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Jô
Hallack
MEU
DIA RADICAL
Minha
falta de vocação para o mundo dos esportes
foi revelada aos três anos de idade, quando me
recusei a participar de uma competição
de velotrol sob a desculpa covarde de que preferia
deixar os outros ganharem. Desde então,
passei minha vida inteira fugindo de aulas de ginástica.
A medalha de prata conquistada na competição
de nado com prancha de isopor no Clube Guanabara foi
apenas uma exceção para confirmar a regra.
Por
isso, ninguém deve ter entendido a minha animação
quando numa viagem para Pirinópolis com
quatro amigas - surgiu a oportunidade de participar
de um circuito de arvorismo. Uma coisa muito louca,
espécie de passeio pela copa das árvores.
No panfleto vinha escrito que esta era uma atividade
lúdica na natureza com vários níveis
de dificuldade. Não sei como isso soa para
vocês mas, na minha cabeça, isso significava
que haveria trilhas para os esportistas incríveis,
para seres humanos normais e para crianças, velhos
e idiotas. Ou seja, o meu grupo. Não era bem
assim.
No
arvorismo, dizer que um circuito tem vários níveis
de dificuldade significa que: há travessia difícil
em penhasco com 10 metros de profundidade, travessia
muito difícil em penhasco com 15 metros de profundidade
e travessia praticamente impossível em penhasco
com 20 metros de profundidade com pedras pontiagudas
no fundo. Além de outras atividades lúdicas
horríveis. Mas, quando descobrimos isso, já
era tarde. Afinal, havíamos desembolsado R$ 30,
assinado um termo do tipo eu assumo inteira responsabilidade
por ter quebrado as minhas pernas e braços
e estávamos enroladas em cordas, usando capacete
e luvas. Igualzinho ao operário do Village People.
Não dava para desistir tão facilmente
quanto na competição de velotrol. Fora
que sempre tem um amigo que lembra toda aquela história
do momento de superação. Uma
coisa super Paulo Coelho. E você cai.
E
pronto: quando eu percebi, estava sozinha no meio de
um penhasco numa ponte feita de toquinhos de madeira.
Era preciso manter a calma. Lembrar que estava numa
atividade de superação e o meu eu interior
sairia fortalecido. O meu eu exterior poderia sair com
as costelas quebradas, mas tentei não pensar
nisso. Mas uma pergunta ecoava no meu cérebro
de minhoca. O que exatamente eu estava
fazendo naquela ponte suspensa, com a roupa do operário
do Village People, paralisada de pânico, com vontade
de fazer xixi e de chorar? E ainda havia pagado por
isso! A sociedade contemporânea desenvolve estranhos
modos de diversão.
Felizmente,
atravessei a ponte e fui ovacionada pelas colegas que
do outro lado - davam gritinhos histéricos.
Começou, então, a parte mais divertida
da atividade lúdica: ver as outras amigas passando
aperto tentando atravessar a ponte de toquinhos. Foram
os R$ 30 mais bem gastos da minha vida. Sem falar que
é uma atividade super segura pois, segundo David,
se você cair continua preso pelo equipamento de
segurança. Na cabeça de David, ficar pendurada
apenas por uma corda num penhasco de 15 metros de profundidade
com pedras pontiagudas no fundo não é
exatamente um problema. Tudo, na vida, é uma
questão de ponto de vista.
Existem
várias profissões no mundo e a de David
é ser instrutor de arvorismo e socorrer mulheres
nervosas que se metem a fazer este tipo de esporte.
Logo nosso grupo se apegou a David. Ele só esqueceu
de explicar algumas coisas básicas como
por exemplo, que o jeito como uma de nós tinha
customizado a sua corda de segurança faria ela
morrer enforcada caso escorregasse. Por outro lado,
ele nos encheu de auto-estima dizendo que éramos
tipo o Indiana Jones.
Depois
da ponte de toquinhos, chegou a vez do fio de aço
suspenso sobre o abismo. Eu já havia perdido
totalmente a vergonha e passei a exigir o mesmo tratamento
das crianças arvoristas: isto é, atravessar
ao lado do instrutor David. Afinal, esqueci de comentar
um pequeno detalhe: eu tenho fobia de altura. Ou seja,
minha presença na copa das árvores só
tinha uma explicação: o puro masoquismo.
O arvorismo é um atividade lúdica que
tem dois únicos propósitos, ambos um pouco
estranhos. O primeiro é sofrer e esperar a hora
de que tudo acabe. O segundo é pensar como seria
legal se você fosse um macaco saltitante.
Terceiro
obstáculo: toquinhos movediços. Uma coisa
horrível que não desejo para ninguém.
É como a ponte de toquinhos, com pequeno diferencial:
os tocos são soltos e quando você coloca
o pé sobre eles, eles se movem e você quase
cai. Resolvi fazer um pacto com uma colega: iríamos
voltar dali. Não precisávamos provar nada
para ninguém. Já havíamos nos superado.
Mas uma outra amiga disse que não, que a gente
não havia se superado coisa nenhuma. Que devíamos
prosseguir e que tudo era uma questão de manter
a calma e respirar.
Isso
não nos convenceu, mas o problema é que
voltar não era tão simples. Pois para
voltar nós teríamos que passar de novo
pela corda de aço suspensa e pela ponte de toquinhos.
Sem falar que não iríamos ganhar o diploma.
Sim, o passeio dava direito a um diploma, uma papel
tosco com o qual poderíamos provar que fizemos
arvorismo. Poderíamos enquadrá-lo para
decorar a parede da nossa casa. Incluir a informação
no currículo. Comer alguém.
Concentrando-se
no diploma e na quantidade de onda que iríamos
tirar depois de tudo aquilo, resolvi ir adiante. E passei
pela ponte dos grandes tocos, pela escada de cordas
até chegar a prova final: a tirolesa aquela
espécie de teleférico radical em que você
tem que se jogar no penhasco.
Ao
final do passeio, vi que me transformei em outra pessoa.
Logo estarei praticando surfe e pulando de asa delta,
andando com os gatos do snowboard e fazendo bungee-jump.
Se der sorte, poderei até apresentar um programa
no Sport TV.
Desculpa,
tá? É que eu faço esportes radicais!
Iça
mané!!!!!!!!!!

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