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ANTES
AS JÓIAS VALIAM QUANTO PESAVAM. HOJE, BRINCOS,
PULSEIRAS, ANÉIS E CORDÕES BUSCAM REALÇAR
UM DESIGN QUE TRANSMITA PERSONALIDADE, ESTILO E SOFISTICAÇÃO.
E, MELHOR, QUE SUSCITE PRAZER E ENCANTAMENTO
Por
Simone Raitzik
Usar
ouro como adorno já foi sinônimo de riqueza
e ostentação. Antigamente, o que contava
era o peso, a fartura e o tamanho das pedras. Reis e
rainhas lançavam mão de peças belíssimas,
verdadeiras obras de arte que reluziam na forma de coroas,
colares, brincos, anéis e braceletes. Quanto
mais, melhor e mais poderoso. Hoje, a realidade é
bem diferente e, digamos, mais acessível e sofisticada.
Todo o processo de confeccionar uma jóia valoriza,
atualmente, muito mais a forma do que o conteúdo.
Ou seja, o design de uma peça, independente do
quanto ela vale em termos de matéria-prima, pode
ser o item mais precioso no momento da escolha. Em suma,
é a emoção, muito mais do que o
peso, o que desperta o desejo de cada um(a). O
que faz sentido é que a jóia fale sobre
quem a está usando. Da sua personalidade, do
seu jeito de ser e daquilo que acredita, aposta
Antonio Bernardo, um dos maiores designers brasileiros,
vencedor de vários prêmios de design. Dono
de nove lojas, espalhadas pelo Rio, São Paulo,
Brasília e Miami, ele é um mestre na arte
de emocionar com seus desenhos leves, simples e geniais.
Minhas criações não têm
a ver com tendência, estilo, nem com moda,
afirma.
Nem
com ostentação. Ao contrário, o
trabalho de Antonio Bernardo é feito sob medida
para despertar prazer para quem usa e, para isso, ele
lança mão de idéias simples, mas
impactantes. Que causam surpresa e encantamento. Na
verdade, o que acontece atualmente é que novas
tecnologias permitem novas formas, mecanismos e sistemas.
Por outro lado, o comportamento das pessoas e o mundo
das artes sugerem novas direções e novos
olhares. Esse conjunto faz a criação se
renovar, diz ele, que assume estar sempre aberto
a experiências. No fundo, a criação
para mim é um processo que se desenvolve a partir
dele mesmo. Parece que todas as jóias assinadas
por mim são uma decorrência da primeira
peça que fiz. Quando ela ficou pronta, pensei:
talvez possa modificar aqui e ali e, quando
vi, já tinha surgido uma outra coleção,
conta. Mas algumas questões se repetem, segundo
ele: o trabalho com fios e fitas, o comportamento e
o humor. Mas me fascina ver que a joalheria, um
ofício com mais de sete mil anos, ainda traz
novas descobertas, admite.
São
exatamente esses novos desafios que fascinam o joalheiro
Lisht Marinho, que há cerca de cinco anos viu
sua grife crescer como sinônimo de jóias
com design inovador, com boas pitadas de toques clássicos
e, muitas vezes, inspirados em releituras do estilo
art déco. Antes, as pessoas buscavam a
jóia clássica como investimento. Hoje,
querem também leveza e versatilidade, compara
ele, que define sua nova coleção Laços
como uma volta ao passado e ao romantismo. Exploro
também a combinação das gemas brasileiras,
explica. Orgulhoso de cada peça que sai do ateliê,
ele compara seu trabalho com o de um artista plástico.
Toda jóia é uma obra de arte,
assume. A assinatura faz parte desse ritual e
é um motivo de orgulho para o criador. Antes
de ir para o cliente, uma peça Lisht passa por
pelo menos seis profissionais de diferentes áreas,
sendo manufaturada em um processo totalmente artesanal,
conta ele.
Dono
de uma clientela de alto poder aquisitivo, ele sabe
que o acabamento, nesse mundo de pedras e brilhantes,
é fundamental. A qualidade de cada peça
é uma preocupação constante,
diz. Essa mesma preocupação está
presente em cada anel, brinco ou bracelete em exposição
nas vitrines do Atelier Schiper, que reúne a
produção das irmãs Aline e Alessandra
Schiper. Com uma boa variedade de estilos, elas acham
que esse universo segue tendências paralelas à
moda. Passamos, nos últimos dois anos,
por um boom de ouro branco. Agora, o ouro amarelo e
os tons acobreados voltaram com tudo, tanto em peças
polidas como foscas. Na próxima coleção,
investimos nas variações do ouro amarelo
e nas misturas desse tom de metal com detalhes de ouro
branco, conta Aline. Para elas, não existe
um mesmo método para buscar idéias e,
sim, muita pesquisa. Buscamos inspiração
em diversas situações do dia-a-dia e em
temas que apreciamos. Recentemente desenvolvemos a coleção
Golden Rio, baseada na nossa percepção
dos principais cartões postais da cidade. Já
para a linha Amazônia, mergulhamos no mundo da
floresta, para desvendar várias matérias-primas
e desenvolver peças dentro desse conceito,
relata.
Toda
essa versatilidade na busca de inspiração
se reflete também nos materiais e pedras escolhidas
para a confecção das jóias. Não
há mais restrições em relação
a metais e tipos de pedras, afirma Alessandra,
que admite gostar de um design arrojado aliado a um
bom preço. É isso o que o público
do Shopping da Gávea, essencialmente moderno
e irreverente, aprecia, aposta. Já Lisht
acha um pouco complicada toda a liberdade
que o design de jóias vem ganhando. Jóia
tem que ser preciosa e, por isso, não concordo
com a utilização de materiais tais como
osso, madeira, bambu, pele de arraia, palha... ,
afirma. Fã do ouro branco, ele não vê
esse tipo de metal como uma simples tendência
ou moda e, sim, como um clássico.
Ele combina muito melhor com diamantes, é
mais sofisticado e neutro, decreta. Já
Aline acha que ele vem ganhando espaço por ser
mais discreto. Acho que tem um aspecto clean que
chama menos atenção na rua.
Uma
das veteranas nesse mercado, a Frank vem se renovando
com a colaboração da designer Renata Costa
Lino, que responde atualmente pelo departamento de criação
junto com Frank. Hoje vendemos produtos diferenciados
e exclusivos, dois itens que são cada vez mais
valorizados nesse universo, afirma ela. Sobre
tendências, ela aposta na volta do ouro amarelo
e nas misturas com pedras brasileiras, como o citrino
Champagne e Brasil, praziolita, turmalina verde, coral,
turquesa... São todas cores fortes para
o verão, define. Mas com tanta experiência,
ela não pestaneja na hora de listar a pedra preferida
das mulheres (e dos homens): diamantes. Aline Schiper
completa que, na caixa de jóias, o item mais
em alta é o brinco é considerado
indispensável para elas. Muitas chegam a afirmar
que se sentem nuas sem um adorno na orelha. Depois vem
o anel, essencial também para compor qualquer
produção. Tudo a ver com a opinião
da estilista Carla Wöllner, que faz tudo por um
adorno na orelha, especialmente se ele for de brilhante.
São peças clássicas e eternas,
decreta. Mas no dia-a-dia, é fácil vê-la
usando também jóias exageradas e diferentes,
provocando um interessante contraste com o visual esportivo
que é a cara da sua marca, a Wöllner. Tudo
depende do meu estado de espírito. O importante
é que o acessório traduza a minha personalidade,
diz ela, que associa cada peça com datas importantes
e marcantes de sua vida. As jóias são
provas concretas de fortes vínculos familiares,
diz. E, por isso, sempre impregnadas de significado.
Algo como uma leve contribuição para a
felicidade de alguém, prefere Lisht. Ou simplesmente
símbolos eternos de momentos mágicos e
emocionantes.

DESIGN
EM ALTO RELEVO
Cidda
Siqueira, designer de jóias com pós-graduação
em Educação Estética e fazendo
mestrado em Design na PUC-Rio, fala sobre as tendências
desse mercado e conta um pouco da história da
jóia no Brasil. Ela trabalha como consultora
de estilo do Instituto Brasileiro de Gemas e Metais
Preciosos e é co-autora do Caderno de Tendências
de Jóias, do IBGM/Sebrae/Apex.
Antes,
o valor da jóia era muito associado ao peso do
ouro e pedras. Agora o design vale muito. Como você
vê essa mudança?
Ao
longo da História, as jóias foram vistas
de várias maneiras: como amuleto, símbolo
sagrado, de devoção, objeto de adorno,
de sedução, de investimento e de desejo.
Em cada momento, ela refletiu os ideais da época,
expressando a sociedade na qual estava inserida. Se
os valores mudam, se a cultura sofre transformações,
nossa forma de ver, usar e sentir os objetos também
se modifica. Até a década de 80, a jóia
era considerada investimento. Por isso, a jóia
se destacava pelo teor do metal e pela qualidade das
pedras. A alta competitividade surgida como conseqüência
da globalização levou o design para o
centro das atenções, como fator estratégico
de diferenciação e inovação.
Passamos, então, a falar em valor agregado.
Hoje, já falamos num valor percebido,
fruto de um tratamento mais emocional dado
aos produtos e, mais especificamente, às jóias.
As jóias do novo milênio têm nome,
família e história para contar. O valor
simbólico está ganhando cada vez mais
espaço. Assim, embora o público seja muito
diversificado, os valores afetivos e emocionais envolvem
as jóias com uma aura de significados que ultrapassa
a questão do preço.
Existe
uma tendência em termos de design de jóia?
A utilização do ouro branco, da mistura
com pedras brasileiras... Como está sendo essa
evolução?
É importante observar que não existe
apenas uma tendência, mas uma multiplicidade de
caminhos estéticos que procuram dar conta dessa
verdadeira Babel que é a linguagem de nosso tempo.
O ouro branco, por exemplo, levou muito tempo para ser
adotado no Brasil, mesmo quando a moda já estava
assimilada na Europa. O curioso sobre isso é
que os brasileiros sempre implicaram com a prata, considerada
aqui um metal de menor valor ou expressão. Como
o ouro branco parece prata, houve rejeição.
No entanto, isso mudou. Não só o ouro
branco ficou em alta entre nós, como a prata
ganhou um novo status, ao ser utilizada pela joalheria
de autor. Mas a moda tem seus movimentos e, agora, o
ouro amarelo começa a surgir revigorado. Outro
ponto interessante trata das pedras brasileiras. Há
alguns anos atrás, nossas pedras, equivocadamente
chamadas de semi-preciosas, eram direcionadas apenas
para o turista. Hoje, com essa onda super colorida que
invadiu a moda, nossas pedras, corretamente chamadas
de preciosas, adornam todos os tipos de
jóias, das mais tradicionais às mais de
vanguarda.
Jóia
assinada é obra de arte na sua opinião?
A jóia, em certo sentido, é uma obra
de arte. A arte que advém do requinte das técnicas
da ourivesaria, do domínio do metal, da magia
evidenciada pelo brilho das pedras, do impacto provocado
em quem as admira, da emoção que desperta
em quem as usa. Mas há controvérsias.
Existe uma categoria de autores que são denominados
designers por estarem mais preocupados com
a expressão de sua arte do que em projetar visando
o mercado. Esses autores, na sua grande maioria, confeccionam
suas criações inspirados por conceitos
e experimentações, tanto no campo dos
materiais como no campo da linguagem. Em geral, são
peças únicas, assinadas, voltadas para
um público mais exclusivo composto de pessoas
que curtem e que valorizam esses objetos. Por que não
chamá-las arte? Aliás, existe
como definir e delimitar o conceito arte,
hoje? Enfim, na joalheria existem algumas categorias
e todas elas, de alguma forma, tocam de leve ou mesmo
confundem seus limites.

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