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PRESENTE
EM TODOS OS CANTOS DO PLANETA. POUCOS ALIMENTOS SÃO
TÃO POPULARES QUANTO ELE. CONHEÇA A
HISTÓRIA DESTA IGUARIA CUJA MATÉRIA-PRIMA
É O CACAU E QUE A HUMANIDADE NÃO CONSEGUE
RESISTIR EM DEGUSTAR
Por
Henrique
Koifman
Romântico,
afrodisíaco, viciante, cativante, energético,
terapêutico, sagrado... Se resolvêssemos
listar todos os adjetivos comumente associados ao
chocolate aqui nestas páginas, ia sobrar pouco
espaço para o restante da matéria. Ou,
como costuma acontecer quando se abre uma caixa de
bombons ou se desembrulha uma barra perfumada, doce,
meio-amarga ou incrustada com avelãs ou amêndoas,
não iria era sobrar nada. Poucos alimentos
são tão populares no mundo quanto o
chocolate. E não seria exagero dizer que a
humanidade hoje se divide entre os que gostam muito
e os que gostam um pouco menos dele entre os
que têm acesso regular a uma alimentação
variada, é claro.
Presente
em todos os cantos do planeta, esse preparado que
tem por base as sementes de cacau faz parte de uma
lista que reúne alguns dos primeiros acepipes
globalizados de que se tem notícia. Ele era
popular (e sagrado) como bebida nas Américas
pré-colombianas há registros
de seu consumo por volta do ano 1500 antes de Cristo,
quando os Olmecas, que viviam às margens do
Golfo do México, já processavam o fruto
do cacaueiro. E viajou à Europa a bordo das
primeiras caravelas a regressarem do então
Novíssimo Mundo.
Só
que o chocolate não conquistou o paladar dos
europeus de imediato. Na verdade, consta que o punhado
de sementes de cacau que Colombo levou de presente
ao rei Fernando II da Espanha foi solenemente desprezado
e acabou mofando dentro de uma caixinha qualquer.
Só com as expedições de Hernando
Cortez à região onde hoje fica o México,
em 1519, os espanhóis perceberam que o fruto
daquelas árvores cultivadas com tanto capricho
pelos locais tinha um valor especial. Não porque
gostassem da bebida amarga que era preparada com as
sementes, mas porque as tais sementes eram utilizadas
como moeda na troca por outros produtos. Ambiciosos,
os conquistadores decidiram levar uma boa quantidade
de sementes e mudas para o Velho Mundo com o objetivo
puro e simples de plantar um pomar de dinheiro (!).
Junto com a planta, trouxeram também, por via
das dúvidas, os apetrechos para preparar a
tal beberagem exótica.

Alguns
anos mais tarde, não se sabe exatamente quem
teve a feliz idéia de adicionar açúcar
ao preparado de cacau, que passou a ser bem mais agradável
ao paladar ibérico. Tão agradável
que, em pouco tempo, conquistou as demais cortes européias,
sendo consumido quente nos dias frios e, já
naquela época, como uma espécie de aperitivo
para noites de amor ardente. Mas, disso, falaremos
um pouquinho adiante. Seguindo com a história,
o chocolate chegou então à França
e à Inglaterra, onde surgiu a primeira fábrica
a ele dedicada de que se tem notícia.
Produzido
em escala maior com sementes importadas das
Américas e da África, onde foi introduzida
sua cultura , caiu de preço e também
nas graças da florescente burguesia. Foi somente
em meados do século XIX que versões
sólidas do doce passaram a ser
fabricadas. Revolução equivalente ocorreu
na Suíça, em 1876, quando um chocolatier
sim, leitor, tais mestres culinários
especializados já existiam então
resolveu adicionar leite à mistura, criando
finalmente o chocolate que mais comemos prazerosamente
até os dias de hoje e que, a partir de 1910,
passou a ser vendido nas populares barrinhas.
Qual
seria o segredo de tamanho sucesso? Pesquisadores
já descobriram que, de modo semelhante ao que
acontece com o café e com o chá, o chocolate
atua na química do cérebro, alterando
estados de humor. A ingestão desse nosso artista
do paladar estimula a produção da feniletilamina
pelo organismo. Essa substância, apesar de seu
nome algo indigesto, está associada ao sentimento
de estar apaixonado ou seja, uma das
melhores sensações humanas. Ele estimula
ainda a produção de serotonina, substância-chave
no que diz respeito ao bom-humor. Além disso,
o chocolate possui nutrientes que ajudam a combater
a insônia e influenciam significativamente o
bem-estar geral. Elementos que também estão
presentes em vegetais com folhas de verde intenso,
como brócolis e aspargos embora não
seja provável que o leitor consiga o mesmo
efeito atingido por, digamos, uma bela caixa de trufas
de chocolate, se presentear a(o) namorada(o) com um
arranjo de brócolis e aspargos.
Nada
há de concreto, no entanto, que relacione definitivamente
o chocolate a algum tipo de dependência física
em seus apreciadores contumazes. O açúcar
refinado nele contido, este sim, dizem muitos especialistas,
seria capaz de viciar (aspas por falta
de convicção, mas não de incompreensão,
que fique claro) as pessoas, chegando a causar depressão
por abstinência. É o açúcar
também o responsável pelo efeito cariogênico
do chocolate que, como todos os doces não-diets,
encurtam a distância entre nossas bocas e a
broca do dentista.

Isso
tudo quer dizer que chocolate não faz mal à
saúde? o leitor pergunta esperançoso,
enquanto tenta se lembrar onde guardou aquela última
mini-barrinha suíça, comprada no free-shop
em embalagem de um quilo. Como tudo na vida, em excesso,
a delícia pode trazer problemas. De excesso
de peso, inclusive (mas isso, cá entre nós,
até insuspeitas xícaras de granola com
leite desnatado, por exemplo, se consumidas de forma
exagerada, podem provocar). Em sua receita, normalmente,
são utilizados a massa e a manteiga de cacau
esta, responsável por sua consistência
, açúcar e leite. Todos ótimos
e energéticos alimentos, desde que você
consuma essa energia com exercícios
físicos.
Deixando
a biomédica de lado e voltando a aspectos mais
charmosos, chegamos ao papel do chocolate em nossa
cultura. Exagero? A dupla flores-e-caixa-de-bombons
é, desde que o cinema surgiu, um ícone
do presente romântico. Seja para quebrar o gelo
de um promissor início entre mocinha e mocinho,
seja para limpar a barra do galã que tenta
uma reconciliação. Lembrando dos tais
efeitos químicos que o doce tem no cérebro,
a coisa é bastante lógica. Dois ou três
chocolates depois, o clima, tímido ou hostil,
certamente será outro. Se as flores vão
para um vaso (ou ficam esquecidas na cozinha), os
doces quase sempre vão para o metabolismo.
A
própria embalagem dos chocolates, especialmente
os de grife, costuma merecer atenção
especial dos fabricantes. Cores, formas, texturas.
Quanto mais incomum, mais instigante, melhor. O nosso
amigo marrom serve também de inspiração
para que artistas plásticos dêem asas
à criatividade. Seja em esculturas destinadas
à decoração de banquetes
no que poderíamos classificar de arte
degustativa ou como matéria-prima
para experimentações gráficas,
como as que o brasileiro Vick Muniz produz em seu
ateliê de Nova Iorque.
E
não é à toa que as tortas e bolos
preferidos de 10 em cada 9 pessoas tenham, nem que
seja como simples ingrediente coadjuvante, o preparado
dos ancestrais mexicanos. Não há confeitaria
ou pâtisserie que se preze que não dedique
ao chocolate uma posição de destaque
em seu cardápio. Uma conferida nesses menus
como o do Chez Anne, no Shopping da Gávea
é uma tentação e tanto.
E, embora isso não seja tão comum, muitos
chefs de renome utilizam o ingrediente até
em pratos salgados e quem viu o filme Chocolate
deve se lembrar de algumas dessas invenções,
deliciosamente preparadas por Juliette Binoche e Lena
Olin.

Vik
Muniz
No
Brasil, o cacau é uma das mais tradicionais
culturas e está concentrada na Bahia. Ela já
teve dias de maior glória uma praga
terrível, a vassoura-de-bruxa, atacou os cacaueiros
baianos e reduziu bastante as safras: em 1987 a produção
brasileira era de 400 mil toneladas ao ano; dois anos
depois, a praga começou a atacar e fez com
que, uma década depois, o Brasil produzisse
apenas 100 mil toneladas. Com o mapeamento genético
da doença, é provável que os
tempos de fartura retornem nos próximos anos.
Mas ainda assim o país é produtor de
chocolates de boa qualidade, tanto para consumo popular
quanto produtos mais sofisticados, como os de marcas
como a Kopenhagen e a Chocolateria Bombom Mousse.
Isso fora a boa quantidade de lojas que oferecem produtos
importados, dos mais variados tipos, origens e sabores,
existente em nossa cidade.
Variedades
que até permitem que pessoas com determinadas
restrições alimentares comam chocolate
com prazer hoje há produtos especiais
que podem ser apreciados até por quem não
tolera lactose, como o Prawer Dark, vendido na loja
Tangerina. Mais concentrado que os doces do tipo meio-amargo
comuns, esse chocolate também possui bem menos
açúcar.
Isto
posto, e porque, como o leitor, não conseguimos
achar a tal última barrinha de chocolate, sobrevivente
do pacote suíço, encerramos o assunto.
Depois de todo esse chocolate conceitual,
é totalmente impossível ficar sem mastigar
um equivalente real. Nem que seja um sorvetinho! Bom
apetite.
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