamos no metrô de Tóquio e nos aproximamos da estação de Akasaka-Mitsuke – como em mais alguns segundos avisará a doce voz gravada pelo autofalante. Região dos hotéis de luxo, de comércio e de escritórios, onde convivem construções pequenas e tradicionais e edifícios pós-modernos, lojas de grife e comércio no estilo da Saara carioca. Contrastes, aliás, dão a tônica em todo o Japão.

Como nosso amiguinho do celular – a propósito, moshi-moshi é equivalente a alô, ao telefone –, há mais uns quatro ou cinco jovens, rapazes e moças, próximos dos 20 anos de idade, produzidos à la punk no carro em que nos encontramos. São 11 da manhã e o movimento já não é tão intenso – às 8h30, ele talvez nem conseguisse ouvir ou se mover o suficiente para levar o aparelhinho ao ouvido, comprimido por seus conterrâneos em uma autêntica lata de sardinhas. Além desses, há mais uns dez homens de ternos impecáveis, quantidade igual de jovens mulheres ultra-elegantes, duas meninas de 14, 15 anos, com vestidos curtos e tranças extravagantes e mais umas 10 pessoas mais velhas, três delas seguramente com mais de 80 anos, uma delas uma senhora, vestida com um quimono de seda azul-turquesa. Todo mundo e mais nós, ocidentais, que certamente chamamos mais atenção que qualquer um deles.

O carro do metrô – do qual já saltamos, a caminho dos jardins e da casa de chá do imperador – é um extrato perfeito da sociedade japonesa urbana. Jovens com cabelos e acessórios exóticos, aparentemente aceitos com normalidade por todos, embora não se veja ninguém com mais de 22, 23 anos que se vista ou produza de modo a se destacar na paisagem. Elegantes, os habitantes e freqüentadores do centro de Tóquio com entre 25 e 60 anos equilibram sofisticação e simplicidade com maestria. Aos mais velhos, parece ser dado a licença e o direito de se vestirem como acharem mais confortável (muitos usam chinelos com meias, apesar do frio de cerca de 6 graus).

Os jardins que começamos a visitar ficam ao lado do New Otani, um dos mais caros e sofisticados hotéis da capital japonesa – e onde, fugido do povo e da justiça peruanos, o ex-presidente Fujimori “se exilou” confortavelmente por mais de um ano. Não muito longe dali, estão a casa do governo para hóspedes estrangeiros, o palácio imperial, a Dieta (câmara de deputados) e o palácio Akasaka. E, um pouco mais distantes o jardim Shinjuku-Gyoen e o parque com o museu do santuário Meiji. Com tempo, todos merecem um passeio zen. Na verdade, este trecho dos outrora jardins do imperador pertencem, desde o pós-guerra, aos proprietários do hotel. Um luxo em um dos lugares de metro quadrado mais caro do planeta. Mas tanto os lindos canteiros, como as pontes, lagos cheios de carpas e a casa de chá com a qual um antigo rei presenteou sua esposa, 300 anos atrás, são preservados com esmero e permanentemente abertos à visitação gratuita.

O preço das coisas, por sinal, não deve ser convertido para reais sob pena de síncope. O Japão é caro para nossos padrões. Mas não estamos aqui para economizar e sim para conhecer e experimentar o outro lado do mundo, lembra? Por isso – e para descansar um pouco –, pegue um táxi até a Torre de Tóquio. É como ir ao Pão de Açúcar ou ao Corcovado, sendo gringo, é claro. A coisa é inspirada na Torre Eifel e mesmo turística, com barraquinhas de artesanato e coisinhas típicas (e lembrancinhas agradavelmente acessíveis) e um certo ar “década de 50” – foi o único lugar que visitei que me fez lembrar o seriado do National Kid, que assistia em P&B na TV quando criança. Tem um elevador que conduz a um grande mirante a 150 m de altura, e a outro menor, a 250 m, de onde se vê toda a imensa cidade e, com dias abertos, até o Monte Fuji e suas encostas cobertas de neve.

No primeiro e grande mirante, há alguns restaurantes, todos simples, mas onde se come bem e – para os padrões locais – barato. O prato mais popular é a sopa de macarrão com carne (pode ser de vaca, porco, frango ou peixe), legumes e cogumelos, que não é pesada, é saborosa, vale por uma refeição e, de quebra, é um tremendo alento nos dias mais frios. Custa nos restaurantes mais simples, ali e em todos os lugares, entre 350 e 800 ienes – quando fechamos esta edição, um dólar valia 105,35 ienes. Todos os restaurantes servem chá gratuitamente com as refeições e não existe gorjeta no cardápio. E há máquinas, como as que vendem refrigerante por aqui, que oferecem diversos tipos de chá, gelado ou quente, em praticamente todo o canto. Além de dinheiro, muitas delas aceitam pagamento por celular: você digita um código em seu aparelho e a despesa vem em sua conta – ou é descontada de seus créditos.

Barriga cheia, seguimos para o Museu Nacional de Arte Moderna, que fica localizado no parque Kitanomaru. Existem nada menos que 2.580 museus no Japão, mas como nosso tempo não é assim tão extenso, que tal reservar a parte histórica e tradicional para Kioto, para onde embarcaremos em seguida, e conhecer a vanguarda da arte japonesa em Tóquio? Nessa filosofia, se der tempo, vamos passar ainda pelo Museu de Arte Contemporânea de Tóquio.

Viajar no Japão, especialmente dentro de sua maior e principal ilha, Honsu, é muito fácil. O país é cortado por uma grande malha ferroviária, por onde correm trens tradicionais e também os Shinkansen – os famosos trens-bala. Com eles, vai-se de Tóquio a Kioto em pouco mais de duas horas e meia, por 13.500 ienes e com todo o conforto. É um pouco mais barato do que pegar um avião e permite que se embarque e desembarque já no centro das cidades, sem necessidade de se chegar mais do que dez minutos antes da partida à plataforma. Não há atrasos. Vale, no entanto, comprar as passagens com antecedência. Os carros dos trens são simples e confortáveis, mais ou menos como a classe turística dos nossos vôos regionais. E você só irá perceber a velocidade com que o bala desliza suavemente sobre os trilhos pela fluidez da paisagem.

Chegar a Kyoto, por si só, é uma experiência e tanto. Você vem com aquela idéia de que vai encontrar a “Ouro Preto do Japão” e, logo de cara, desembarca em uma estação espacial. Um complexo de lojas, hotéis e restaurantes futuristas e cortado por escadas rolantes incrivelmente longas que, depois de inúmeros níveis, levam a um grande terraço de onde se vê boa parte da cidade. De táxi (e vale a pena combinar uma diária com um motorista, para que nos leve a vários locais) e a pé, é possível conhecer as principais atrações de Kyoto, construções centenárias, palácios e complexos com templos. Entre as centenas de opções, selecionamos o templo Ryoanji – onde está localizado o famoso jardim das pedras –, o maravilhoso pavilhão dourado do templo Rokuon-Ji, construído no século XIV, o sensacional complexo de templos budistas e xintoístas de Kiyomizu, o templo Sanju-Sangen-Do (famoso por suas 1.001 estátuas de Buda) e (ufa!) o castelo Ninjo, antiga sede do shogunato. Neste último, uma enorme construção de madeira, somos obrigados a andar de pantufas e, a cada passo que damos, escutamos uma espécie de piado de pássaro. Trata-se do engenhoso “sistema de alarme” criado pelos arquitetos para denunciar invasores furtivos. Com mais tempo, vale conhecer ainda outros tantos lugares e, principalmente, andar a pé por Kyoto. Mas nós vamos para Osaka, a apenas 43 km dali.

Cortada por uma rede de canais, na beira do mar, a cidade é muito bonita e seus habitantes especialmente simpáticos- segundo nossa intérprete, que já viveu no Brasil, são os cariocas do Japão. Seu principal ponto turístico é o Castelo de Osaka, todo em pedra e madeira e o comércio aqui é particularmente variado e concorrido – com destaque para o moderno complexo de shoppings subterrâneos de Kita e para seu “oposto”, o tradicional e divertido Minami, com ruas estreitas e lojas típicas. Vamos almoçar no topo do WTC, à beira do mar, onde, a mais de 50 andares de altura, há um restaurante internacional do tipo bufê com preço razoável e vista deslumbrante e, para a noite, já temos ingressos para assistir a um tradicional espetáculo de bonecos no Teatro Nacional Bunraku. Depois, jantaremos em um rodízio de sushi, onde escolheremos os pratos em uma esteira móvel que, ininterruptamente desfilará iguarias à nossa frente. Os pratinhos contêm duplas ou triplas de sushi e sashimi. Ao final da refeição, a conta é feita por meio de um código de cores dos pratos. Cada cor corresponde a um preço. Está tudo explicadinho no cardápio. Pena que esteja tudo em japonês...

Escolher o que comer, no entanto, é das coisas mais fáceis no Japão. Tradicionalmente, os restaurantes exibem cópias dos pratos, meticulosamente elaborados em massa, em vitrines e/ou fotografias. E o preço está sempre junto – em algarismos arábicos, graças a Buda! Além do peixe cru, há casas especializadas em comida na chapa (peixes, carnes, legumes e massas como o yakissoba), comida coreana (muito popular), fast-food e casas de carnes (caríssimas). Há ainda confeitarias, que exibem lindíssimos arranjos com doces de feijão que, para o paladar ocidental, são um pouco decepcionantes e, para quem quiser gastar realmente pouco, lojinhas onde você pode comprar um daqueles copos de sopa pronta (há centenas de tipos e sabores) e, ali mesmo, se servir de água fervente para prepará-los e comê-los, por poucos ienes. O chá, como sempre, é de graça.

Aproveitamos a segunda manhã em Osaka para ir até Nakanoshima, uma das várias ilhas da cidade, centro administrativo recheado de grandes edifícios de diversas épocas. Entramos no belo parque Nakanoshima e seguimos até o Museu de Cerâmica Oriental. De lá, andamos até a estação do metrô e embarcamos em direção à estação de Ebisucho, para conhecer, ali perto, o templo Shitennoji. Fundado em 593 e reconstruído algumas vezes ao longo dos séculos, é o mais antigo do Japão. Dali, com uma pequena caminhada, chegamos à torre Tsutentaku, com seu mirante de 94 metros de altura.

Em nossa viagem de volta para Tóquio, apreciamos a paisagem das cidades e vilarejos agrícolas do interior do país. Paramos em Shisuoka, onde está um dos melhores pontos para ver o Monte Fuji. No tradicional mirante, vários grupos de turistas se aglomeram, tirando fotos com o ponto culminante do Japão ao fundo e o bel litoral como moldura. Nossa permanência no país está terminando. Hoje à noite, iremos jantar em Yokohama – espécie de Niterói de Tóquio, a meia hora de trem “normal” do centro da capital. Amanhã à tarde, estaremos embarcando de volta, já pensando em voltar um dia para conhecer as outras ilhas, outras cidades e outras facetas – de tempo e de espaço – japonesas.

DICAS IMPORTANTES

Inglês - Diferente do que se costuma ouvir, quase ninguém fala inglês fluente no Japão. Ao menos não nos locais em que esperaríamos encontrar pessoas falando inglês – como em pontos turísticos ou na farmácia dentro do Hotel New Otani. Os japoneses, por outro lado, são extremamente atenciosos e se esforçam ao máximo para ajudar ao estrangeiro. Expressivos, são ótimos de mímica, conhecem bem as cidades (e sabem ler mapas) e, desse modo, a comunicação até funciona(!).

Placas e mapas – Para facilitar a vida do turista, praticamente toda a sinalização do país está também em caracteres ocidentais. Mas não dá para deixar os mapinhas no hotel. Eles estão disponíveis em estações, aeroportos, hotéis e pontos turísticos, em versões gratuitas e pagas. Além das localizações, costumam trazer informações úteis sobre linhas de metrô, trens e horários de visitação de pontos turísticos. Tudo em inglês ou espanhol.

Hospedagem – Os grandes hotéis são caros (entre
20 mil e 40 mil ienes), mas geralmente estão muito bem localizados. Uma opção interessante é ficar em um ryokan, típico hotel japonês, que não é mais barato
que os internacionais (pode ser até mais caro) mas dá direito a dormir em futon em um quarto com tatames, ter refeições típicas etc. Há ainda,
numa escala de maior para menor custo, os hotéis executivos – com quartos bem pequenos, mas localização privilegiada e diárias entre 6 e 10 mil ienes –, os minshuku (mais simples e em estilo japonês), pensions (estilo ocidental) e os albergues da juventude.

Segurança – Tóquio, assim como as cidades mais visitadas do Japão, é bastante segura. É muito raro alguém ser assaltado ou roubado. Além disso, a imensa maioria das pessoas é extremamente honesta nas operações com dinheiro. Táxis, lojas, restaurantes. Pode confiar. Jamais erram o troco para menos e, se você não conseguir se entender com as notas e moedas locais, pode deixar que o vendedor, garçom ou motorista selecione em sua mão o dinheiro necessário para o pagamento. Parece incrível, mas é verdade.

Formalidade – Não espere sinceridade ou simpatia imediata dos japoneses, como nos acostumamos a encontrar aqui no Brasil. Algo desconfiados, eles são geralmente muito simpáticos mas extremamente formais. Quando o assunto é trabalho, então, nem se fala. Terminado a reunião ou o expediente, no entanto, se um japonês ou japonesa o convidar para sair, saiba que isso é sincero e especial.

ALGUNS ENDEREÇOS E INFORMAÇÕES
(nomes em inglês, como são grafados nas placas e guias)

TÓQUIO
• National Museum of Modern Art
Terça a Domingo, das 10h às 17h; quintas e sextas, das 10h às 20h.
Kitanomaru Park 3-1, Chiyoda-ku
Fone: +81-3.52379999
• Museum of Contemporary
Art Tokyo
Terça a Domingo,
das 10h às 18h.
Metropolitan Kiba Park, 4-1-1 Miyoshi, Koto-ku
Fone: +81-3.5245-4111
• Imperial Palace East Garden
Terça a Domingo, das 9h às 16h
(entrada até às 15h) - Gratuito

OSAKA
• Museum of Oriental Ceramics
Terça a domingo, das 9h30 às 16h30.
Nakanoshima Park
Ingressos a 500 ienes
• Osaka Castle e Museu da Cidade
Terça a domingo, das 9h30 às 16h30.
Parque do Castelo de Osaka
(próximo à estação Taminachi-
Yo-chome do metrô)
Ingressos (museu) a 300 ienes.
• National Bunraku Theatre
(Teatro Nacional Bunraku)
1-12-10 Nippombashi - Chûô-ku - Osaka-shi 542-0073
Fone: +81 (6) 212 2531
Fax: +81 (6) 212 1202

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