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EVOLUIR
COMO ATOR É NÃO PERMITIR QUE SEU TRABALHO
SE CRISTALIZE E VIRE UMA MESMICE"
Por
Sandra
Teixeira
A
memória pode ser traiçoeira, enchendo
de lacunas a nossa alma, mas as vivências afetivas
fortes sempre retornam. O que vivemos, ao longo da vida,
pode ser acolhido, carinhosamente, ou travar brigas
severas conosco. Ao completar 50 anos de carreira, a
atriz Eva Wilma a Vivinha na intimidade
faz da memória uma companheira. Da ausência
uma presença. Como diria Carlos Drummond de Andrade:
A ausência é um estar em mim. / E
sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos
meus braços, /que rio e danço e invento
exclamações alegres, /porque a ausência,
essa ausência assimilada, ninguém a rouba
mais de mim.
Em
recente temporada no Rio de Janeiro com o espetáculo
Primeira Pessoa, Eva Wilma deixou claro
que a sua alma está encharcada de seus personagens.
Após tantos anos vivendo várias vidas
ao mesmo tempo, a ex-bailarina clássica traz,
ainda de cor, poemas, trechos de livros e falas de muitos
dos seus personagens. Percebi que à medida
que fazia mais e mais personagens, alguns pequenos monólogos
não me saíam da cabeça. Esses trechos
ficaram vivos na emoção da minha memória,
afirma a atriz. A peça deve voltar a entrar em
cartaz no Rio em março.

Filha
de pais alemães o pai era católico,
Otto Riefle Jr., e a mãe judia, Luiza Carp ,
Eva nasce em São Paulo, no dia 14 de dezembro
de 1933, fruto de uma união conturbada para a
época. A menina estudou piano, canto, violão
e balé clássico. Mas foi no balé
que Vivinha, desde cedo, se destacou. Durante a Segunda
Guerra Mundial, seu pai, gerente de uma fábrica,
perdeu o emprego e as despesas da casa tiveram que ser
cortadas. Abandona os estudos de canto, piano e violão
e passa a se dedicar, exclusivamente, ao balé.
Mas
a trajetória no palco que começou na dança
estava prestes a mudar. Aos 18 anos de idade, Eva deixa
o projeto de ser uma bailarina clássica para
se tornar uma atriz de teatro. Nos seus relatos de memória,
a atriz conta: Eu tinha recebido três convites
simultâneos: pertencer ao Teatro de Arena, o primeiro
grupo da América Latina, do José Renato.
Ficamos dois anos fazendo teatro em fábricas,
casas particulares, clubes, até construirmos
o nosso Teatro de Arena Eugênio Kusnet. O segundo
foi um contrato de cinema de dois anos e, por último,
um contrato de televisão de um ano com a TV Tupi.

Foi
no Teatro de Arena que Eva conheceu seu primeiro marido,
o ator John Hebert, com quem mais tarde veio a se casar
e teve um casal de filhos. Foi com Hebert também,
na TV Tupi de São Paulo, que formou a dupla de
sucesso no seriado Namorados de São Paulo,
que mais tarde passou a chamar-se Alô Doçura,
que esteve no ar por mais de dez anos. No teatro fez
Uma Mulher e Três Palhaços,
Lição de Botânica, A
Megera Domada, O Santo Inquérito,
Putz!, Pequenos Assassinatos,
Um Bonde Chamado Desejo, Desencontros
Clandestinos, todos sob direção
de grandes nomes como Antunes Filho, José Renato,
Paulo Autran. Foi indicada para vários prêmios,
mas a consagração veio com a peça
Querida Mamãe, com direção
de José Wilker, em 1994, conquistando todos os
prêmios importantes da época: Shell, Molière
e Sharp.
Eva
fez inúmeros filmes, mas alguns ela destaca com
um carinho especial: Cidade Ameaçada,
A Ilha, São Paulo S.A.,
Asa Branca - Um Sonho Brasileiro, Feliz
Ano Velho. Na televisão, sua carreira também
foi intensa. Fez mais de 30 novelas entre o Rio de Janeiro
e São Paulo. Grandes sucessos na TV Tupi,O
amor tem Cara de Mulher, Meu Pé de
Laranja Lima, Nossa Filha Gabriela,
A Revolta dos Anjos, A Viagem,
Mulheres de Areia. Na TV Globo, seu primeiro
trabalho foi em 1980, com a novela Plumas e Paetês
de Cassiano Gabus Mendes. Interpretou diversos personagens
marcantes em Ciranda de Pedra, Guerra
dos Sexos, Roda de Fogo, Sassaricando,
O Rei do Gado, A Indomada. Nos
anos 1998 e 1999 fez o excelente seriado Mulher.

Uma
vida intensa, marcada por grandes momentos de alegria
e também de dor. Algumas marcas viraram companheiras
de trajetória. Em 1973, enquanto gravava a novela
Mulheres de Areia de Ivani Ribeiro, na TV
Tupi, sofreu um acidente grave. Por conta de uma chuva,
seu carro derrapou e entrou debaixo de um caminhão,
provocando uma comoção nacional. Um corte
em sua bochecha, próximo ao olho, a fez submeter-se
a uma cirurgia plástica. Doze dias depois,
eu retornava às gravações com um
esparadrapo quase imperceptível, revela
a atriz em seus registros de memória.
Outra
grande cicatriz foi a perda do marido e grande amor,
Carlos Zara, após um casamento de 25 anos. Companheiro
da vida, do palco, do cinema e da televisão,
a perda, em 2003, deixou uma enorme lacuna. Como continuar
vivendo quando tudo parece não ter mais sentido?
A força parece vir da paixão pela vida.
Ao observá-la em plena atividade, sensível,
à flor da pele, tiramos algumas lições.
Assim como os personagens revivem através da
fala de Eva, Carlos Zara está totalmente vivo
em sua memória.
EVA
POR EVA

O ofício de ser ator
O ator se comunica de corpo e alma inteiros
no espaço cênico livre. Eu digo livre porque
pode ser no palco, pode ser no picadeiro, pode ser no
teatro de rua, pode ser até mesmo numa sala.
Mas será sempre um ser humano que se comunica
diretamente com outros seres humanos.
Processo
de trabalho
O ator tem que ter consciência da necessidade
do aprimoramento dos seus instrumentos. Da sua técnica.
Ele tem que ter o preparo quase de atleta, preparo vocal,
que vai desde a emissão da voz, a projeção
dela, a dicção, a impostação,
até a articulação. E, acima de
tudo, tem que aprender a analisar um texto, a mergulhar
nele.
Entusiasmo
essência da criatividade
A essência da criatividade está
no entusiasmo que você sente bem dentro de si.
Essa criatividade que o ator vai usar com muita técnica,
com muito estudo, para transmitir algo para os outros.
Para fazer os outros refletirem, pensarem, através
da emoção, através do entretenimento,
através do divertimento sim, mas, acima de tudo,
através da reflexão, da vida para torná-la
melhor a todos.
A
evolução do ator
Evoluir como ator é não permitir
que seu trabalho se cristalize e vire uma mesmice. É
você descobrir coisas novas dentro de suas potencialidades
de ator. É continuar desenvolvendo seu trabalho,
é continuar descobrindo novos gestos, novas possibilidades
de interpretar.

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