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GRACINDO JR. ATUA, DIRIGE, PRODUZ E FAZ DA ARTE E DO BEM ESTAR FUNDAMENTOS DA VIDA

Por Rachel Martins

Tendo o teatro como sua primeira arte, Gracindo Jr. vive intensamente os projetos atuais e os vários que guarda na manga. Em diversas frentes simultâneas, está em cartaz com o espetáculo “Três homens baixos”, em que atua e dirige; além de “Liberdade para as borboletas”, peça em que atuou há 35 anos e hoje assina a direção. Em breve comandará os atores Rogério Fróes e Othon Bastos em “O cego e o louco” e até o final do ano terá mais dois projetos para dirigir, além de participar de um workshop em Salvador.

Herdando do pai, Paulo Gracindo, um enorme amor pela arte, deu início à sua carreira aos 15 anos. À procura da vocação e da independência, fez teste para a Rádio Nacional, uma referência de ensinamentos. Com ar saudosista, orgulha-se de ter estado ao lado da nata, la crème de la crème da arte nacional na época de seu primeiro emprego. Gracindo conta, com plena satisfação, ter feito parte do casting de 150 profissionais e das 11 novelas diárias que alcançava quase toda a América Latina. É de lá que fundamenta todo o aprendizado que o norteia nos momentos de criação.

Com a revolução de 1964, a rádio passou a ser controlada pelo governo e muitos foram acusados de tendências ilícitas. O que havia de mais interessante sendo feito até então era a televisão. Gracindo Jr. passa a atuar em criações com grandes autores e atores, mas manteve no teatro a sua eterna satisfação profissional.

Em 1961, Gracindo Jr. estréia no teatro com a peça “A escada”, de Jorge de Andrade. Desde então, “as quatro tábuas com um homem falando em cima”, forma como define o palco, passaram a ser o seu chão. Com a possibilidade de selecionar os trabalhos, está sempre produzindo, dirigindo e atuando. “Não tenho vontade de fazer nada muito proeminente, sonho em produzir coisas da nossa dramaturgia, dos nossos grandes autores nacionais”. Dentre alguns textos que já estão em mente para serem remontados está “A longa noite de cristal”, peça de Vianinha que dirigiu em 1976, que conta um pouco da história da televisão nos anos 70.

Considerando o ator um eterno aprendiz, - “é um bicho que aos 80 anos ainda está aprendendo, não fica velho nunca” – Gracindo fala do surgimento constante dos novos talentos, das novas estéticas e das novas propostas, no qual tudo se renova a toda hora. Em tempos de glamour televisivo, analisa o processo como lei de mercado natural de um mundo voltado para o capitalismo, no qual muitas vezes um ator ainda no início da sua carreira abandona a preocupação com formação e canaliza todo o seu sucesso para o status momentâneo. Em sua opinião, o ator para ser completo deve se dedicar momentaneamente a todos os tipos de arte, desvendá-la, conhecê-la, para então decidir onde está a sua própria realização.

Por estar sempre viajando com suas montagens, Gracindo tem acesso à arte que está sendo criada e desenvolvida fora do eixo Rio/SP. Cita com orgulho o engajamento político-artístico das companhias de teatro de Salvador, o aprofundamento na profissão dos estudantes de Curitiba, e comenta: “eles têm ótimos diretores e atores, além de serem organizados e terem uma relação com a vida social da arte. Estão acordados para as bases da criação, talvez por estarem fora do eixo, querem ser atores e não famosos”.

Psicólogo por formação, Gracindo divide o palco com um novo projeto voltado para o bem- estar e fundamentado em saúde mental, física e espiritual. O Projeto Casulos é o lado do ator, produtor e diretor, muitas vezes enlouquecido pela rapidez da profissão, que poucas pessoas conhecem. Antenado, acompanhou as descobertas de algumas técnicas, estudou vertentes da psicanálise como Freud, conheceu teorias de Lacan e Yung, terapias bioenergéticas até chegar à meditação.

Nos arredores da cidade do Rio de Janeiro, em um lugar puro, com a natureza calma e ao mesmo tempo exuberante está sendo desenvolvido o projeto que mistura o lado técnico e científico, onde a espiritualidade é tratada de forma palpável. Através de uma série de buscas e fundamentos o homem é reintegrado à natureza e ao seu próprio sistema, no qual a alma não é considerada só espírito, e o corpo funciona de uma maneira complementar. “Quero que as pessoas venham para cá hibernar em uma idéia e tentar fazer essa passagem. Quero motivar um salto quântico como pessoa e como ser”, ressalta o artista.

Todas as buscas e aprendizados do ator o fizeram conhecer e trabalhar esse lado que o auxilia no dia-a- dia. Admirador de Osho - guru indiano que causou enorme polêmica na década de 70 e que ainda reúne milhões de seguidores em seu ashram -, segue seus ensinamentos para dar um stop, se desligar de tudo em volta por apenas um minuto, mesmo nos momentos da mais pura velocidade que motiva a profissão.

Intrigado pela vida e seus aprendizados, Gracindo tenta melhorar aspectos para que haja o prolongamento de um bem-estar. Vê na velhice um eterno crescimento. Uma forma de acompanhar em atividade as mudanças do mundo. Ser ator para ele é poder encarnar várias vezes na vida, é viver muitas realidades diferentes. Em muitos momentos se despe das personagens para dar vida a si mesmo. Com quase 50 anos de carreira, sonho e realidade se entrelaçam, formando quase sempre uma nova e única experimentação.

O ORGULHO DE SER JÚNIOR

Privilegiado pela natureza, Gracindo Jr. é filho de Paulo Gracindo, um dos maiores atores brasileiros, além de produtor, locutor, apresentador, compositor e hoje em dia patrimônio nacional. Com participação ativa na formação da dramaturgia brasileira, Paulo Gracindo teve o teatro como arte precursora de sua profissão, participando das companhias de Procópio Ferreira e Alda Garrido. Logo depois atuou na Cinédia, primeira fase do cinema nacional e mais tarde atuaria no Cinema Novo dirigido por mestres como Glauber, Fontoura e Jabor. Como apresentador, comandou o programa de auditório Paulo Gracindo, dando-se ao luxo de ter Chacrinha como seu contra-regra e a rádio como seu ponto de partida. Mais tarde estourou com a atuação em Direito de Nascer, novela que hoje bateria mais do que os 99% de audiência.

Na dobradinha Gracindos, pai e filho fizeram muitos sucessos. Gracindo dirigiu o pai em montagens como “Paulo Gracindo - O Bem Amado” (biografia teatralizada da vida do ator), “Num Lago Dourado” (1992) e “A História é uma História” (de Millôr Fernandes, em 1994), além de terem atuado juntos em alguns trabalhos. Confirmando a relação de eterna amizade, no ano que vem pensa em remontar “O Rei de Ramos”, de Dias Gomes, e reviver o Tucão, no qual Paulo Gracindo deu vida ao bicheiro na novela “Bandeira 2”, baseada na peça.

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