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Denise Lopes

Simbiose audiovisual

2009 foi o ano da França no Brasil. Aportaram por aqui inúmeros eventos audiovisuais francófonos. Do colóquio “À pele da película”, que juntou filósofos e pensadores de cinema daqui e de lá, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna, à exposição de obras na orla, vivemos uma espécie de invasão imagética a la Villegagnon. Como se suas caravelas tivessem retornado, pós 1555, não mais para colonizar mas para nos fazer interagir. Assistimos a mostras de Jacques Tati, François Ozon, Marguerite Duras, Chris Marker e Jean Rouch. Tivemos Cartier Bresson, em São Paulo. Jean-Luc Godard e Pierre Verger, na Bahia. Jardins virtuais, de Miguel Chevalier, em Brasília. Muita, muita coisa. E um ou outro evento desgarrado da agenda oficial. Num destes, Michel Gondry (Brilho eterno de uma mente sem lembranças/2004), radicado nos EUA, esteve no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio para a exposição “Rebobine, por favor”, título de seu último filme exibido aqui. Mas a conversa deste importante e atípico francês com o público perdeu muito por falta de uma simples tradução simultânea. Percalços assim, no entanto, foram raros. Mesmo eventos fora da programação do ano foram bem aproveitados pelos representantes da França aqui e pelo público. O Festival do Rio, trouxe um foco França reforçado, trazendo um maior número de realizadores de lá. Houve uma forte programação das artes plásticas também. As exposições “Matisse hoje”, na Pinacoteca de São Paulo, e “O mundo mágico de Marc Chagall”, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio, carregaram muito brasileiro a se aventurar pelos acervos franceses..

Diante da overdose de boas relações com a França, uma pergunta: o que faz com que um país se interesse pela cultura de outro assim tão entusiasticamente? Que afinidades, empatias, seriam estas? A simbiose cultural Brasil/França, sabemos, é sólida e antiga. Em especial, na seara audiovisual. Desde que o cinematógrafo criado pelos irmãos Lumière fez luz por aqui que a recíproca afeição se processa. Na época do Cinema Novo, os críticos da Cahiers du Cinéma foram os primeiros e mais aguerridos, lá fora, a apontar nas obras de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Paulo Cesar Saraceni, e outros, um valor original. Este olhar cuidadoso nos trouxe a Novelle Vague e nos levou com força à Europa, nos anos 60. Antes, bem antes, nos anos 20, Alberto Cavalcanti já havia migrado para lá. Marcel Camus já tinha filmado aqui sua versão de Orfeu Negro, em 1958. Isso só para citar alguns dos muitos escambos realizados entre nossas cinematografias desde sempre até hoje. Uma prova do fascínio mútuo é que em pleno ano da França no Brasil, o cinema brasileiro foi capa da Pariscope. O Festival de Cinema Brasileiro de Paris, que completou doze anos e reúne a cada edição cerca de sete mil pessoas, no Cinéma Nouveau Latina, no Marais, emplacou com destaque na revista semanal consultada por nove entre dez parisienses que querem se informar sobre a programação cultural na cidade. Segundo Kátia Adler, realizadora do festival, "o crescimento do público de cerca de 20% de ano a ano, com a Pariscope e pós-ano do Brasil na França, foi um pouco maior desta vez". Uma homenagem aos 50 anos da bossa nova, com filmes como “Coisa mais linda” (2005), de Paulo Thiago, e “Vinicius” (2005), de Miguel Faria, e um show de encerramento com Adriana Calcanhoto, Moreno Veloso e Domenico também ajudaram a fazer por lá o que os franceses fizeram por aqui: atrairam muita gente. E se há adoração aqui pelo cinema mais elaborado de lá, por lá o mesmo se dá. “Se nada mais der certo”, de José Eduardo Belmonte, longa considerado praticamente outsider por aqui, ganhou o prêmio de melhor filme, e “Chega de saudade”, de Laís Bodanzky, ficou com menção especial e prêmio do público. "O francês é bem exigente e diferente. Júri popular costuma preferir comédias, mas lá eles acabam votando nos mais intimistas", completa Adler.

O festival ganhou tanto aconchego numa cidade de língua francesa, que Kátia levou o intento, em forma de mostra, para Toronto e Montreal, no Canadá. Em Toronto, no The Royal, com capacidade para 400 espectadores. E, em Montreal, na maior sala independente da cidade: o Cinéma du Parc. Nos dois, documentários musicais recentes, como “Palavra (en)cantada” (2008), de Helena Solberg e Marcio Debellian, e filmes como “Apenas o fim” (2008), de Matheus Souza, encabeçaram a lista dos programados. Se nossa relação com a francofonia continuar se intensificando assim não vai haver caravela que chegue nem para cá, nem para lá. Que Villegagnon nos ouça!.

 

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