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Por Sandra Teixeira | Fotos de Mario Grisolli

Para os novos moradores, o vazio não é sinal de tristeza, é estÍmulo para sonhar e escrever UMA outra história. Mesmo que, precavidos eles repitam o antigo gesto de mudar as chaves da porta
(Trecho do roteiro do filme Ponto Final de Marcelo Taranto)

   Foram dois encontros marcados, longos e intensos. O primeiro, em um café em Laranjeiras, fez a ponte para o segundo. Inevitável. Falar de uma vida inteira requer tempo. Na casa da atriz Dedina Bernardelli no Jardim Botânico, cercada dos seus afetos e objetos, descubro que ela é dona do seu tempo. Sabe, como poucos, tirar proveito da maturidade, da dor e da alegria. “Sou uma pessoa muito solar. Acordo de bom humor e, se puder, boto uma minissaia e vou à praia. A minha natureza é de menina”, fala com um largo sorriso no rosto.
   Filha de italianos, nascida no bairro da Glória no dia 23 abril de 1964, Dedina está casada há 20 anos com o artista plástico José Bechara, com quem tem duas filhas: Luisa, de 15 anos, e Teresa, de 8 anos. Na vida profissional, colhe os frutos dos 26 anos de carreira e dos investimentos no cinema nacional. Em menos de dois anos, a atriz fez quatro filmes. O mais recente, um longa-metragem chamado Ponto Final, de Marcelo Taranto, tem estréia prevista para 2010. Foi protagonista do curta Paixão – um folhetim, de Sérgio Fonta, e de dois longas-metragens: No Meu Lugar, de Eduardo Valente, que estreou em outubro de 2009 e teve exibição na seleção oficial do Festival de Cannes (2009); e Adágio Sostenuto, de Pompeu Aguiar, que estreou nos circuitos do Rio e São Paulo no primeiro semestre de 2009, conquistando o prêmio de melhor roteiro no Festival de Los Angeles de 2008 e o de melhor atriz no Festival Ibero Americano de Sergipe. Em Adágio Sostenuto Dedina também é protagonista.
   
E o tempo também foi generoso conosco. Tudo aconteceu sem pressa e, durante a entrevista, mudamos várias vezes de papéis. Ela me diz: “Quando se faz um personagem, é preciso emprestar a nossa verdade. O que importa é a verdade da cena, e para que isso exista é importante viver essa verdade. A construção do personagem não é de fora pra dentro: demorei algum tempo pra descobrir isso!”
   
E o convite para participar da cena, daquele encontro era irrecusável. Comemos e bebemos juntas, contamos histórias e dividimos emoções. Dedina é assim, mergulhadora de águas profundas, verdadeira em tudo o que faz. “O que vale a pena na vida são as relações. A vida sem vínculo é muito estranha”, fala olhando nos olhos. Concordo e mergulho!

O CAMINHO NATURAL DAS COISAS

O que levou a adolescente Dedina querer fazer teatro foi a vontade de não ficar presa a uma única coisa. Mas ela só se deu conta do seu desejo quando subiu no palco profissionalmente. “Nunca havia pensado em ser atriz. Tenho a impressão de que foi uma onda que veio e me levou. Eu sou apaixonada por tudo. Acho tudo fascinante. Adoraria ser uma bióloga, uma arqueóloga, uma pianista, mas como atriz tenho a oportunidade de ser tudo isso”.

Na primeira vez ela foi com a amiga de infância, Dani, para o curso do Tablado. Embora tenha achado a experiência interessante, Dedina resolveu seguir o caminho natural das coisas: foi fazer vestibular como os pais queriam. Passou para Biologia Marinha, mas sentiu vontade de fazer algo mais. Dessa vez, foi sozinha ao Tablado. Matriculou-se então no curso do diretor Carlos Wilson, o Damião, que estava selecionando o elenco para a peça Capitães de Areia, de Jorge Amado. “Eu não conhecia ninguém lá, mas logo de cara fui escolhida para fazer a Dora de Capitães de Areia, que é um personagem lindo”. Interpretada por uma juventude promissora de atores cariocas, a peça Capitães de Areia, que fez muito sucesso, lançou os atores Felipe Camargo, Maurício Mattar, Bianca Byngton, Roberto Bataglin, Roberto Bomtempo, Alexandre Frota e Dedina Bernardelli. Todos, com exceção dela, já sabiam claramente que queriam ser profissionais. “Fui fazer teatro porque gostava, nunca pensei em uma carreira de sucesso, e não tenho isso até hoje. Estou sempre indo por caminhos diferentes, menos óbvios de trabalho. Sou feliz assim, procuro fazer tudo do meu tamanho”, comenta Dedina se referindo a sua trajetória.

APRENDENDO A CONVIVER COM A AUSÊNCIA:
ANTES DO TEATRO

   A italiana Maria Antonieta, a Miti, mãe da Dedina chegou no Brasil nos anos 1950. E trouxe consigo as lembranças difíceis da Segunda Guerra e dos soldados de Mussolini. Aqui, aprendeu o português e se transformou numa mulher bonita e sonhadora. Casou-se com Giovanni, engenheiro italiano que veio montar a fábrica de lanchas Cabrasmar no Brasil. Embora os pés já estivessem fincados aqui, com marido e duas filhas, Miti sentia uma saudade imensa de sua terra natal. E, sempre que podia, passava longos períodos na Itália. Dedina aprendeu cedo a lidar com a ausência da mãe e com a saudade.
   
A presença marcante e delicada, com suas histórias, seu cheiro, roupas e objetos, cuidados e ausências deram a Miti um lugar muito especial na vida da filha caçula. E não foi nada fácil para Dedina viver a partida silenciosa da mãe que, há 25 anos, por conta de uma doença degenerativa, foi perdendo os movimentos e as lembranças. “Demorei muito para compreender o que estava acontecendo. No início, reagi mal e fiquei com muita raiva. Senti que estava sendo abandonada em um momento que ainda precisava muito dela”, analisa.
   
O amor do marido Giovanni e das filhas, e os cuidados permanentes dos acompanhantes, diluem um pouco a dor. “Minha mãe se comunica muito com os olhos. Acho que ela sabe quem eu sou e reconhece todo mundo. Com ela doente na cama, é inevitável que eu me coloque no lugar dela algumas vezes, até para saber como vou ajudá-la”.

A DOR PODE APROXIMAR

   Dedina não convivia muito com o pai, que estava sempre envolvido com o trabalho. Com a doença da mãe, houve uma grande aproximação. “Meu pai é um homem especial. Cuidou da minha mãe a vida toda. Sinto que sempre teve um amor profundo por ela. É um homem leal. E isso me foi ensinado”.
   
Hoje, mais madura, lembra que muitas coisas mudaram com a aposentadoria do pai. Um lado mais sensível pôde aparecer como, por exemplo, o gosto pela pintura e a poesia. “Meu pai foi diretor de uma grande empresa, comandava muitos homens. Precisava vestir um personagem. E minha mãe o conhecia muito. Eles tinham os segredos de alcova, uma vida muito pessoal, secreta, que era esse lado mais delicado do meu pai e que vim a conhecer mais tarde”, conta Dedina..
   
E os laços foram se estreitando, a intimidade e o amor curam algumas feridas. Mas quando conheceu José Bechara o desejo de ser mãe apareceu. “Sabia que queria um filho daquele homem, e não importa o que acontecesse, porque eu gostei da firmeza dele, do caráter dele. Existe amor, independente de nos separarmos ou não um dia. O sentimento é para sempre”
   
A presença do marido e pai é percebida no ambiente. Durante a entrevista, ele liga para saber de suas meninas. Nesse território tão feminino, os quadros de Bechara, na sua ausência, também servem de contorno, de moldura. “Não temos um casamento aberto, mas temos espaços de respiração. Acho que nunca tivemos uma estabilidade, mesmo agora que estamos mais velhos. Ficamos um pouco mais calmos... Mas acho que é por isso que sinto que o nosso casamento não tem tanto tempo. Vou catando o que a vida me apresenta e colocando na panela”, esclarece Dedina.

A ARTE DE SE COLOCAR NO LUGAR DO OUTRO

   Tudo que aprendeu com a mãe e com a vida serve de recurso para a criação de seus personagens. Diz que de outro modo não mergulharia tão profundamente na vida: “Sou muito grata também aos meus personagens por me tornarem uma pessoa melhor”, completa Dedina. Não é à toa que a atriz aceitou, nos últimos dois anos, grandes desafios no cinema. Todos os filmes que fez recentemente falam de algum tipo de perda. “É um tema novo no meu trabalho, mas a maturidade está me ajudando. A gente passa a vida toda se protegendo... Passei a falar de dentro e a usar um lado que eu sempre escondia”.
   Perdas violentas que despedaçam a alma são retratadas, de algum modo, nos quatro filmes. No curta Paixão, de Sérgio Fonta, é sobre a perda da razão; nos longas-metragens Adágio Sostenuto, de Pompeu Aguiar; e No Meu Lugar, de Eduardo Valente; as personagens perdem seus maridos; e em Ponto Final, de Marcelo Taranto, um casal em crise no casamento perde a filha adolescente. Todos os personagens, por conta da perda, vão passar por algum tipo de transformação.
   Adagio Sostenuto é um filme de ideias que privilegia também o silêncio. “É preciso estar pensando junto com o diretor para saber até onde podemos ir”. E acrescenta: “É no silêncio que mais falamos. Os momentos de silêncio em um filme são os que dizem mais coisas”.
   
“Aprendi com o Pompeu Aguiar (diretor de Adágio) que um filme não é nunca um filme só. Ele sempre quer dizer algo mais. Porque um filme é sempre um sonho de alguém, de uma pessoa, que se desdobra em vários sonhos”, lembra Dedina Bernadelli.
   Ainda sobre o silêncio, ela completa: “No filme No Meu lugar tem um momento que a câmera está fechada em mim. Meus olhos estão cheios de lágrimas, enquanto a minha personagem vê um vídeo do aniversário da filha com o marido ainda vivo. Esse momento diz tudo sobre a cena. É uma síntese do meu personagem”.
   E falar dos inúmeros papéis e poder falar também da mulher Dedina, que no seu mergulho de cabeça na vida, empresta sua alma aos personagens, assim como recebe o alimento necessário deles. “Preciso dessa dupla personalidade para estar viva. Uma coisa só é muito pouco. Gostaria de ter mais vidas, experimentar coisas diferentes, e o ator poder fazer isso sem ter que acabar uma para começar outra”.
   E cada personagem é construído de um jeito. Em Ponto Final, seu último filme, Dedina enfrentou o maior desafio da sua vida. Ela interpretou Helena, uma mulher que passa por diversas perdas: um casamento que está acabando e que se sustenta ainda por conta de uma filha adolescente e, depois, a morte da filha. “Helena é dura, tem dificuldade de entrar em contato com a dor. Conheço várias pessoas assim. São pessoas que não elaboram a dor, o luto, que acham que devem seguir sempre em frente. Elas têm medo de se aprofundar, porque acham que não conseguem mais sair desse lugar”, analisa.
   A atriz se preparou para viver a personagem. “Tudo que nos toca está dentro da gente. Tem que deixar a porta se abrir. Conheço pessoas que preferiram não ter filhos, para não ter que passar pela possibilidade da perda. Mas a vida sem vínculo não tem sentido. A dor marca, mas a felicidade também. Não é possível negar tudo aquilo que se viveu”.
.  Chegamos ao fim da entrevista. Ponto final...
   Mas fico com a sensação de que estamos apenas começando uma longa história...
.

 

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