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"EU TENHO UMA CRTA CONSCIÊNCIA DE MIM. SEI O TAMANO DO MEU PÉ E NÃO VOU ALÉM. NO FUNDO, DENTRO DE TODA A MINHA INSEGURANÇA, EU SEI QUAIS SÃO AS MINHAS ZONAS DE SEGURANÃ, ONDE EU POSSO ATUAR. SOU MUITO CAUTELOSO., MAS ÀS VEZES EU DOU UM SALTO MORTAL"

Por Sandra Teixeira

O diretor e autor teatral Flávio Marinho vem ajudando a mudar, positivamente, a história do teatro brasileiro contemporâneo. Ao contrário das salas vazias e temporadas curtas que predominam, suas peças ficam muito tempo em cartaz. ‘Abalou Bangu’ – em cartaz há dois anos – já fez 350 apresentações e foi vista por 105 mil espectadores. ‘Um Caminho para Dois’, que está há oito meses em cartaz, também segue a mesma trajetória de sucesso. São 100 apresentações e 35 mil espectadores que assistiram a comédia romântica com Osmar Prado e Luciana Braga.

Filho do militar José Constâncio e da artista plástica Maria Isabel, Flávio Marinho, 55 anos, trilhou outros caminhos antes do teatro: Direito e Jornalismo. Entre a reportagem e a crítica de teatro e cinema, o geminiano irrequieto trabalhou intensamente quatorze anos nos jornais ‘Tribuna da Imprensa’, ‘Última Hora’ e ‘O Globo’, além de ter sido colaborador de diversas revistas semanais e mensais como ‘Vogue’, ‘Visão’, ‘Elle’, ‘Desfile’ e ‘Manchete’. Mas foi no teatro, em 1987, que encontrou a sua maior fonte de prazer. Por trás dos olhos ágeis e atentos – são 9,25 graus de miopia – uma janela se abre para o mundo. Homem cauteloso, mas às vezes, por pura paixão, deixa o bom senso de lado e se lança em saltos mortais. Foram muitos ao longo de sua trajetória sem direito a pára-quedas.


Flávio Marinho com Cristina Pereira e Luciana Braga

Alguns medos? Só mesmo o do tempo, que é uma obsessão permanente nos trabalhos do autor-diretor. O tempo que escorre pelos dedos. O tempo que aprisiona e liberta. O tempo da memória, da vida-e-morte. Próximos vôos? Muitos, mas todos com pista de aterrissagem. Quase prontos para sair do forno, em 2006, mais três livros: ‘Cem Anos de Oscarito’ (Ed. Record), ‘Teatro é o Melhor Programa: A História de 35 Anos do Teatro Carioca’ (Ed. Ediouro) e uma coletânea de suas críticas de teatro entre 1973 e 1987. Enquanto administra ‘Um Caminho para Dois’ e ‘Abalou Bangu’ com maestria de empresário, Flávio se aventura em dois novos musicais: ‘Nosso Amor a Gente Inventa’ – música tema do Cazuza – com Inez Vianna, José Mauro Brant e a pianista Monique Aragão, estréia prevista para dezembro de 2005; e ‘Cauby!Cauby!’, escrito especialmente para o ator Diogo Vilela, que estréia em São Paulo em janeiro de 2006. Dividindo a direção da peça com Diogo, para Flávio a história romanceada do cantor Cauby Peixoto é o seu melhor texto. Por sorte, vamos poder conferir em breve.


Cena da peça Rim

A sua versatilidade e a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo chamam muito a atenção. Fale um pouco dessa sua personalidade irrequieta. Por que você cursou direito mas, acabou se dedicando ao jornalismo?
O direito foi, como para a maioria dos jovens da minha época, uma escolha por falta de opção. Como tenho muito jeito pra línguas e gosto muito de viajar, as pessoas me orientaram, burramente, para que me tornasse um diplomata. Logo no início, comecei a achar o curso insuportavelmente chato. Neste período, em plena ditadura militar, comecei a me questionar se era esse o país que gostaria de representar lá fora.
Você foi até o fim no curso de direito?
Eu me formei em direito, fiz estágio e trabalhei nove meses no Tribunal de Contas. Pai e mãe, muito caretas, queriam que eu tivesse um diploma. Quando quis largar a faculdade, ainda no primeiro ano, meus pais me obrigaram a terminar. Eu morava com eles e não tinha ainda independência econômica. Dei o diploma para eles de presente.
Como foi o início no jornalismo?
Um grande amigo meu, já falecido, Eduardo Nova Monteiro, me disse: que coisa absurda você estudando direito. Você que adora cinema e teatro. Ele me disse que havia um trabalho na ‘Tribuna da Imprensa’ e me perguntou se estava interessado. Era para escrever, em 1973, uma coluna diária, de segunda a sábado. O trabalho era barra pesada, mas as pessoas começaram a ler a minha coluna e eu logo fui reconhecido. Elas gostavam do que eu escrevia e as revistas começaram a me chamar para fazer free-lancer.
O que fez você passar do jornalismo para o teatro?
Depois de quatorze anos, comecei a me desgastar com o jornalismo. A grande imprensa começou a se “amarronsar” de uma forma muito estranha. Tive muitos problemas com a minha chefia e ficou muito difícil exercer a profissão. Nesse ínterim, eu já tinha começado a dirigir shows em casas noturnas e estava dando muito certo.
Como começou a carreira de autor teatral?
O Wolf Maia me convidou para traduzir e adaptar as ‘Noviças Rebeldes’. Ele me convenceu a fazer, argumentando que eu tinha humor, conhecia bem o inglês e já tinha visto o espetáculo nos EUA. Foi aí o meu batismo como autor. Aceitei o desafio. Tinha acabado de sair de ‘O Globo’, em 1987, e estava meio sem saber o que fazer. Achava que já tinha esgotado a minha carreira como crítico. Acabou dando tudo certo. Fui indicado ao Prêmio Mambembe – na categoria especial tradução e adaptação – por esse primeiro trabalho e a imprensa foi gentilíssima comigo.
O que veio depois das ‘Noviças Rebeldes’?
No ano seguinte, Wolf Maia me chamou para traduzir e adaptar o musical chamado ‘Splish, Splash’, interpretado pela Cláudia Raia. Foi um sucesso estrondoso. Pensei: agora eu me encontrei e aqui eu vou ficar.
Você se considera um homem de sorte?
Acho que tem uma ponta de sorte. Na realidade, toda a minha trajetória foi muito suada: fiz cinco anos de uma faculdade que eu detestava, mas já trabalhando como jornalista. Meu trabalho como crítico e editor de teatro de ‘O Globo’ era muito pesado. Eu fazia todas as matérias e críticas de teatro, além de escrever para três colunas fixas semanais. Eu vejo a minha vida como uma sucessão de degrauzinhos: uma coisa levando a outra.
Alguns admiradores consideram ‘Um caminho para Dois’ seu melhor trabalho e o mais maduro? O que você acha?
A minha melhor peça é o ‘Coração Brasileiro’ e a minha melhor montagem é ‘Noite Feliz’. ‘Um Caminho para Dois’ é uma peça que agrada e caminha de mãos dadas com o público. É a minha peça mais redonda, desde a produção, a montagem, o cenário e os figurinos. Tudo é muito bom e funciona muito bem.
E o que você me diz da peça ‘Abalou Bangu’ (completou agora em outubro dois anos em cartaz), que pegou de jeito o público carioca? Ela representa uma guinada profissional?
O ano de 2003 foi terrível pra mim. Não tive propostas profissionais e não consegui nenhum patrocínio. Foi quando juntei todo o dinheiro que eu tinha e coloquei no ‘Abalou’. Dei um salto mortal sem rede. Se não desse certo, não teria como comer e nem pagar as contas. Eu tive um renascimento profissional a partir desse trabalho. ‘Abalou’ é uma comédia popular, que é a cara do carioca, e está a um passo da chanchada. Ela é muito engraçada e foi feita para fazer rir, embora tenha um subtexto de vida contemporânea complexa em uma cidade grande.
Fica muito claro nos seus espetáculos que você é um grande observador do cotidiano e do ser humano. O que faz você ser um observador do mundo?
Eu sempre fui assim. Não sei se é por causa da minha miopia, mas sou um grande observador do ser humano. Trabalhando quatorze anos como crítico em jornais e revistas, eu tive que exercitar ainda mais o meu olhar. Nada podia me escapar. Quando criança cheguei a ganhar prêmios na escola com os meus desenhos, porque eu já era um bom observador.
Você é uma pessoa rigorosa com o seu trabalho?
Eu percebi que só conseguiria sobreviver do jornalismo e provar aos meus pais que era possível sem o direito, se eu fosse muito disciplinado e pontual. Vivi como free-lancer nos primeiros seis anos de profissão. Com o teatro, eu relaxei um pouco. Acho que tem a ver com a idade, a passagem do tempo.
Você fala muito em suas peças das relações de casais, das relações afetivas. Você é uma pessoa afetiva?
O ator Gustavo Gasparani, que trabalhou comigo na peça ‘Os 7 Brotinhos’, me disse que eu conseguia uma harmonia muito grande nos meus trabalhos porque eu procurava o tempo todo o afeto e o prazer. Esse sentimento é levado, por osmose, para o palco. A direção se faz, então, através dessa presença, do tom afetuoso na condução das coisas. Eu procuro o afeto não só no trabalho, mas com os meus amigos e na vida.
Você é uma pessoa movida pela paixão?
O que me move é o meu prazer que se confunde com o meu trabalho. Eu estou tão feliz de ter encontrado alguma coisa para fazer na vida pelo qual eu sou profundamente apaixonado. No teatro, eu encontrei a minha turma, encontrei um ofício que amo fazer. O meu trabalho passou finalmente, a se confundir com o meu prazer. E isso é uma coisa que não tem preço. É tudo que eu queria na vida. Eu queria alguma coisa assim, em que eu pudesse misturar o afeto e o prazer.
Você tem um sonho: transformar uma de suas peças em filme, que é uma outra grande paixão. Existe algum projeto em andamento?
Eu sou um grande cinéfilo. O cinema veio primeiro e me empurrou depois para a música, a literatura e o teatro. Quando eu era criança assisti o musical ‘My Fair Lady’ inúmeras vezes. Como gostei muito da trilha sonora do filme, acabei comprando o disco. Depois, fui descobrindo os outros compositores que faziam parte da trilha, daí quis conhecer os outros trabalhos deles. Por fim, descobri que o filme que havia me encantado era também uma obra teatral. As peças ‘Um Caminho para Dois’ e ‘Abalou Bangu’ poderiam virar filmes, com certeza, mas eu não posso fazer isso sozinho. Preciso procurar um produtor interessado.
Abalou Bangu’ completou dois anos em cartaz em outubro e ‘Um Caminho para dois’ entra no oitavo mês. Está cada dia mais raro filmes e peças que fiquem tanto tempo em cartaz? Não temos mais público interessado?
O público de teatro recuou. Nos anos 70, existia um público fictício, que ia ao teatro ver o que era proibido. Porque o teatro sempre foi considerado transgressor. No final da ditadura, houve uma queda visível de público, tendo apenas alguns espetáculos que são exceção, como é o caso de ‘Cócegas’ e o ‘Divã’ que são considerados fenômenos de bilheteria. O outro fator que dificulta é o econômico. Embora o ingresso não seja caro como dizem por aí, as pessoas estão duras. Existe também o fator da violência, que é terrível, mas é real. Junto a isso, existe o lazer doméstico que aumentou de uma maneira estúpida. É possível ter quase tudo, com segurança, dentro da própria casa. Faço aqui também uma autocrítica: acho que nós do teatro não encontramos uma maneira de falar com o público após a abertura política.
Em um mundo com tantos avanços tecnológicos, onde as pessoas estão cada vez mais distantes do contato pessoal, o teatro não teria um papel fundamental, o de promover o encontro?
A grande força do teatro está no encontro. Nada pode substituir esse calor, o suor do ator, o cuspe da fala do ator. Por isso o teatro é a arte mais forte e também a mais frágil que existe. Apesar de muito antiga, o teatro resistiu ao aparecimento do rádio, do cinema e da televisão. Mas é claro que passamos por mudanças. Na década de 80, quando comecei a fazer teatro, lotávamos oito sessões por semana e agora fazemos apenas quatro.
Suas peças são muito bem-sucedidas e tem o respeito do público. Você se sente realizado?
Eu tenho o respeito do público e da crítica, mas não tive ainda uma explosão. Nem para cima e nem para baixo. Eu acho que ‘Um Caminho para Dois’ merecia um registro maior do que vem recebendo. Sábato Magaldi, um dos maiores críticos desse país, escreveu na contracapa do meu livro ‘Um Caminho para Dois’ (Ed. Imago), que esse é o meu melhor trabalho. Acho muito estranho que a Luciana Braga não tenha sido sequer indicada para o Prêmio Shell. Não consigo entender e acho uma injustiça com ela, que está fazendo um belíssimo trabalho.


Lilia Cabral em Divã

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