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A trajetória de Amir Haddad, um diretor idealista, inquietante, utópico e sonhador que nos anos 80 fundou o grupo tá na rua
Por
Flávia
Machado
Santa Teresa. Bairro carioca, um quê de Rio antigo. Arquitetura rica, poesia, ladeiras sinuosas, o charme do bonde. Reduto de artistas, floresta, vista deslumbrante da Baía de Guanabara. Moradores e turistas se deleitam, não apenas com a paisagem, mas também com a mistura de cores, cheiros, raças e ritmos que ecoam de suas ladeiras.
Escritores e artistas sempre foram atraídos por Santa Teresa, seduzidos por seu charme e por suas riquezas arquitetônicas e culturais. Não poderia haver lugar mais apropriado do que este para morar o consagrado diretor de teatro Amir Haddad, que há 30 anos namora a vista de sua janela, da cidade que considera a melhor de todas para se viver.
Idealista, inquietante, utópico e sonhador. Para descrever a trajetória deste diretor é preciso levar em consideração todos estes adjetivos e a sua imensa capacidade de realizar seus projetos, seus sonhos. Na bagagem constam mais de 100 peças teatrais dirigidas, um grupo de teatro popular “Tá na Rua”, fundado em 1980, e a personalidade de quem acredita que a cultura popular brasileira pode ser um caminho para o Brasil se diferenciar dos demais. Atualmente em cartaz assinando a direção da peça “As Meninas”, com texto de Maitê Proença e Luiz Carlos Góes, no Shopping da Gávea, Amir cita além desta, outras peças de destaque em sua carreira, como “Pixinguinha”, “Uma Cidadezinha Qualquer”, “Noite de Reis”, “A Construção”, e “Alegria de Palhaço é Ver o Circo Pegar Fogo”.
A Carreira
Nascido mineiro, em Guaxupé, e criado no interior de São Paulo, em Rancharia, onde passou parte de sua infância e adolescência, Amir Haddad vem de uma família de imigrantes árabes. A paixão pelo teatro vem dos tempos da escola, onde ele ficava observando o diretor do Grupo Escolar atuar como diretor de teatro. “Lembro-me da primeira peça em que atuei: João e Maria. O diretor tocava uma valsa brasileira na clarineta. Aquela música, aquela atmosfera romântica está presente em todos os meus trabalhos, até hoje!”, relembra entusiasmado.
De Rancharia, foi para São Paulo estudar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde não chegou a se formar. O teatro o seduziu primeiro. Na capital paulista da década de 50 havia uma efervescência cultural muito grande e uma burguesia forte, disposta a investir no teatro. Foi então que surge o Teatro Brasileiro Moderno. “Não havia televisão e o cinema estava começando por aqui. Os diretores eram estrangeiros – italianos, franceses, - e deram uma importante contribuição para o surgimento de uma linguagem do teatro brasileiro”, acredita.
Foi nessa época também que surge a concepção moderna do espetáculo, em que o diretor é visto agora como um artista independente, que possui sua própria obra. Além dele mesmo, Amir cita diversos nomes que foram de extrema importância e fizeram história no teatro brasileiro, como Ziembinski, Augusto Boal e Zé Celso. Este último sendo inclusive seu companheiro na criação do Teatro Oficina, em 1957. A criação do grupo acontece logo depois de uma tentativa frustrada de entrar para a Escola de Arte Dramática, em São Paulo. E, apesar de não ter cursado uma faculdade de teatro, o aprendizado da arte dramática foi acontecendo na prática. Em 1959, ainda com o Oficina, participa, entre outras, de “A Incubadeira”, de Zé Celso, peça que lhe vale seu primeiro prêmio de melhor direção.
No início da década de 60, desliga-se do Teatro Oficina e segue para Belém, no Pará, onde realiza uma série de trabalhos para a Escola de Teatro de Belém.
Por lá permanece durante quatro anos, dando aulas e montando espetáculos, período que considera de extrema importância para o amadurecimento de sua carreira. Em 1965, durante uma passagem pelo Rio de Janeiro, o Teatro Universitário Carioca o convida para dirigir “O Coronel de Macambira”, de Joaquim Cardoso, e Amir acaba por permanecer aqui.
Dos muitos prêmios que conquistou - entre eles dois Molières de melhor direção: um em 1969 com “A Construção”, de Altimar Pimentel, e outro em 1970, com “O Marido Vai à Caça”, de Georges Feydeau -, os que mais lhe deixam lisonjeados são o Título de Cidadão Carioca e a Medalha de Mérito Pedro Ernesto. “Devo minhas influências artística e cultural ao Rio de Janeiro e não poderia haver prêmio melhor do que estes reconhecimentos”, avalia Amir.
Apesar de não ter nascido no Rio, Amir Haddad se considera um cidadão carioca, com muito orgulho. Ferrenho defensor dos costumes e tradições locais, ele teme a ordem imposta e a descaracterização da cidade. “O Rio de Janeiro tem uma identidade cultural fantástica. A maneira carioca de se viver deveria ser patrimônio da humanidade. E os governos deveriam estimular, através da cultura, o surgimento de iniciativas mais criativas para a resolução de nossos problemas sociais”, idealiza. E completa dizendo que o Brasil, não somente o Rio de Janeiro, pode ter um papel fundamental na construção de uma nova ordem, de um mundo mais saudável para todos viverem. “Estamos vivendo um período de crise, onde os valores morais e éticos estão em segundo plano. A ordem econômica é a predominante. Podemos traçar novos caminhos e estimular um processo civilizatório mais saudável”, acredita ele.

Conscientizar através da cultura
A insatisfação das salas fechadas de teatro, a sufocante ditadura militar e a falta de espaço para a discussão política, social e cultural fizeram com que Amir fundasse, em 1980, o grupo de teatro “Tá na Rua”. A vontade de fazer a arte chegar a todos os públicos, sem nenhum tipo de artifício de linguagem, sem nenhum comprometimento político ou econômico, fez nascer um grupo de teatro popular que se expressa através da dança, da música e da narrativa. O “Tá na Rua” se apresenta em praças públicas, com uma linguagem simples, onde os atores interagem com os espectadores. Todas as formas brasileiras de manifestação cultural estão presentes nos espetáculos: as festas religiosas, a umbanda, o candomblé, o futebol e o carnaval. “Viajamos pelo Brasil e pelo mundo e nosso intuito é conscientizar através da cultura, em todos os lugares, sem nenhum tipo de barreira.”
O grupo, que conta permanentemente com cerca de 15 integrantes, tem sua sede no bairro da Lapa e oferece cursos de formação de atores. Para Amir, o ator que se apresenta na praça e interage com o público dá conta de qualquer recado. “Formamos atores com opinião e com discurso próprio”, pontua.
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